Colunistas/Cinema | 20/10/2018

Resenha da semana: Nasce uma Estrela

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

FOTO: DIVULGAÇÃO

Nasce uma Estrela é um soco no estômago, intenso e avassalador

"Música é essencialmente qualquer nota entre doze oitavas. Doze notas e a oitava em repetição. É a mesma história contada de novo, e de novo. Tudo que um artista pode oferecer ao mundo é como ele vê aquelas doze notas”. Essa frase é dita quase no final do filme e explica bem a razão deste novo Nasce uma Estrela ser a quarta versão de refilmagens a chegar aos cinemas, e conseguir ser a melhor. Realizando um trabalho sólido e consistente em seu primeiro passo como diretor, Bradley Cooper demonstra um talento a ser acompanhado com uma visão sensível, única e imersiva de como seria a vida de uma estrela da música. Preparem os lenços pois o filme é emocionante.

 

O filme nos apresenta a Jackson Maine (Bradley Cooper), um cantor no auge da fama. Um dia, após deixar uma apresentação, ele para em um bar para beber algo. É quando conhece Ally (Lady Gaga), uma insegura cantora que ganha a vida trabalhando em um restaurante. Jackson se encanta pela mulher e seu talento, decidindo acolhê-la debaixo de suas asas. Ao mesmo tempo em que Ally ascende ao estrelato, Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool. O diretor Bradley Cooper consegue captar perfeitamente como seria a emoção e energia de estar em um palco se apresentando para milhares de pessoas, demonstrando confiança e controle absoluto por todo o projeto, focando acertadamente nas relações e construção de seus personagens. É um trabalho quase irretocável, com cenas memoráveis (como a primeira vez que o casal se vê em um bar ou o uso do silêncio para priorizar a voz de Gaga na sequência do estacionamento), uma produção impecável e um profissional trabalho de câmera, que acaba proporcionando uma experiência intimista ao longa. O roteiro, escrito por Cooper em parceria com Eric Roth e Will Fetters, pode parecer inicialmente uma história simples e previsível, mas que vai além, mostrando a importância de encontrar sua essência em fazer arte e de ter sua voz ouvida e ser relevante ao público. Contornando muito bem os clichês e estereótipos que seriam comuns neste gênero, o roteiro ganha força na complexidade de seus protagonistas, por entendermos suas expectativas, motivações e frustrações e também no sentimento que nutrem um pelo outro com seus altos e baixos, seja Jackson descontando suas frustrações em drogas e bebidas ou Ally com sua compulsão em tentar salvar seu amado.

 

O filme te prende desde o início, com uma direção de fotografia impactante de Matthew Libatique, que acompanha sempre de perto seus personagens, com um perfeito uso de cores (em especial o vermelho), criando um espetáculo visual e visceral, tanto nos shows quanto nos momentos dramáticos. A trilha sonora é espetacular e as canções originais são todas representadas pelos atores, o que dá uma veracidade incrível ao filme, em especial destaco a sensacional sequência em que a dupla  demonstra toda sua química com a apresentação da música "Shallow", que com certeza absoluta concorrerá ao Oscar de melhor Canção original (se não ganhar).

 

A força do filme está em seus protagonistas e a química entre Cooper e Gaga é marcante, onde ambos tem aqui o melhor trabalho de suas carreiras. Bradley Cooper abraça toda a melancolia e depressão de seu personagem, e consegue que o público sinta sua dor, desespero e solidão somente com seu olhar perdido e postura frágil. Um trabalho delicado que não necessitou de gritos e nem situações surtadas para demonstrar sua decadência. Outra que brilha é Lady Gaga, que em seu primeiro papel nos cinemas, mostra-se mais uma uma escolha genial de seu diretor, comprovando seu talento, não só como cantora, mas com sua atuação sensível, verdadeira e tocante.

 

Nasce uma Estrela é um soco no estômago, intenso, avassalador e muito forte ao nos mostrar toda essa dor. É impossível não se emocionar com essa trágica e impactante história de amor e isso apenas reforça a qualidade do filme, com músicas que farão seu coração bater mais forte e uma dupla de protagonistas que tocará sua alma, seja de tristeza ou de emoção.

 

Curiosidades:  Foi Lady Gaga quem convenceu Bradley Cooper a não dublar as canções do filme durante as gravações, cantando ao vivo todas elas. A artista disse que odeia quando os atores de musicais não sincronizam a dublagem corretamente. Isso fez com que Cooper tivesse mais aulas de canto para aumentar sua extensão vocal.


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