Colunistas/Digital Jazz | 11/05/2019

Livro "Bossa nova e outras bossas"

Cássio Laranja é produtor musical e coordenador da rádio online Digital Jazz/Jornal da Orla

Desde 2005, ano de lançamento deste livro, persigo esta verdadeira joia rara da música brasileira. O livro de mais de 300 páginas e do tamanho de uma capa de LP, teve uma tiragem de apenas 2.500 exemplares. 

 

O livro está esgotadíssimo e não preciso nem dizer que se tornou um verdadeiro objeto de desejo dos amantes da Bossa Nova e da música popular brasileira.

 

Os autores desta façanha foram o meu saudoso amigo Caetano Rodrigues, que viveu ao vivo e a cores no Rio de Janeiro todos os grandes momentos da Bossa Nova desde o seu início e também o músico e produtor Charles Gavin.

 

Graças a um gesto muito especial do meu querido amigo Carlos Eduardo Pappacena Carneiro, um dos donos da famosa loja de roupas Ao Camiseiro, consegui adquirir o meu raro exemplar numerado – 0999. Número muito especial, que valorizou ainda mais os 12 anos de espera pelo livro. Gratidão!

 

A história deste livro começou em 1999, quando os dois se conheceram através de um amigo comum, que era dono de um sebo de discos de vinil.

 

Neste livro “Bossa Nova e Outras Bossas – A Arte e o Design das Capas dos LPS” estão reunidos grande parte da coleção pessoal do Caetano Rodrigues, um dos maiores colecionadores de discos do Brasil que tive a felicidade de conhecer. 

 

Eu tive a sorte e o privilégio de ver e ouvir vários destes discos ao vivo. Quando me mudei para Curitiba, onde vivi por 2 anos, fiquei hospedado na sua casa nos 3 primeiros meses. Foram dias e noites inesquecíveis, onde pudemos compartilhar muitas histórias e ouvir muita música.

 

O prefácio do livro só poderia ser assinado pelo também querido amigo Ruy Castro, uma das maiores autoridades sobre Bossa Nova deste planeta e que considerava a coleção de discos de Bossa Nova do Caetano Rodrigues, como a mais importante do Brasil.

 

A história da Bossa Nova foi contada através das capas dos discos, mostrando com absoluta competência vários momentos importantes do gênero musical que revolucionou a nossa MPB.

 

As raridades são muitas e selecionei duas: a primeira, o disco do pianista americano Jack Wilson gravado em 1967, quando Tom Jobim morava em Los Angeles. Tom frequentava o bar onde o pianista se apresentava regularmente e eles decidiram fazer um disco juntos. Como Tom Jobim já tinha contrato com outra gravadora ele participou das gravações, curiosamente com o nome de Toni Brasil no violão. A segunda, o disco “Bossa é Bossa” da turma da Bossa Nova, da qual fazia parte Roberto Menescal com apenas 21 anos. Foi a primeira vez que a expressão Bossa Nova apareceu na capa de um LP.

 

Faço aqui também uma singela homenagem ao saudoso amigo Caetano Augusto Rodrigues.
 

 

Livro “Rio Bossa Nova – Ruy Castro”

Sugiro que quando você voltar ao Rio de Janeiro, se permita fazer um roteiro um pouco diferente. O Rio é muito mais do que Copacabana, Ipanema, Corcovado e o Pão de Açúcar. Ele é a cara, o corpo, o jeito e, por que não dizer, a cidade da Bossa Nova. 

 

Sugiro que você faça, assim como eu já fiz algumas vezes, o roteiro da Bossa Nova acompanhado de um aliado muito especial debaixo do braço, apesar do peso e do tamanho. É importante levar com você o livro “Rio Bossa Nova – Um Roteiro Lítero-Musical”, do jornalista Ruy Castro, lançado pela Editora Casa da Palavra (numa reedição atualizada e bem mais completa daquela original lançada em 2006). Um verdadeiro “Mapa da Mina”, com vários segredos revelados. 

