Cotidiano/Comportamento | 13/04/2019

Beijar é humano!

MARCO SANTANA - DA REDAÇÃO

Nenhum outro toque interpessoal é tão poderoso quanto o beijo — nem o sexo. Além de provocar explosões emocionais e descargas de hormônios, o contato feito com os lábios está carregado de valores simbólicos e culturais que celebram vínculos muitas vezes indissociáveis. 


Não é apenas o beijo entre os amantes. É o do genitor na cria, entre amigos, autoridades, celebridades... O chamado “ósculo” serve para demonstrar afeto ou sacramentar compromissos. E é tão importante que até ganhou um dia para ser celebrado: 13 de abril!

 

Desde sempre

Ninguém é capaz de indicar exatamente quando foi dado o primeiro beijo. Eva em Adão? O registro mais antigo foi encontrado no Satahapata, livro sagrado do bramanismo (filosofia indiana), escrito por volta de 1.200 a.C. Centenas de anos depois, ainda na Índia, outro livro abordou ainda mais em detalhes a prática e a ética do beijo: o Kama Sutra. 


Ao longo da história, o beijo sempre esteve presente nas mais diversas civilizações: gregos antigos, romanos, mesopotâmios, africanos, orientais... 


Na Roma Antiga, beijar os lábios do imperador era sinal de prestígio. Na Rússia, o beijo do czar significava a consagração suprema. Na Escócia, o beijo do padre na boca da noiva era a certeza de felicidade no matrimônio. Nas monarquias medievais europeias, beijar a mão do rei demostrava submissão e lealdade eternas.


Autora de “A ciência do beijo”, a escritora americana Sheril Kirshenbaum cita o cientista Charles Darwin (autor da Teoria da Evolução das Espécies) para argumentar que o beijo é uma derivação de gestos presentes em outros animais, como assopros e lambidas. “Há uma similaridade de comportamentos e uma biologia envolvida aparentemente universal”, explica.


Portanto, o ser humano beija para demonstrar afeto e vínculo por intuição. 

 

O corpo fala
Do ponto de vista fisiológico, o ato de beijar representa uma explosão de manifestações biológicas: faz movimentar 29 músculos na face e provoca a liberação de hormônios como feniletilamina e dopamina, relacionados ao prazer e bem estar, ao mesmo tempo que inibe o cortisol, substância liberada em situações de estresse. Beijar libera ainda a ocitocina, o “hormônio do amor”, que estimula a conexão entre duas pessoas. Mas também pode fazer aumentar a serotonina, que causa pensamentos obsessivos sobre o parceiro —é o mesmo neurotransmissor envolvido em pessoas com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). 


Num beijo apaixonado, a frequência cardíaca pode mais do que dobrar (de 70 para 150 batimentos por minuto), o que estimula positivamente o sistema vascular. 
 

Beijos célebres

1. Socialistas


Em 1979, os presidentes da Alemanha Oriental, Erich Honecker, e da União Soviética, Leonid Brezhnev, deram um beijo fraternal para ratificar a aliança entre os dois países, num momento em que a chamada Guerra Fria caminhava para o fim —o que aconteceria 10 anos depois com a queda do Muro de Berlim.

 

2. Em mármore


Uma das obras mais emblemáticas do escultor Auguste Rodin, a estátua de 1,81 de altura hoje está exposta no museu que leva seu nome, em Paris. O artista dizia que a obra, feita em 1882, buscava retratar uma situação de parceria plena, e não uma mulher submissa perante o homem. Antes de criar a versão em mármore de “O Beijo”, Rodin produziu várias esculturas menores em barro, gesso e bronze.

 

3. À francesa


Durante muito tempo, pensou-se que a cena registrada em 1950 pelo fotógrafo francês Robert Dosneau evidenciava um típico hábito parisiense: casais trocando beijos em plena via pública, alheios a tudo ao redor. Mas “O Beijo do Hotel de Ville”, foi uma cena montada, com dois modelos pagos para posar.
 

4. Fim da Guerra

No dia 18 de agosto de 1945, a cena do beijo retumbante resumiu o sentimento de alegria pelo fim da Segunda Guerra Mundial. A imagem foi para na capa da revista Life. Durante décadas, a identidade do casal ficou desconhecida até que em 1980 foi descoberta. Eles não se conheciam: o marinheiro George Mendonsa tinha acabado de sair de um bar e lascou um beijo na primeira moça que encontrou, Greta Zimmer, que era assistente de dentista (e não enfermeira). 


5. Fúria espanhola


Um apaixonado pelas artes e pelas mulheres, o espanhol Pablo Picasso retratou amantes se beijando em diversas obras. Esta, feita em 1969, quando tinha 88 anos, mostra um casal que parece se devorar compulsivamente. Críticos de arte veem na obra um traço autobiográfico do artista, que usava sua personalidade sedutora/cafajeste para alimentar o egocentrismo. 

 

6. Beijo molhado


É possível que a expressão “beijo de cinema” tenha surgido após a cena contracenada por Burt Lancaster e Deborah Kerr em “A um passo da eternidade”. No filme, ela é a infeliz esposa do comandante, que se envolve com um sargento. “Ninguém nunca me beijou como você”, ela diz, ainda recuperando o fôlego.

 

7. Gay


Muita gente acredita que o primeiro beijo gay numa novela de TV foi o de Matheus Solano e Thiago Fragoso, em “Amor à vida” (2014), mas o pioneiro foi da cena com Luciana Vendramini e Giselle Tigre, em “Amor e revolução” (2011). Depois, houve vários beijos homossexuais: “Babilônia” (2015), “Orgulho e paixão” (2018), “O outro lado do paraíso” (2018). Mas também teve beijo gravado e não exibido: o de Klebber Toledo e José Mayer, em “Império” (2014).

 

8. Traição


“A Captura de Cristo” é uma das obras mais dramáticas do italiano Michelangelo Caravaggio. Mostra uma das cenas mais importantes do cristianismo: o beijo do traidor Judas Iscariotes. Feita em 1602, a pintura em óleo sobre tela ficou 200 anos desaparecida, até aparecer na Irlanda.

 

9. Pop


Na entrega do video Music Awards (VMA) de 2003, Madonna e Britney Spears surpreenderam a todos ao lascarem um rápido mas intenso beijo. Madonna também beijou na boca Cristina Aguillera, mas foi o em Britney que ganhou mais repercussão.

 

10. Paixão pela bola


Na comemoração do gol, um momento de intensa emoção, é frequente que os jogadores extravasem e demonstrem afeto ao companheiro de equipe. Mas Maradona e Caniggia, no clássico Boca Juniors X River Plate, em 1996, parece que exageraram.

 

11. O beijo que não houve


Cena final de filme romântico costuma ter beijo, mas em “Casablanca” (1942) Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não só não se beijaram como o casal não ficou junto. 


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