Terça-Feira, 22 de Agosto de 2017
Cotidiano - 22/07/2017

(Falta de) Etiqueta no WhatsApp

Quando foi que perdemos a noção nos aplicativos de mensagens instantâneas?

Bárbara Camargo - Da Redação

As relações interpessoais pareciam ter bom senso antes dos aplicativos de mensagens instantâneas, como o popular WhatsApp.  Agora é difícil acordar sem ter o celular bombardeado de mensagens de bom dia, imagens fofas e inspiradoras, áudios (nem tão) engraçados... Tudo isso antes das 8 horas da manhã! Sem falar nos grupos que desviam do tema para o qual foram criados, fotos de nudez ou de acidentes, correntes religiosas e os tão temidos áudios longos. Quando foi que perdemos a noção no ZapZap? 


A dúvida tanto intrigou a fonoaudióloga Cida Stier que ela resolveu criar o guia "10 regras de ouro no uso do WhatsApp", disponibilizado gratuitamente na internet. "Eu trabalho com comunicação, posicionamento pessoal e profissional, e comecei a observar a relação das pessoas com o aplicativo. Muitas vezes, eu acordava no meio da noite com uma mensagem no WhatsApp", diz. 


Em um tempo não muito distante, somente ligávamos para alguém após as 22h se fosse um assunto de extrema importância. Os apps de mensagens trouxeram a facilidade de se comunicar, mas muita gente esquece que os bons modos (da época do telefone fixo) continuam valendo. "Parece que estamos disponíveis 24 horas por dia. As pessoas nos acessam a qualquer momento e querem respostas rapidamente. Antes de enviar algo fora do horário, avalie se não pode deixar para tratar no dia seguinte", indica Cida.

 

Grupos e correntes são os mais temidos

Só os grupos de família dariam uma longa reportagem. Afinal, desde quando "lavar a roupa suja" migrou das festas de Natal para o celular, é comum presenciar ou ter uma discussão virtual entre parentes. As causas são diversas: dívidas, fofocas, assuntos mal resolvidos, opiniões opostas e política. "Para evitar brigas e constrangimentos em grupos, o ideal é se perguntar: 'eu preciso escrever isso?' ou 'preciso compartilhar essa foto?'", indica Cida.


É interessante, também, considerar a criação do grupo e (regra de ouro) perguntar antes se a pessoa deseja participar dele.  Uma vez criado, resista à tentação de enviar coisas que só interessam a você. O grupo deve manter o foco para o qual foi criado. 


"Minha experiência em um grupo me motivou a escrever o guia. Era sobre ioga, onde colocávamos assuntos pertinentes ao tema. Um amigo adicionou outra pessoa, que passou a enviar mensagens de bom dia, com fotos bonitinhas. Na dúvida, ao entrar em um grupo, pergunte se pode dar bom dia todos os dias", diverte-se Cida. Sair de um grupo pode ser motivo de dor de cabeça também. "Se você for adicionado em um grupo sem pedir, diga que está dando uma pausa no uso do aplicativo e saia com educação".


As correntes (textos motivacionais que quase exigem que você repasse sob pena de ter um infortúnio caso não envie a mensagem para 10 pessoas) são as mais temidas por quem prefere manter o bom senso no uso do app. 


A especialista acredita que o WhatsApp despertou alguns perfis comportamentais de usuários, ou seja, dá pra perceber a personalidade da pessoa pela forma como ela age no aplicativo, se é carente, insegura ou narcisista. "Existem pessoas que têm necessidade de interagir e não percebem nem o outro nem a si mesmas". 