 

Experimente olhar para a janela da sala do prédio de Nara Leão, na Avenida Atlântica, em Copacabana, onde ali aconteceram os grandes encontros dos amigos da Bossa, caminhar em Ipanema e parar em frente ao prédio da Rua Nascimento Silva no. 107, onde Tom Jobim morou por muitos anos e lá compôs várias das suas belas e inspiradas canções, e também, caminhar pelo Beco das Garrafas, visitando o Bottle's Bar, o Little Club, sentar no Bar onde Tom e Vinícius avistaram a Garota de Ipanema e se inspiraram para compor a mais famosa canção da música brasileira. E também ver o pôr do sol na Ponta do Arpoador e depois tomar um drink no Copacabana Palace. 

 

Muito bem organizado por bairros, o guia percorre todos os cantos da cidade, sugerindo vários endereços. Como se trata de uma verdadeira radiografia do “Rio Bossa Nova”, o guia facilita a escolha do leitor, que poderá decidir por conta própria, o roteiro de acordo com o seu interesse. 

 

Você vai poder também se deliciar com incríveis histórias contadas por quem entende do assunto e que é conhecido como uma das maiores autoridades sobre a Bossa Nova. Além da pesquisa sobre lugares com as informações mais importantes são oferecidas pelo autor algumas deliciosas histórias (não todas, é claro) daqueles locais mencionados. 

 

E o mais legal é que os outros segredos você terá que descobrir por conta própria, de acordo com as suas andanças pela cidade. 

 

Recomendo que você faça esta experiência sensorial, capaz de reunir os 5 sentidos. Vai fazer bem para a alma e para o coração, posso garantir.

 

Livro “João Gilberto – Zuza Homem de Mello”

Sou um admirador contumaz do trabalho musical executado pelo contrabaixista, jornalista, musicólogo, radialista, pesquisador, crítico e produtor Zuza Homem de Mello, uma das maiores referências do assunto música deste planeta e que, assim como eu, tem muita música nas veias. 

 

Zuza escreveu vários livros essenciais como "A Era dos Festivais: Uma Parábola" e os meus preferidos "Eis Aqui Os Bossa Nova" e "Música nas Veias: Memórias e Ensaios", entre outros lançamentos importantes.

 

E, com o conhecimento de poucos, teve a coragem de escrever em 2001, pela Editora Publifolha, da coleção "Folha Explica", um livro sobre a obra musical do cantor e violonista João Gilberto, marcando as comemorações dos seus 70 anos de vida, completados na época do lançamento. 

 

Dividido em 13 capítulos e 128 páginas deliciosas, o livro, que não é e nem pretende ser uma biografia, aborda vários aspectos muito interessantes deste personagem da nossa música, que é cercado de lendas, mistérios e uma genialidade absurda. 

 

O autor investiga, e traduz, através das suas palavras, o caráter único e diferente do músico.  Zuza conta que a gravação de "Desafinado" foi um marco na carreira de João Gilberto e no movimento da Bossa Nova (esta canção lançou uma nova forma de se ouvir e interpretar a MPB e que resultou na Bossa Nova), embora considerando que ela não é a mais perfeita. Para o autor, a mais perfeita canção da Bossa Nova é "Samba de Uma Nota Só". 

 

E, para encerrar, uma dica essencial do autor para que possamos absorver na totalidade a arte de João Gilberto: "Devemos ouvir a música de João pela primeira vez concentrando na voz. Depois, reouvir concentrando no violão. E, depois, reouvir pela terceira vez, concentrando na sonoridade da voz e do violão. Esse é o ponto crucial para se ouvir João Gilberto".  

 

No mais, ouça João Gilberto com a maior atenção possível. Afinal, voz e violão estão diretamente ligados a João e Gilberto. Todos são um só. 

 


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