Rádio Jornal da Orla/Digital Jazz

Ouça agora

Cotidiano/Comportamento | 09/03/2019

Violência contra a mulher não é mimimi

MARCO SANTANA - DA REDAÇÃO

A cada minuto, nove brasileiras são vítimas de agressões. No ano passado, 1,6 milhão de mulheres sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento; 4,6 milhões foram tocadas sexualmente sem consentimento (500 mil destes, casos de estupro); 12,5 milhões foram humilhadas ou xingadas; 4.254 foram assassinadas, 1.173 delas motivadas pela questão de gênero —é o chamado feminicídio. Em 71% destes casos, o crime foi praticado pelo parceiro (ou ex) da vítima: marido, noivo, namorado...

 

Números como estes por si só já seriam estarrecedores, mas o que preocupa ainda mais é a chamda subnotificação, isto é, os casos de violência acontecem mas não chegam ao conhecimento das autoridades.

 

No caso dos feminicídio, acabam sendo registrados como homicídio comum, sem contextualizar que os crimes ocorreram pelo fato de as vítimas ser mulheres.

 

Apesar de tudo isso, ainda há quem minimize a gravidade do problema, inclusive mulheres, classificando as denúncias como “mi-mi-mi”. 

 

“O Brasil é o quinto lugar mais violento do mundo para a mulher viver”, alerta a cientista política Ilona Szabo, coordenadora do Instituto Igarapé, que foi convidada pelo ministro Sérgio Moro para integrar o Conselho Nacional de Política Criminal e depois desconvidada, após pressão de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Ela alerta para o fato de que 41% das agressões ocorrerem dentro da residência das vítimas e em quase 50% dos assassinatos foram usadas armas de fogo. 

 

Neste contexto, ela critica o decreto presidencial que facilita a posse de armas — uma promessa de campanha de Jair Bolsonaro. O raciocínio é simples: comprada para proteger o lar de uma eventual invasão de um bandido, a arma de fogo na prática seria usada pelo homem em um momento de fúria contra a companheira. Uma agressão que se limitaria a socos e pontapés (por si só completamente condenável) se transformaria em homicídio.

 

A especialista em segurança pública alerta que é preciso garantir condições para que as vítimas não se calem e denunciem. “Não é só uma questão de desnaturalizar algo que era visto como normal, é também dar visibilidade a violências que as mulheres sofrem todos os dias, quebrar o silêncio diante de situações inaceitáveis”.

 

Identifique os casos de violência
Não é apenas a agressão física que pode ser considerada como violência contra a mulher. Ela pode ser também psicológica, financeira e até mesmo institucional.

 

1. Carreira profissional
A diferença de ganhos entre homens e mulheres desempenhando a mesma função pode chegar a 53% em algumas carreiras, indica pesquisa da Catho, empresa especializada em recursos humanos. O sexo feminino também enfrenta uma proibição velada para o exercício de algumas profissões, como motorista, pedreira e mecânica. As mulheres também acabam sendo vetadas por empregadores que buscam evitar pagar benefícios como licença maternidade ou por acreditar (erroneamente) que as mulheres tiram mais licenças médicas que os homens. 

 

2. Modo de vestir
O patrulhamento ao vestuário é muito mais agressivo em relação às mulheres. Exigência de salto alto, proibição de roupas “sensuais demais” ou, no outro extremo, imposição de trajes que “valorizem as formas do corpo” são alguns dos problemas enfrentados por elas.

 

3. Orientação sexual
Se o homossexual masculino já sofre preconceito, a situação piora no caso de lésbicas. O assédio sexual ganha contornos mais repugnantes ainda, com homens querendo “converter” a orientação sexual da mulher. 

 

4. Ataque à reputação
Julgamentos pela aparência ou a condenação de comportamentos socialmente aceitos para homens (o homem é “pegador”, a mulher é “galinha”) fazem parte da rotina delas. É comum também ex-companheiros  divulgarem fotos ou vídeos íntimos —a chamada “pornografia da vingança”. 

 

5. Coação
Obrigar a mulher a fazer ou deixar de fazer coisas, mediante ameaça física ou psicológica, também é uma situação frequente. Trabalhar fora de casa, o modo de se vestir, os amigos com quem convivem, os horários para sair são decisões que deixam de ser tomadas por ela, à força.

 

6. Ameaça financeira
Por terem renunciado à própria vida profissional, para “cuidar da casa e dos filhos”, muitas mulheres tornam-se economicamente dependentes  do homem, que se vale desta condição para ameçar, obrigar e proibir, em resumo, mandar na mulher. Há ainda a chamada violência patrimonial: controlar (“fiscalizar” e proibir) o uso de dispositivos  como aparelho celular e computador. Ou ainda omitir ou distorcer a propriedade oficial de bens adquiridos durante a união. 

 

7.  Sentimento de culpa
Muitos homens promovem pressão psicológica tão grande a ponto de fazer a vítima ser a culpada pela situação. Nos casos de violência sexual praticado por alguém do círculo de convivência da mulher, a roupa e o modo de se comportar viram pretexto para justificar o crime. 

 

8. Ataque à autoestima
Xingamentos e humilhações reiteradas acabam deixando a mulher emocionalmente fragilizada, uma vez que os ataques partes de alguém que, em tese, “a ama”. 

 

Confira a programação do Mês da Mulher em Santos.


Leia também