Notícias/Local | 09/02/2019

Por que chove tanto?

Em apenas três horas, na madrugada de domingo (3) para segunda-feira (4), choveu o que era esperado para cair no mês de fevereiro inteiro. Para piorar, a maré subiu, a uma altura de dois metros. O resultado foi uma cidade quase que totalmente submersa. Residências e empresas inundadas, trânsito paralisado, encostas desbarrancadas, árvores caídas, prejuízos materiais e muita dor de cabeça. Pior que enfrentar a situação é a desconfiança de que enxurradas como esta voltem a acontecer e, ainda mais grave, cada vez piores.

 

Climatologista destaca necessidade de medidas globais e locais

O climatologista Rodolfo Bonafim, da ONg Amigos da Água, atesta que o índice de chuvas em Santos vem aumentando ao longo dos últimos anos. Ele alerta que é preciso adotar medidas globais e locais para deter a agravamento da situação.

 

Por que chove tanto em Santos? É impressão ou tem chovido cada vez mais, a cada ano que passa?
Rodolfo Bonafim - Não é impressão, realmente tem chovido mais em Santos. Em número de dias consecutivos, não tem chovido tanto. Antigamente, pelas normais do Instituto Nacional de Climatologia, percebemos que em Santos, muitas vezes no inverno, em julho e junho, chovia 15 dias sem parar, mas aquela chuvinha fina, fraquinha. Acumulava bons volumes, mas não catastróficos. Chovia de forma mais contínua. Agora, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, de 1981 a 2010, e a gente tem constatado isso também nos nossos registros da ONG Amigos da Água, tem chovido mais na forma de pancadas fortes, violentas. Chuvas que vêm de uma forma rápida, como ocorreu de domingo para segunda-feira, muita chuva em pouco tempo. E são essas que arrasam a cidade, causam muito transtorno. Isso tem sido uma tendência em Santos como em outras cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro.

 

Qual a interferência do comportamento humano neste regime de chuvas, de um modo geral, e de um modo local?
Bonafim -
Houve uma mudança climática global. O Carlos Nobre, que é um dos maiores nomes da ciência climática no mundo, ele é brasileiro, foi relator do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU, ele já dizia há cerca de 15 anos que as cidades teriam que se adaptar às novas mudanças climáticas e, se não fizessem alguma coisa, a gente ia sofrer muito. Mudança ligada ao aquecimento global, devido à emissão de gases estufa, como o CO2. Em nível local, podemos dizer que as cidades, em geral, têm se verticalizado muito, muitos prédios tampando a orla, impedindo a brisa marinha, criando condições para ilhas de calor. Já existiam, foram ampliadas. Essa barreira, esses espigões impedem que a brisa marinha circule, criando mais calor. Além disso, temos excesso de veículos, uma das maiores frotas do Brasil dentro de um espaço muito apertado. Há muito asfaltamento. Se pegarmos uma imagem de satélite de Santos, veremos que a cidade está praticamente engessada por tanto concreto e asfalto. 

 

Vai continuar chovendo nesta intensidade ou chover ainda mais?
Bonafim -
Se forem mantidas as atuais condições, a tendência é o problema se agravar, com chuvas cada vez mais intensas, a cada ano que passa.

 

É possível fazer alguma coisa, de modo local, para que chova menos ou estamos exclusivamente nas mãos da natureza?
Bonafim -
Em nível local, seria as pessoas usarem menos o carro, muitas vezes vemos a pessoa sair de casa de veículo para comprar pão. Poderiam estar pedalando, a cidade conta com uma boa rede de ciclovias, precisa ser ampliada mas já tem bastante, ou mesmo a pé, que faz bem para a saúde e o bolso também. Usar o transporte coletivo. Em resumo, mudar um pouco os hábitos. É importante para reduzir estas ilhas de calor, que muitas vezes alteram a composição química das nuvens e faz chover de forma rápida, pancadas locais. Já seria um bom começo. E que o Plano Diretor da cidade não permita a construção de espigões, prédios de 30, 40 andares, para que a brisa marinha possa circular melhor pela cidade. A arborização também, é superimportante, inclusive no regime de chuvas. Talvez seja a ação mais importante de todas, por parte de poder público. E que se plantem mais árvores que sejam da região, e não árvores que seja de outras regiões que são mais fracas.

