Colunistas/Cinema | 12/01/2019

Resenha da semana: Assunto de Família

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Quem terminar esse filme e não sentir um forte sentimento de empatia pelo próximo, provavelmente morreu por dentro.

O cinema feito pelo diretor Hirozaku Kore-eda segue as características do cinema japonês, muito parecido com Depois da Tempestade (também com crítica aqui no site): é um filme contemplativo, com câmera estática onde quase nada acontece, conta com uma trilha sonora bem sutil e pontual mas que possui uma maior capacidade de emocionar e sensibilizar o público do que filmes feitos por pessoas de outras culturas.

 

Uma coisa posso dizer: Assunto de Família vai emocionar, fazer você refletir e quem terminar esse filme e não sentir empatia pelo próximo, provavelmente morreu por dentro.

 

No longa, depois de uma de suas sessões de furtos, Osamu (Lily Franky) e seu filho se deparam com uma garotinha. A princípio eles relutam em abrigar a menina, mas a esposa de Osamu concorda em cuidar dela depois de saber das dificuldades que enfrenta. Embora a família seja pobre e mal ganhem dinheiro dos pequenos crimes que cometem, eles parecem viver felizes juntos até que um incidente revela segredos escondidos, testando os laços que os unem. O diretor japonês conduz o filme com sutileza e elegância, acertadamente não caindo no sentimentalismo barato e traça um complexo estudo do que é família, sempre com um olhar carinhoso e sem fazer qualquer julgamento moral pelas atitudes que seus personagens tem, fazendo com que nós espectadores nos tornemos quase cúmplices de seus furtos. Sua câmera desliza pelos cenários revelando mais sobre seus personagens do que diálogos ou atitudes tomadas por eles.

 

Também roteirista do longa, o diretor não minimiza os erros de seus personagens, mas convida o público para refletir sobre o que é amor, cumplicidade, afeto e a bondade que ainda existe no ser humano, criando cenas belíssimas, como a ida da família a praia. O roteiro permite-se focar no cotidiano da família para nos tornar parte dela, fazendo com que compreendêssemos o que move cada personagem com suas imperfeições, demonstrações de amor e carinho genuínos um pelo outro, a forma que se comunicam e suas discussões de como uma família precisa ser "de sangue".

 

Os diálogos são extremamente bem fluídos, como a da mãe adotiva e a filha durante o banho ou entre o genro e a matriarca durante uma pausa para o cigarro. A dinâmica e interação entre eles é muito realista e todos os personagens são fascinantes e muito bem desenvolvidos.  Basicamente, o filme pede para olharmos para estes ladrões com carinho e sem julgamentos, sendo essa a melhor idéia deste projeto. 

 

Em um elenco onde todos realizam trabalhos excepcionais, um dos pontos altos e que vale ressaltar, é o desempenho da atriz Mayu Matsuoka, como a matriarca da família. A atriz cria uma figura completamente verossímil e magnética que inevitavelmente acaba assumindo o protagonismo do longa. 

 

Assunto de Família consegue mesclar doçura e amargor na medida certa e certamente servirá para horas de debates e reflexões. É uma obra simples e profunda que levantará diversos questionamentos passando longe de qualquer conclusão fácil por tratar de temas tão humanos e reais.

 

Curiosidades:  Vencedor da Palma de Ouro em Cannes de 2018.

 

 

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Foto: Divulgação


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