Colunistas/Cinema | 27/10/2018

Resenha da semana: O Primeiro Homem

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Um grande passo de um dos diretores mais jovens e talentosos que o cinema e público já viu

"Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade".  Neil Armstrong tinha 39 anos quando pisou na lua pela primeira vez, em 1969. Conhecido por seus colegas por seu comportamento equilibrado e seu sangue frio, Armstrong é considerado um dos maiores heróis americanos de todos os tempos. Com apenas 33 anos, o talentoso diretor Damien Chazelle, troca um pouco o teor musical de seus dois fantásticos filmes anteriores e se aventura ao desconstruir uma figura mitológica americana, com o desafio de mostrar o lado humano do astronauta, sem sacrificar as características mais comuns em seus filmes: protagonistas ambiciosos e obcecados por atingir seus sonhos. Damien Chazelle acaba adicionando mais uma pérola em sua impecável filmografia.


O filme é focado ao mostrar a vida do astronauta norte-americano Neil Armstrong (Ryan Gosling) e sua jornada para se tornar o primeiro homem a andar na Lua. Os sacrifícios e custos de Neil e toda uma nação durante uma das mais perigosas missões na história das viagens espaciais. Assumindo uma postura ousada e diferente de sua filmografia, Damien Chazelle (vencedor do Oscar por La La Land), encontra em seu novo protagonista, um objeto de estudo e contemplação abrindo mão de mostrar o herói americano e acerta ao mostrar um Neil Armstrong cometendo tanto erros quanto acertos, com seus dramas pessoais assumindo um peso maior do que seus feitos profissionais. Apesar de desconstruir a figura, Chazelle não abre mão dos momentos de tensão e angústia da missão Apollo 11. O diretor demonstra habilidade ao mesclar momentos em primeira pessoa (dando a sensação que estamos dentro da cabine da nave), com filmagens que remetem diretamente a um documentário, com close ups dos atores e câmera constantemente na mão, realizando um trabalho sensorial e angustiante, principalmente em seu último ato. Realizando um espetáculo visual, o diretor mergulha o público por completo e reproduz, com realismo impressionante, tanto a decolagem do foguete como sua entrada na estratosfera e sua empolgante aterrissagem na lua. O roteiro, escrito por Josh Singer, é centrado nos fatos e nos acontecimentos que levaram Armstrong a lua, sem espaços para dramatizações e focando nos anseios e medos do protagonista, mas se perde um pouco com suas verdadeiras motivações, que não ficam claras no texto, dando a impressão de que o personagem é muito complexo para ser retratado. O roteiro tem um ritmo lento e contemplativo, o que pode desanimar muitos espectadores, mas que não prejudica o resultado final do longa, que possui diálogos pouco expositivos e repletos de silêncio, mas que tem muito a dizer.


Um ponto que deve ser destacado, é a estética do projeto. Com uma textura que chega a lembrar filmes fotográficos, o diretor de fotografia Linus Sandgren, trabalha com planos detalhe, com a câmera grudada no rosto dos personagens, criando uma ambientação claustrofóbica (em especial nas cenas dentro da nave) que contrasta com cenas contemplativas como as do espaço e da Lua. Outro ponto interessante é a ausência de som utilizada no espaço, recurso utilizado com sucesso no filme Gravidade, e o design de som e a trilha sonora impecável e impactante de Justin Hurwitz. Desde Dunkirk não via um projeto tão imersivo sonoramente como aqui.


Chamado por muitos de um ator inexpressivo, Ryan Gosling consegue passar com excelência toda a introspecção e minimalismos necessários , o que vem se tornando sua especialidade ao viver homens de poucas palavras, priorizando as expressões faciais e focado em uma performance mais interiorizada. Outro destaque é a atriz Claire Foy, mais conhecida por The Crown, que brilha ao construir uma forte e determinada personagem, em especial no momento de explosão onde obriga o marido a se despedir dos filhos antes de partir para sua missão.


O Primeiro Homem não é um filme tão acessível quanto os trabalhos anteriores do diretor, mas quem se arriscar, assistirá um espetáculo sonoro e visual reproduzido com realismo impressionante, sólidas atuações e mais um grande passo de um dos diretores mais jovens e talentosos que o cinema e público já viu.


Curiosidade:  Segundo longa no qual Damien Chazelle e Ryan Gosling trabalham juntos. O primeiro foi La La Land - Cantando Estações (2016).
 

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