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Santos, 07 de Setembro de 2010
Coluna do Corrêa
Sérgio Luiz Corrêa
A realidade da Portuguesa Santista

Fundada em 1917, quando a Europa era devastada pela I Guerra Mundial e o Brasil tinha na presidência o mineiro Wenceslau Braz, a Portuguesa Santista nunca foi um clube fadado a conquistas nesses seus quase 93 anos de existência. Nascida sob o signo de Escorpião, ela viveu alguns raríssimos momentos de esplendor, como a vitoriosa excursão ao continente africano em 1959 que lhe rendeu o título de Fita Azul do Futebol Brasileiro, a histórica conquista do Acesso em 1965 com Samarone na "Batalha de Moisés Lucarelli" contra a Ponte Preta e só. Depois, o sobe e desce de divisões marcado por jogos empolgantes.

Essa pequena folha de serviços prestados ao futebol fez dela uma agremiação modesta na Cidade. Voltas olímpicas não existiram, mas os craques que a Portuguesa revelou foram muitos. Possuía uma plêiade de dirigentes cujos nomes são lembrados com saudosismo toda vez que o clube mergulha em crise, como está acontecendo agora. É séria candidata a cair para a 4.ª Divisão de São Paulo, indo juntar-se ao Jabaquara, AD Guarujá e ao São Vicente. Pela primeira vez em sua história, corre o risco de ser rebaixada de divisão em três anos consecutivos. E tudo indica que se permanecer nessa toada, a Briosa vai ser o Titanic da vez.

Após sete rodadas no Campeonato Paulista da Série A-3, só ganhou um jogo, empatou outro e perdeu cinco. Está em penúltimo lugar e o presidente, Avelino dos Santos, o Lino, empresário do ramo de cestas básicas, afirma que o clube não tem dinheiro para investir forte no elenco e reclama da falta de colaboradores.  A verba do futebol é de R$ 80 mil, que é quanto Neymar recebia antes renovar seu último contrato com o Santos semanas atrás. A gerência de futebol foi entregue ao empresário e diretor Gérson Vieira. "O Gersinho é um bom moço, tem dinheiro, mas não entende nada de futebol", dizia um  conselheiro, que pediu anonimato.

Não dá mesmo para fazer milagres, ainda mais que a cota da Federação Paulista de Futebol para os clubes da A-3 é de R$ 60 mil, valor que o Santos gastava com Fábio Costa por ano como "auxílio-moradia". A dívida com a FPF é de R$ 250 mil. Há cerca de 80 ações na Justiça do Trabalho. O déficit atual do clube é de R$ 3,5 milhões. Em termos de mercado globalizado esse valor é praticamente insignificante, mas para a Portuguesa é uma fortuna. "A Caixa ainda tira 10% da nossa receita bruta para amortizar as dívidas", diz o presidente.

A Portuguesa já trocou duas vezes de treinador e apesar da péssima campanha o elenco está inchado. Consta que há 31 jogadores. Todos são desconhecidos do público santista, inclusive o técnico, Rogério Delgado, que fez carreira dirigindo equipes do Interior de São Paulo. A grande maioria dos jogadores é de fora. Outro fato que ajuda a explicar a situação é a mentalidade que reina em Ulrico Mursa. O clube é politicamente agitado devido a correntes políticas que alimentam o desentendimento, as picuinhas e o revanchismo.  

O Departamento Amador foi terceirizado por dez anos através de acordo formalizado com a diretoria anterior. Já se passaram quatro anos. O responsável pelo setor é o ex-zagueiro Fernando Mattos. Pela legislação nem sempre é possível segurar o garoto que se destaca na base. Muitos vão embora levados por empresários, mas a Portuguesa tem participação no caso de futuras negociações na condição de clube formador. Como já aconteceu com o Santos em relação a Robinho. Experiente. Fernando Mattos, que como jogador fez história no clube, acha que não é só o dinheiro que vai resolver a situação da Portuguesa. "Resumo tudo isso em duas palavras: planejamento e conhecimento. Os resultados até agora falam por si".

Sem dinheiro, sem um time competitivo, sem estrutura e pagando salários irrisórios aos jogadores, Avelino não vê solução imediata para recolocar a Portuguesa na divisão de elite de São Paulo. Um sonho que virou pesadelo quando ele assumiu o clube e viu o tamanho do abacaxi para descascar. "Eu poderia gastar um milhão em reforços se quisesse, montar uma grande equipe e deixar as contas para quem viesse assumir o clube mais tarde. Mas não tenho essa índole. Pelo menos me sinto tranquilo, consciente de que estou fazendo a coisa certa".

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