 

Fazemos este alerta: em 14 de janeiro 2009 tivemos um arvoricídio em Santos, mas foi natural, uma tempestade muito forte, talvez um mini-tornado, mais de 100 árvores caíram em Santos por conta do vento muito forte. Mas vemos que muitas árvores estão sendo podadas sem critério, até por motivos fúteis. Tem que haver um código de respeito e análise melhor daquelas que devem ser podadas ou não. No verão, temos sentido bastante o calor, foi o janeiro mais quente dos últimos 27 anos e choveu abaixo da média. A árvore é fundamental para nos dar sombra, mais umidade, a temperatura diminui próximo das árvores.

 

Prefeitura aposta em obras de drenagem e novas comportas

Além do aumento da quantidade de chuvas, outros fatores contribuem para que as tempestades provoquem cada vez mais prejuízos. Entre eles, o sistema de drenagem da cidade, que é antigo, e sofre o assoreamento natural de sedimentos. Para piorar, lixo e entulho despejados indevidamente contribuem para o entupimento ou redução das vagas de guias, sarjetas, bocas de lobo e galerias. 

 

A Prefeitura informa que é feita a varrição diária das vias públicas, para evitar que os detritos caiam na rede de drenagem, e também a limpeza regular de bocas de lobo, galerias e canais, para retirada de sedimentos e lixo. Na rua Oswaldo Cruz, por exemplo, foram retiradas, em novembro, cerca de 15 toneladas de sedimentos. Por ano, são retiradas cerca de 5 mil toneladas de detritos das redes de drenagem. A administração municipal destaca também que faz o desassoreamento dos canais. Em novembro do ano passado, por exemplo, foram retiradas 438 toneladas de sedimentos do Canal 1, material suficiente para encher 48 caminhões.

 

Maré alta
Outro fator que ajuda a piorar a situação é a subida da maré, principalmente na Zona Noroeste. Segundo a secretária de Serviços Públicos, Fabiana Ramos Garcia Pires, em algumas áreas na Zona Noroeste e na entrada da cidade, os níveis das ruas estão numa altura abaixo do nível do mar. “A maré mais alta em Santos chega a 1,70m e aquela região fica a aproximadamente 1,30m. Por esse motivo, com a maré alta, mesmo sem chuva, o local inunda”, explica. 

 

Obras de drenagem
A Prefeitura informa também que obras de drenagem fazem parte do projeto da Entrada da Cidade. Entre as intervenções, estão a instalação de galerias de concreto de 2,20 metros por 1,3 metro na Avenida Nossa Senhora de Fátima, de 4 metros por 2 metros na Avenida Martins Fontes, o desassoreamento e canalização dos rios Lenheiros e Furado, e a implementação de uma estação elevatória com comporta. 

 

Comportas
A Prefeitura está substituindo as comportas de aço carbono dos canais, que existem há 40 anos, por equipamentos mais resistentes, modernos e automatizados. No total, serão dez comportas novas para substituir as seis antigas próximas ao mar, dos canais 1 ao 6, e mais quatro intermediárias, sendo duas no canal 1 com as ruas Delfino Stockler de Lima e Francisco Manoel, uma no canal 4 com a Bacia do Macuco e outra no canal 5 com a Rua Aureliano Coutinho. 

 

Segundo a secretária de Serviços Públicos, Fabiana Ramos Garcia Pires, o novos sistema, que é acionado a distância, é mais eficiente. “Será possível determinar o nível de água e a existência de algum obstáculo ou objeto ao seu redor”, revela. “Num caso de previsão de chuva, todas serão operacionalizadas simultaneamente, minimizando o transbordo de canais e alagamento das ruas. A automação das comportas permitirá mais agilidade, reduzindo riscos de enchentes porque a abertura e o fechamento de comportas acontecem conforme a combinação ou não de dois fatores naturais: chuva e tábua das marés”. 

 

Foto: Divulgação


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