Colunistas/Cinema | 09/02/2019

Resenha da semana: Clímax

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Acompanhe de perto uma angustiante descida ao inferno

O diretor argentino Gaspar Noé está pouco interessado em abordar sua simples história ao público, se concentrando mais em proporcionar uma experiência e sensações angustiantes nos 90 minutos de música e perda de controle total de seus personagens. Construindo seu filme em um único cenário, durante apenas uma noite, Gaspar Noé leva o público ao limite, fazendo com que sejamos testemunhas do desgaste físico e emocional dos dançarinos, seguido de uma desesperadora paranóia que culmina em uma angustiante descida ao inferno. Se você não conhece o trabalho deste diretor, procure sobre antes de entrar no cinema. Apesar de Clímax ser uma experiência única, ela definitivamente não é feita para todos.

 

O longa se passa nos anos 90, e apresenta um grupo de dançarinos urbanos que se reúnem em um isolado internato, localizado no coração de uma floresta, para um importante ensaio. Ao fazerem uma última festa de comemoração, eles notam a atmosfera mudando e percebem que foram drogados quando uma estranha loucura toma conta deles. Sem saberem o por quê ou por quem, os jovens mergulham num turbilhão de paranóia e psicose. Enquanto para uns, parece o paraíso, para outros parece uma descida ao inferno.

 

Sexo, violência e vingança, são alguns dos temas abordados nos filme de Gaspar Noé. Com uma filmografia repleta de longas controversos e polêmicos, o diretor traz aqui uma de sua obras audiovisuais mais profundas e incômodas. Contando sua história de forma dinâmica, com fluídos movimentos de câmera (que acaba se tornando um personagem) aliados a inúmeros planos sequência, Noé apresenta e vai contornando seus atores, mantendo o constante interesse do público neles. A câmera não para, e vai escolhendo aleatoriamente cada personagem se atentando a tudo o que acontece na festa, com cada cena terminando no exato tempo para o início da outra. Violento, incômodo e visceral, Clímax não deixa o público descansar nem por um segundo, onde acompanhamos atos completamente descontrolados de seus personagens.

 

Sendo responsável pelo roteiro, edição e montagem, Gaspar Noé consegue exprimir, em todos os seus filmes, o lado mais repugnante e odioso do ser humano e quando a droga começa a fazer efeito nos personagens, somos guiados por um caminho desesperador e sufocante, que o diretor cria com maestria e de forma caótica, chocante e violenta. O forte uso da iluminação vermelha, misturados ao azul e verde, cria uma sensação de que tivéssemos usando drogas, assim como os personagens. 

 

Curiosamente, o único nome conhecido no elenco é de Sofia Boutella, que interpreta Selva, sendo o restante todos dançarinos de bares e danceterias francesas, o que passa uma maior veracidade ao que está ocorrendo. Em pouco tempo e com muita improvisação, o elenco consegue fazer com que o público entenda a razão e motivações animalescas de cada um, provocada pela droga. O ritmo do filme é enérgico, guiado pela trilha sonora eletrônica que contribui com as sensações que o diretor quer transmitir.

 

Com uma inspirada direção, Clímax é uma angustiante e perturbadora descida ao inferno. É provocativo, violento, eletrizante e feito para poucos mas que mostra, com perfeição, que caos e desordem podem viver em harmonia.

 

Curiosidades: Selecionado pra Quinzena dos Realizadores em Cannes de 2018.

 

 

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Foto: Reprodução


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