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Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

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03/02/2012

Colunistas / Social

Olhos nos olhos com Tony Goes

Olhos nos olhos com Tony Goes
JOGO RÁPIDO

Sonho: viajar ainda mais do que já viajo.
Medo: perder as pessoas que amo.
Mania: checar e-mails de cinco em cinco minutos.
Amor: pelo mundo.
Sexo: "sim, por favor!" (como dizia Austin Powers).
Ser gay é: um privilégio e um desafio.
Qualidade: querer sempre agradar.
Defeito: querer agradar sempre.
Mania: meu blog.
Frase: "Se a vida fosse fácil, motorista tinha troco".

Publicitário em período integral, blogueiro nas horas vagas, roteirista e crítico influente, TONY GOES tem 50 anos e vive em São Paulo. Escreveu para vários programas de TV e alguns longas-metragens, como Avassaladoras, com Giovanna Antonelli e Reynaldo Gianechini. Atualmente, assina a coluna Pergunte ao Amigo Gay, na revista Women's Health, colabora frequentemente com a revista Junior, e com o caderno Ilustrada, do jornal Folha de S.Paulo, onde, no portal, foi um dos comentaristas do Big Brother 11.

Com a polêmica de suspeita de estupro no BBB, e a reação da opinião pública, podemos dizer que nem tudo é permitido na TV brasileira?
Nem tudo é permitido em qualquer TV do mundo, ainda mais em canal aberto e horário razoavelmente nobre. O BBB já é um programa controverso, com cada vez mais gente reclamando a cada nova edição. Este episódio do suposto estupro pode custar simplesmente a sobrevivência do reality. Mas isto não quer dizer que nossa TV esteja ficando mais "limpa", porque grande parte do público ainda adora uma baixaria.

Chegamos ao limite de nossa programação, ou você avalia que vem mais por aí?
Acho que as emissoras vão ficar mais cautelosas. A internet permite hoje uma resposta instantânea da audiência, algo a que elas ainda não estão acostumadas.

As emissoras ainda não estão preparadas para lidar com a repercussão da própria programação pela internet?
Ainda não. As redes sociais têm efeito de bola de neve que vem apanhando quase todas as emissoras de surpresa. Não existe mais o "monopólio da fala" que elas estavam habituadas. Agora o espectador responde na hora quando vê algo que não gosta, e tem enorme capacidade de mobilização.

Qual o melhor, e o pior, programa da TV brasileira?
Há muita coisa boa: grande parte da dramaturgia da Globo, as séries produzidas por aqui pela HBO, o humor da MTV… Difícil escolher. Já o pior é fácil: os programas religiosos que pregam a homofobia e exploram a miséria humana, prometendo milagres em troca de dinheiro.

Em um de seus artigos, você contestou a declaração de Carlos Nascimento - "Nós já fomos mais inteligentes", quando ele se referiu ao suposto estupro no BBB e celebrização instantânea da "Luiza, que voltou do Canadá". Por que, em sua opinião, "não estamos mais burros"?
Acho muito cômoda essa falsa nostalgia, "antigamente era melhor"… Quando foi mesmo que fomos mais inteligentes? Há dez anos, quando o Ratinho estava no auge? No caso específico do grande jornalista que é Carlos Nascimento, acho que ele fez uma leitura equivocada do que aconteceu há alguns dias. O público não está muito interessado no BBB, tanto que a audiência do programa vem caindo. Está interessado em saber se houve mesmo estupro lá dentro, uma acusação gravíssima. No caso da Luiza, na verdade o Brasil inteiro estava tirando sarro da fala pedante do colunista Geraldo Rabello, de João Pessoa, o que é muito saudável. Continuamos irreverentes como sempre fomos, e cada vez mais plugados.

Em outro artigo, você lançou o questionamento de que o BBB, hoje "considerado lixo em estado puro, mais ou menos como o era Dercy 50 anos atrás", será a Dercy do futuro.  O "trash" será o "cult" de amanhã?

Os programas de auditório da Dercy eram um horror… Eu lembro bem, era pequeno na época. Ela fazia sucesso com o povão, mas era desprezada pelas elites e pelos intelectuais. Não era esse mito que se tornou no final da vida. Quem pode garantir que daqui a algumas décadas o BBB não vire "cult"? Pelo menos ele será estudado como uma cápsula do nosso tempo, um retrato das nossas qualidades e defeitos.

Programação de má qualidade e fatos criados pela internet com o objetivo de virarem pauta afetam o senso crítico das pessoas?
A internet deu voz a todo mundo, e muita gente acha que esta voz só serve para falar mal. Há certo consenso em se atacar o BBB e outros fenômenos, quase que no automático. A programação passa por uma fase peculiar: os canais abertos precisam agradar a essa enorme e emergente classe C, que agora tem dinheiro, mas não teve uma boa formação. O desafio é ter apelo popular sem perder a qualidade.

Você assina a coluna Pergunte ao Amigo Gay, da revista Women's Health. Quais as diferenças entre ter um amigo gay e um amigo hétero?

Para uma mulher, muita: o amigo gay não está interessado nela sexualmente, e pode falar coisas de uma perspectiva masculina, o que obviamente uma amiga não conseguiria dizer. Ele também fala isento da competição feminina, tão comum... Existem de fato grandes amizades entre gays e mulheres, e eu me divirto muito fazendo a coluna.

Quais as diferenças entre a época em que se assumiu homossexual e a de agora?
Agora é muito mais fácil. As coisas são muito mais abertas, há menos resistência, menos preconceito e muito mais facilidade em encontrar pessoas que compartilham dos mesmos desejos e problemas. Também há mais acesso à informação e mais visibilidade.

Os homossexuais ainda precisam de um modelo de referência?

Todo mundo precisa de modelos, mas os gays ainda não têm muitos. Ricky Martin está fazendo um bem enorme por ter saído do armário e exibido o namorado: é um ótimo exemplo de gay bem-sucedido e bem ajustado. Aqui no Brasil temos a lucidez de um Ney Matogrosso, mas as novas gerações não estão muito bem servidas.

O que inspirou você a escrever o roteiro de Avassaladoras?
Eu só escrevi a versão final do roteiro! A ideia do filme veio da diretora Mara Mourão, que depois a desenvolveu com Melanie Dimantas. Eu entrei tarde no processo, e usei minha experiência em sitcoms (escrevi Santo de Casa, na Band, e Ô, Coitado, no SBT, para dar mais agilidade e humor ao roteiro. Mas tive uma inspiração clara, sim: o seriado americano Sex and the City.

O que homens e mulheres têm de fazer para serem considerados "avassaladores"?
Serem eles mesmos, em todas as situações.
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