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Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

.Colunistas
Ouhydes Fonseca

Ouhydes Fonseca
Segunda Leitura

30/10/2011

Colunistas / Segunda Leitura

A sedução da leitura

No cinema, na literatura e no jornalismo existem textos sujeitos a, vez ou outra, ser relembrados, em especial por sua qualidade intrínseca ou por remeter a algum novo acontecimento. E que, por isso, servem de referência. É o caso da reportagem “Frank Sinatra está resfriado”, produzida por Gay Talese em 1966 para a revista Esquire e posteriormente reproduzida numa coleção de artigos sob o título Fama e anonimato. Considerado como uma das obras responsáveis pelo surgimento de movimento chamado de Novo Jornalismo, o artigo sobre Sinatra havia sido pautado com base em entrevista com o mais famoso cantor da época.

Devido a um forte e longo resfriado, não houve tempo para que a entrevista se consumasse, mas Talese resolveu produzir o texto com base apenas em observações do que Sinatra fazia ou conversava com pessoas próximas a ele.

Acabou criando algo até então inimaginável: uma reportagem em que o repórter não teve acesso pessoal ao personagem principal. Esse fato voltou a ser lembrado e citado neste mês graças ao lançamento de um livro de memórias escrito pela viúva do cantor, Barbara Blakeley ( ainda sem tradução para o português). E, como afirma o escritor e colunista da Folha de S.Paulo, Ruy Castro, ao contrário de Talese teve muito tempo (22 anos) e oportunidades para levar um papo mais íntimo com o cantor. Bárbara não se refere ao artigo da Esquire, mas incentivou novas conversas sobre as circunstâncias em que ele foi redigido, especialmente na área acadêmica, em que outros livros de Talese, como A mulher do próximo, Honrados mafiosos e O reino e o poder, além dos dois mais recentes ainda não passados para o português A writer’s. life e The silent season of a hero são apontados como bons exemplos do Novo Jornalismo, representado também por outros como Norman Mailer, Gore Vidal e Tom Wolf.

Em sua última passagem no Brasil, em 2009, para participar da Festa Internacional de Paraty, Talese voltou a falar da reportagem sobre Sinatra como gancho para introduzir o tema Novo Jornalismo, que a seu ver incorpora ao jornalismo características da literatura (descrição de cenas, diálogos, pontos de vista dos personagens e perfis, que, no seu caso, destacaram , além de Sinatra, nomes como os de Joe Di Maggio, jogador de beisebol e namorado de Marilyn Monroe, e os pugilistas Floyd Patterson e Joe Louis. Sobre a exigência de diploma universitário específico para o exercício profissional do jornalismo, Talese acha que tem coisas favoráveis e desfavoráveis. “ O curso de jornalismo não torna as pessoas automaticamente em jornalistas”, disse, lembrando que teve bons estudos, mas não estudou um curso de jornalismo.

E disse: “O que faz um grande jornalista é 1) a curiosidade, depois a paciência para acompanhar as pessoas; 2) paciência para acompanhar as pessoas, para ouvi-las, entender como elas pensam, estar dentro delas em vez de ficar apegado ao seu ponto de vista, ‘eu,eu,eu’, transformar-se na outra pessoa ouvindo;3) apurar os fatos certos. Eles (as escolas) podem ensinar isso num curso); 4) escrever. Sempre acreditei que os jornalistas deveriam escrever tão bem quanto os autores de ficção. O jornalismo pode ser tão bem feito quanto uma história de um contista ou um romancista. As situações podem ser descritivas, anedóticas,  revelar um conflito, mas têm que ser verdadeiras. Como jornalista, você é um contador de histórias. Na universidade, você aprende as formas do lide (abertura de um texto), mas não aprende essas outras coisas.

Sedução é a palavra certa. Todos os grandes autores não grandes sedutores”. São lições de sempre e desejáveis. A questão, num mundo em que as comunicações se realizam em tempo real, é encontrar uma fórmula que permita conciliar a pura informação com o prazer de produzir ou de ler textos mais longos e demorador, ainda que sedutores.
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