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Cotidiano/Comportamento | 20/04/2019

A arte de superar conflitos

MARCO SANTANA - DA REDAÇÃO

Veja quais são os principais conflitos e quais as melhores maneiras para resolvê-los ou, ao menos, contorná-los

Conviver com o cônjuge, filhos (ou pais), amigos e colegas de trabalho é uma tarefa que muitas vezes pode ser traumática. As dificuldades do dia a dia, as circunstâncias e as diferenças entre personalidades tornam a tentativa de garantir com que estas relações sejam saudáveis um verdadeiro desafio. 


É preciso ter maturidade emocional para se relacionar com as outras pessoas e conviver com os próprios dilemas. “Administrar as próprias emoções e compreender o estado emocional dos outros é o principal segredo dos relacionamentos duradouros”, explica a psicanalista Claudia Ribeiro Martins. “A Inteligência Emocional ajuda a ter consciência da reação que cada emoção traz para sua vida e, a partir daí, escolher comportamentos que sejam menos destrutivos e mais saudáveis”, completa.


Jornalista por formação e pós-graduada em Psicanálise, Cláudia fará uma palestra sobre o tema na terça-feira (23), às 19h, no Clube Sírio Libanês de Santos, dando continuidade à programação do projeto Você Entrevista. Antes, acontece degustação de vinho e queijos.


Nesta entrevista, a psicanalista fala sobre as dificuldades e os caminhos para obter uma relação mais saudável e feliz entre casais, famílias, com amigos e no ambiente profissional. 
 

Quais os principais motivos de desentendimentos entre casais? 
Cláudia Martins-
Na escuta clínica, o que mais ouvimos são queixas de como as pessoas gostariam de ser amadas e aceitas pelo outro. O que está em pauta nos relacionamentos é ser o desejo do outro. Como cada um tem sua percepção da realidade, de quem o outro representa e até mesmo da própria singularidade no mundo, está posta aí uma tremenda confusão na relação. Junta-se à esta limitante visão de mundo, que faz parte do que somos, a comunicação truncada com elementos faltantes, pouca empatia e alteridade e teremos conflitos constantes e poucas saídas para o entendimento.


Como resolvê-los?
Cláudia Martins-
Esta é uma questão universal e sem caminho único. Na pretensão de oferecer reflexões mais do que soluções, acredito que olhar para si e se conhecer é o primeiro passo para desenvolver o que chamamos de Inteligência Emocional. Se me pergunto: O que é mesmo o que espero quando faço isso com ele ou ela? O que tem a ver comigo muito menos do que tem a ver com o outro? Parece-me que é um bom começo.

 

E nas famílias? O tal “choque de gerações” é maior nos dias de hoje ou não existe mais tanto esta diferença entre mentalidades? Quais os principais conflitos entre pais e filhos? Quais as melhores maneiras de administrá-los?
Cláudia Martins
-  Nas famílias, o chamado “choque de gerações” é, ao meu ver, um processo natural do fortalecimento do eu do sujeito que está na adolescência. Para descobrir do que se gosta, o que pensa, sobre e quais são seus desejos, o jovem inicia um mergulho mais consciente sobre si e vai buscar negar as formas de agir e pensar dos pais. Este momento é delicado, muitas vezes doloroso e importante. Costumo dizer para pais desesperados, que me parece uma possibilidade de entendimento, ouvir genuinamente, afastados de julgamento, como se a sua frente seu filho ou filha estivessem contando sobre um novo mundo que eles não conhecem. Convido-os a pensarem sobre o que na fala de seus filhos lhe trazem tanta dor, quais desejos dos pais estão colocados ali no outro.

 

Em muitas famílias, há “disputa” entre irmãos. Por que?
Cláudia Martins-
De novo, o desejo de ser o desejo do outro e o sofrimento disso não acontecer. Pensemos na chegada de um outro (irmão ou irmã). Se quero ser tudo para minha mãe ou pai, ou para a pessoa ou pessoas que desempenhem esses papéis, quando chega um outro ameaçador do meu lugar vou lutar pelo espaço que acredito ser só meu. Em contrapartida, o recém-chegado que vem depois já percebe que vai ter que encontrar um jeito de ter essa mesma atenção. Parece-me que isso já é um solo fértil para ocorrerem algumas disputas, ora mais acirradas, ora mais amenas e em formato de parcerias.

 

Dá para contornar isso?
Cláudia Martins-
Para contornar conflitos nas relações, sejam estes com parceiros ou familiares, todos objetos amorosos, precisamos buscar alguma maneira de nos conhecermos, desenvolvermos a empatia genuína e habilidades sociais, e buscarmos ações que nos ajudem no autocontrole.

 

O ambiente profissional é naturalmente competitivo, envolve relações de hierarquia e, invariavelmente, reúne pessoas com personalidades muito diversas. Pela sua experiência, quais os principais conflitos que ocorrem e como pacificá-los?
Cláudia Martins-
No ambiente corporativo, a não aceitação do diverso e falta de curiosidade de ouvir a história do outro como agregadora do seu próprio modelo de mundo pode ser uma condição propícia para gerar conflitos  e, muitas vezes, adoecimento dentro das empresas. Se de fato as corporações estiverem interessadas no bem-estar das pessoas que as fazem ser corporações irão investir nos colaboradores, desenvolvendo um ambiente de respeito à diversidade, dando condições para que tenham tempo para autoanalise, meditação, descanso com qualidade e encontros promotores do compartilhamento da história de cada um.
 


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