Colunistas/Cinema | 13/07/2019

Resenha da semana: Atentado ao Hotel Taj Mahal

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

 Você não verá um Duro de Matar na Índia dessa vez.

Atentado ao Hotel Taj Mahal me lembrou bastante de Capitão Phillips, do diretor Paul Greengrass, pela criação de uma atmosfera tensa e opressora mostrada de forma crua e realista, o que acaba gerando um sentimento de extrema aflição ao público, ainda mais por se tratar de uma história real. O longa consegue ser uma homenagem aos funcionários do hotel em questão mas sem deixar de lado o maniqueísmo Hollywoodyano, o que percebe-se pela escolha de seu elenco, em sua maioria norte americano. Mas felizmente os feitos heróicos ficam a cargo dos indianos, portanto você não verá um Duro de Matar na Índia dessa vez.

 

O filme se passa no ano de 2008 em Mumbai, Índia. Um grupo de terroristas chega à cidade de barco, disposto a promover uma série de ataques em locais icônicos da cidade. Um deles é o luxuoso hotel Taj Mahal, bastante conhecido pela quantidade de estrangeiros e artistas que nele se hospeda. Quando os ataques começam, o humilde funcionário Arjun (Dev Patel) tenta ajudar todos a se protegerem, enquanto David (Armie Hammer) e Zahra (Nazanin Boniadi) buscam algum meio de retornar ao quarto em que estão hospedados, já que nele está seu bebê e Sally (Tilda Cobham-Hervey), sua babá. O filme é dirigido pelo estreante Anthony Maras, que tem uma grande responsabilidade ao passar dignidade para aqueles que perderam suas vidas no atentado e essa seriedade é vista em tela. O diretor cria um tom quase documental, passando longe da banalização da violência para entreter platéias em busca de um filme de ação descompromissado. Aqui, Maras cria um filme incômodo, expondo a crueldade que o ser humano pode atingir construindo, aos poucos, uma intensa carga psicológica que pode incomodar pessoas mais sensíveis. O roteiro, escrito em parceria com John Collee, desenvolve bem seus personagens e consegue manter uma identificação entre o público e eles, fazendo com que nos importemos com seus destinos (isso é algo que sempre falo em minha críticas e acho fundamental para o desenvolvimento do filme). Porém, apesar deste bom desenvolvimento, os roteiristas ficam presos em algo que dificilmente alguém consegue escapar: vilanizar os muçulmanos, que após o atentado de 11 de setembro, figuram como os principais vilões em diversas produções e ao não abordar as questões político-religiosas por trás do ocorrido. Faltou um pouco de coragem aqui. 

 

O filme possui uma fotografia em tom pastel que ressalta o calor que reina na Índia criando um clima claustrofóbico ao passo que a direção de arte cria um hotel sufocante, onde não sabemos o que esperar em seus corredores que mais parecem labirintos, criando um sentimento de inescapapilidade muito grande. A ausência de trilha sonora também cria uma tensão muito grande, intensificando a sonoplastia dos tiros, o que intensifica a experiência do público, especialmente na cena de discussão entre um turista e um garçom, que é abruptamente interrompida com o som alto de um tiro e a forte imagem de sua testa perfurada, sem tempo para lamentar o ocorrido. E é em cima deste ritmo frenético que a eficiente montagem do filme trabalha, deixando apenas a opção do público de tentar reagir à situação.

 

Apesar de praticamente todos os personagens serem artificiais e com diálogos um pouco expositivos, o ator Dev Patel consegue se sobressair, como o dedicado funcionário do hotel, com uma entrega emocional bastante crível ao passo que Armie Hammer faz o que pode, mesmo o texto não ajudando muito. 

 

Atentado ao Hotel Taj Mahal levanta superficialmente alguns questionamentos sobre intolerância religiosa e desigualdade social, mas seu foco é ser um eficiente thriller de ação com a criação de uma tensão constante e ao retratar com respeito e dignidade os sobreviventes deste trágico e infeliz acontecimento recente.

 

Curiosidades: No ano de 2010 houve a construção de um monumento na entrada do Hotel Taj Mahal, em homenagem às vítimas do atentado ocorrido em 2008.

 

 

Foto: Reprodução
 


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