Colunistas/Cinema | 24/11/2018

Resenha da semana: Hannah

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

FOTO: REPRODUÇÃO

Sem sua atriz principal, Hanna simplesmente não existiria.

Só o cinema europeu para nos mostrar, de maneira tão densa e repleta de detalhes, o cotidiano e a rotina de uma personagem. Aqui, esta personagem é retratada pelo longa com extrema dedicação em suas tarefas, seja em seu curso de teatro, no afinco em seus afazeres domésticos ou com o cuidado que trata um rapaz cego. Neste caso, o longa se concentra em uma mulher na terceira idade que tem um marido na cadeia, que é proibida pelo filho de ver o neto e que também não consegue criar absolutamente nenhum laço afetivo com qualquer pessoa. Tudo isso é retratado de forma misteriosa, sem que o público saiba as razões que originaram essas reações, mas certamente não é essa a preocupação do diretor. O que o interessa é mostrar a solidão, a depressão e como a velhice pode ser vivida de forma dolorosa e sem nenhuma perspectiva. E isso ele faz de forma impactante.

 

O longa se concentra em Hannah (Charlotte Rampling), uma mulher de terceira idade que divide-se entre as aulas de teatro, a natação e o trabalho como empregada doméstica. Quando o marido vai preso, ela não tem alternativa a não ser a solidão e tenta refazer laços perdidos com descendentes, mas há um segredo na família que dificulta seu relacionamento com terceiros. O diretor italiano Andrea Pallaoro, em seu segundo longa metragem, retrata com obsessiva meticulosidade todas as nuances da personagem, dedicando bastante tempo apenas focando em suas reações, como a primeira cena onde vemos as veias de seu rosto saltarem. O diretor demonstra possuir domínio e paciência do que quer abordar, mas talvez o público não consiga acompanhar pois a impressão que fica é a de que nada acontece. Hannah é bem sucedido em ser um estudo de personagem absolutamente complexo, mas seu ritmo é extremamente prejudicado pelos seus longos e estáticos planos, que transformam noventa minutos em três horas. Os planos criados pelo diretor, aliado a Chayse Irvin, seu diretor de fotografia, são bonitos e com tomadas que demonstram técnicas e enchem os olhos, filmados em ambientes esfumaçados, escuros e com falta de foco mas tudo isso não suporta seu cansativo roteiro.

 

O texto, escrito também por Paolo, tem a intenção de não apresentar os fatos que antecederam essa rejeição sofrida pela personagem principal, e talvez não existiria sem ela. O longa exige uma longa paciência do espectador para que os mesmos fossem recompensados pela espera de suas revelações, que não acontecem. O filme, falado em francês, tem pouquíssimos diálogos mas é interessante constatar que o som é um de seus principais trunfos, com as falas, risos e latidos sendo acentuados ao redor de Hanna, o que cria uma certa alienação a personagem.

 

E quando disse que sem Hanna o filme não existiria, tudo se vale pelo fantástico trabalho de Charlotte Rampling. A atriz consegue criar uma experiência tão exigente e desgastante ao público quanto a tragédia vivida pela personagem. A atriz constrói com pequenos trejeitos e detalhes o sofrimento que a vida lhe impôs, se entregando de corpo e alma ao papel. Presente em praticamente todas as cenas, a atriz é um turbilhão de silêncio, onde nunca conseguimos decifrar o que aquela mulher carrega.

 

Hannah é um excelente estudo de personagem e que conta com uma estupenda performance de sua atriz principal, mas exigirá paciência do público com seu ritmo contemplativo e seu desfecho ambíguo. 

 

Curiosidades: A performance de Charlotte Rampling no longa lhe rendeu o prêmio Coppa Volpi de Melhor Atriz no 74º Festival Internacional de Cinema de Veneza.

 

Confira a programação dos filmes nos cinemas de Santos e Região


Leia também

Colunistas | 19/01/2019
Colunistas | 05/01/2019