 

Pecado capital

Desde que o WhatsApp criou o check azul, para indicar que a mensagem foi enviada e lida, muito relacionamento já acabou por aí. Isso porque visualizar e não responder se tornou quase um pecado mortal. 
Imagine um marido que recebe e não responde a mensagem da esposa ou o restaurante que não responde se seu pedido foi validado. Para evitar que casamentos acabem e clientes fiquem sem o jantar delivery, a ferramenta criou a possibilidade de retirar os dois símbolos azuis, garantindo a privacidade de seus usuários. Mas só criou mais confusão! Afinal, permanece a dúvida: a pessoa visualizou (ou não) a sua mensagem e não quer responder? 


Para Cida, o excesso de informações a que estamos submetidos faz com que fiquemos cada vez mais ansiosos e isso se reflete nas relações interpessoais. "Nem sempre quem recebeu a mensagem está disponível naquele momento, pode estar ocupada, em uma reunião. Evite mandar pontos de interrogação ou mensagens seguidas. Se o assunto for urgente, ligue".

 

Uso profissional requer bom senso em dobro

O WhatsApp é uma ferramenta excelente para facilitar as atividades profissionais. Mas o bom senso vale o dobro no momento de enviar uma mensagem para o grupo do trabalho, para um cliente ou funcionário ou um estabelecimento que atende em horário comercial. 


O mesmo vale para os consultórios médicos. A não ser que você seja um amigo muito próximo do seu médico, evite tirar dúvidas sobre exames ou querer uma consulta virtual. "Os médicos são os que mais sofrem ao dar o número do celular para os pacientes. Alguns já até possuem respostas prontas do tipo 'não tenho condições de lhe atender virtualmente' para quem lhe envia alguma solicitação", alerta Cida.


Quem usa o WhatsApp profissionalmente deve estabelecer, desde o início, os horários que irá atender às solicitações, seja chefe ou funcionário. "A dica é criar uma regra para o uso fora da empresa. O patrão deve entender que o funcionário tem vida pessoal quando acaba o expediente".


Há algum tempo se tornou prática de alguns estabelecimentos comerciais enviarem suas ofertas do dia/semana via Whats, sem a solicitação do cliente. "Os estabelecimentos precisam ter uma política neste sentido e questionar antes se podem cadastrar o número do cliente para o recebimento de ofertas. É muito invasivo e pode surtir efeito contrario: a pessoa parar de comprar no local".


Meu espaço, minhas regras
Cida diz perceber um movimento sutil de pessoas que já se relacionam de forma diferente com as redes sociais, não usando o celular em casa ou até certo horário, por exemplo. Esta pode ser uma saída interessante para quem não quer ser importunado e, de quebra, ter mais tempo para si mesmo. "Você não pode deixar que invadam o seu espaço e nem sentir que está disponível 24 horas. Precisamos resgatar o respeito e o direito à individualidade do outro", conclui.

 

O que mais aborrece?

Na página no Facebook, o Jornal da Orla fez uma enquete sobre o que mais incomoda os seguidores no WhatsApp. Veja os melhores comentários sobre os inconvenientes mais citados: 
Correntes - Eunice Bemfica: "E ainda terminam com "e não esquece de devolver!"
Bom dia/Boa noite - Vicente Quirino: "O que mais me incomoda é texto imenso e mensagem em horários cedo demais".
Visualizar e não responder - Giovanna Mari: "Deveria ter o botão chamar a atenção no WhatsApp, igual no MSN".
Grupo da família - Jacqueline Gomes: "O que mais causa briga são os tios, sobre quem é o melhor filho. Tenho 11 tios (as), imagine a bagunça! Encheu tanto o saco, que saí do grupo!"
Áudios longos - Pree Priscilla "A pessoa não tem a capacidade de digitar uma frase com cinco palavras. Ela prefere mandar um áudio de cinco segundos com essa frase".
Mensagens inconvenientes - Luana Castro: "Gente que envia foto e vídeo o dia inteiro, sobre todos os assuntos do planeta! Você gosta da pessoa, mas no WhatsApp ela é maluca".
Assuntos diferentes no grupo para o qual foi criado - Wellington Santos: "Pedido de votos para candidatos do PT".