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Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

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08/01/2012

Porto-Cidade

Sete dias num vapor

Sete dias num vapor

Já naveguei por alguns (poucos) mares ao longo da vida, na realidade e em sonhos, mas posso garantir que nenhuma das vezes tive uma experiência tão gratificante como a de navegar durante sete dias num barco a vapor conhecido como “gaiola”, daqueles impulsionados por roda d’água, como na viagem que fiz por quase 1.500 quilômetros no Rio São Francisco, entre Pirapora (Minas Gerais) e Petrolina (Pernambuco).

Acomodado num camarote e acompanhado do amigo jornalista Antonio Mineiro, viajamos por cidades mineiras no fusca azul, com placa de Cubatão, emprestado por minha querida tia Emilia e chegamos a Pirapora para a primeira grande aventura: embarcar o fusca no navio Benjamim Guimarães. O carro foi como carga, entre engradados de legumes e de galinhas, ao lado de redes que viajantes armavam para dormir entre uma cidade e outra do Velho Chico.

Os gaiolas faziam a rota no pinga-pinga das cidades ribeirinhas, no entra e sai de gente marcada pelo sol e pela doce liberdade da imensidão do rio. Era o ônibus fluvial, que se mantém até hoje, apesar de promessas vãs de um futuro melhor.

A viagem ocorreu um ano antes da construção da barragem de Sobradinho, que engoliu ao menos quatro cidades do Velho Chico: Remanso, Casa Nova, Sento Sé e Pilão Arcado. E também um ano antes da famosa canção “Sobradinho”, o rock rural que cita as cidades e que foi eternizado na voz da dupla Sá & Guarabyra. “O sertão vai virar mar, dá no coração/ o medo que algum dia o mar também vire sertão...” – era o refrão da famosa música, que continuava: “Adeus Remanso, Casa Nova, Sento Sé/ Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir.”

Percorri cada palmo dessas e de outras cidades como Xique-Xique, algumas já parecendo cidades fantasmas, casas semidemolidas, igrejas vazias... Conversei com moradores, e havia no peito de cada um não o medo da mudança para outros locais construídos para abrigá-los, ou o medo da incerteza, mas um sentimento mais profundo: o de deixar para trás a terra em que nasceram, viveram e trabalharam. Mais que isso, e pior, na mudança entre mesas, camas e cadeiras, bens materiais do pouco que tinham, não poderiam levar os entes queridos dos cemitérios.  Esse era o verdadeiro pavor, especialmente dos mais velhos.

Visitei duas das cidades que abrigavam as primeiras famílias, chamadas de Nova Remanso e Nova Casa Nova, casas de alvenaria, bem diferentes das de pau a pique das antigas cidades. Juntei na porta da nova casa a primeira família para uma fotografia que não me sai da memória até hoje. Os pais, jovens ainda, e meia dúzia de filhos, sorrindo para um desconhecido.

Em alguns trechos reconheci a seca, no contraste com a abundância do rio. A vida difícil das noites sem luz elétrica, a luz de velas ao longe num casebre no meio do mato, o gado morto nas ribanceiras – bois que desciam para beber água no rio e não suportavam o peso da subida, na volta... Eram o alimento fácil de piranhas, peixes que também alimentavam os que transitavam no barco com seus fogareiros a óleo. Um deles me ofereceu um pedaço de piranha frita na hora, e não recusei. De sobremesa, quase sempre, rapadura.

Fiz no barco algumas amizades que se foram em cada porto de parada. A alguns ofereci as músicas do toca-fitas do carro, quando acionava o motor, dia sim dia não. Logo se aglomeravam em volta do fusca para ouvir aquele repertório estranho, de sotaque diferente. Era a globalização cultural em tempo errado.
Foi ali no Velho Chico que registrei as melhores imagens de pôr do sol e de amanhecer que jamais vi em lugar algum. A noite trazia na chaminé do barco uma língua de fogo, da brasa da lenha ardente, que enfeitava o céu, também lá, como em outra velha canção, salpicado de estrelas.

Partindo de Pirapora, o gaiola passava por cidades como Guaicuí, na confluência com o famoso Rio das Velhas,  dos bandeirantes, Ibiaí, São Francisco, Maria da Cruz, Januária, a cidade mineira da cachaça, Matias Cardoso, Malhada, Carinhanha, Bom Jesus da Lapa, Gameleira, Ibotirama, Barra, Xique-Xique, Pilão Arcado, Remanso, Oliveira, Sento Sé, Casa Nova, Sobrado, Juazeiro e Petrolina. Cada uma com seu folclore, o artesanato, a peixada de surubim, a buchada de bode... Riquezas sem fim.

O São Francisco já foi chamado de “rio da integração nacional”, devido às entradas pelo interior no século 17, de “rio dos currais” porque por ele se conduzia o gado do Nordeste para Minas e teve o seu ciclo do ouro, os tempos da seca, as transformações pelas barragens... Para muitos continua sendo o “Velho Chico” das cidades dos barrancos, dos pescadores, das lavadeiras, um parque de diversões para crianças ribeirinhas, e o fio condutor do comércio entre as cidades banhadas por ele. Um rio usado na politicagem de sempre e que, por ela, não leva a água sertão adentro.

Fiquei feliz ao saber pela internet que ainda navega o velho navio Benjamim Guimarães, construído em 1913 nos Estados Unidos para navegar no Rio Mississipi, transferido nos anos de 1920 para o Rio São Francisco. Após tanto tempo no rio e de várias reformas, foi finalmente incorporado como Patrimônio Histórico de Pirapora e faz hoje curtas viagens com turistas em um trecho do rio.

Retornei ao rio recentemente, de carro, em viagem turística com a família pelo sertão na divisa entre Sergipe e Alagoas, até a hidrelétrica de Xingó, onde pegamos um moderno catamarã em roteiro pelas águas do Velho Chico. Ali, uma região inundada para a represa, a profundidade dos cânions chega a 200 metros! Foi bom recordar do rio. Mas não foi a mesma coisa. A água não tinha mais a doçura de antes, da viagem de sete dias pendurado no antigo vapor. Essa, jamais esquecerei.

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