Colunistas/Cinema | 01/12/2018

Resenha da semana: As Viúvas

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

FOTO: REPRODUÇÃO

Filmaço com F maiúsculo

Você já deve ter ouvido falar em Steve McQueen. Não confunda com o icônico ator dos anos 70. Se não ouviu falar dele, provavelmente já deve ter visto algum de seus filmes, sendo o mais aclamado e mundialmente conhecido, 12 Anos de Escravidão, de 2014. Saindo como o grande ganhador do Oscar daquele ano, ele retorna após quatro anos com As Viúvas, longa com uma premissa simples, mas que funciona brilhantemente nas duas funções que pretende desenvolver: como um empolgante filme de assalto e uma pesada e pertinente crítica social. É curioso notar como esse novo filme não tem quase nada em comum com suas obras anteriores, apenas a abordagem de seus personagens, que sempre possuem condutas duvidosas e não possuem nenhuma intenção pura por detrás de suas ações.

 

O longa inicia acompanhando um assalto frustrado, que faz com que Harry Rawlins (Liam Neeson) e sua gangue sejam mortos pela polícia e o dinheiro que roubaram, seja destruído pelas chamas. Isto faz com que a viúva de Harry, Veronica (Viola Davis), seja cobrada para que a quantia roubada seja devolvida. Pressionada, ela encontra um caderno de anotações de Harry que prevê em detalhes aquele que seria seu próximo golpe. Veronica então decide realizar o roubo, tendo a ajuda das demais viúvas dos mortos no assalto frustrado. O filme inicia com uma alucinante e frenética perseguição e conta com uma montagem bem sucedida que vai apresentando cada personagem de maneira dinâmica e eficiente. Mostrando versatilidade em um intenso thriller de assalto, o diretor Steve McQueen constrói neste longa, uma complexa crítica social, desde a violência policial à população negra, a facilidade em comprar armas na América, a corrupção enraizada, violência doméstica, a diferença entre classes e o poder das mulheres. É tanto assunto abordado pelo longa, mas tudo costurado perfeitamente pelo diretor, que ousa em sua composição e imprime sua marca, com um excelente equilíbrio entre as cenas de ação, momentos de suspense, exploração de seus personagens ou em suas interessantes críticas a desigualdade de classes, como na longa cena onde o candidato a vereador, vivido por Colin Farrell, entra com sua assessora em um veículo enquanto a câmera grava do lado de fora, uma intensa conversa sobre a sujeira da vida política, acompanhando o percurso do veículo e mostrando as mudanças de regiões e das casas da vizinhança. O roteiro, escrito pelo diretor e pela famosa escritora Gillian Flynn, não é sobre um filme tradicional de roubo, aliás este acaba ficando em segundo plano, para realmente focar na interações de seus personagens e nas tensões que os movem, apresentando a realidade de suas protagonistas de forma sensível mas ao mesmo tempo forte. Interessante notar que suas lutas não são apenas por sobrevivência, mas por identidade e afirmação em um mundo dominado por homens cruéis.

 

A fotografia do filme é fria e limpa, se destacando bem no cenário contemporâneo em que se passa, principalmente nas tomadas noturnas. A trilha sonora de Hans Zimmer não é tão impactante como em seus trabalhos anteriores mas garante o envolvimento do público na parte emocional das cenas e a edição aliada a montagem é excelente, com uma interessante revelação no momento certo, que não prejudica seu clímax.
Steve McQueen mais uma vez escala um elenco estelar e talentoso para seu projeto e novamente acerta em cheio. Todos estão perfeitos em seus papéis, com um incrível desenvolvimento de todos os personagens mas o destaque vai para Viola Davis, que lidera esse time com uma interpretação monstruosa.

 

Sua Veronica é complexa, determinada, inteligente e sempre que está em cena, demonstra a gritante diferença de seu nível de interpretação e entrega em relação as outras atrizes.

 

As Viúvas é um Filmaço com F maiúsculo, onde comprova a versatilidade de um talentoso diretor que demonstra saber, como poucos, unir e subverter gêneros em um empolgante thriller de assalto aliado a importantes críticas sociais.

 

Curiosidades:  O filme foi baseado na série britânica As Damas de Ouro, de 1983.

 


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