Cotidiano/Saúde | 13/07/2019

Veneno efervescente

Os jovens estão ficando cada vez mais doentes em decorrência da má alimentação —e o consumo de refrigerantes e sucos processados têm grande responsabilidade nisso. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de crianças e adolescentes obesos passou de 11 milhões, em 1975, para 124 milhões em 2016. Além disso, há mais 123 milhões de pessoas entre os 5 e os 19 anos de idade com excesso de peso.

 

A OMS alerta que o consumo de bebidas açucaradas é decisivo para o desenvolvimento de doenças como hipertensão, diabetes e cáries dentárias. Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, refrigerantes e outras bebidas industrializadas açucaradas são produtos ultraprocessados e, portanto, devem ser evitados para uma alimentação adequada e saudável.

 

Valor nutritivo zero
Açúcares livres são monossacarídeos (como a glucose e a frutose) e dissacarídeos (como a sacarose ou o açúcar de mesa) adicionados aos alimentos e bebidas pelo fabricante, cozinheiro ou consumidor, assim como os açúcares naturalmente presentes no mel e em sucos de fruta, tanto naturais como concentrados.

 

A rigor, o consumo de açúcar livre é inútil na dieta de uma pessoa. Mas, como ele é consumido mesmo assim, a OMS recomenda que sua ingestão represente no máximo 10% do total diário. “Isso equivale a menos de 250 ml de uma bebida açucarada”, explica o diretor do departamento de Nutrição para a Saúde e o Desenvolvimento da OMS, Francesco Branca.

 

Sucos industrializados e refrigerantes são, respectivamente, o sexto e o nono alimentos mais consumidos no Brasil, revela a Pesquisa Nacional de Orçamento Familiar de 2008-2009, realizada pelo IBGE.

 

Mais impostos
Com o objetivo de desestimular o consumo destas bebidas açucaradas, a OMS recomenda impostos mais altos nestes produtos. Nos Estados Unidos, a Academia Americana de Pediatria e a Associação Americana de Cardiologia está travando uma verdadeira guerra contra a gigantesca indústria de refrigerantes e sucos ultraprocessados. 

 

E cita como experiência de sucesso o caso de Berkeley, na Califórnia, a primeira cidade do país a impor um imposto de 1% sobre os refrigerantes, em 2015. Um ano depois, as vendas caíram 9,6% e as de água aumentaram 15,6%. Os especialistas acreditam que, a médio prazo, haverá melhora nos índices de saúde dos jovens.

 

A entidade recomenda que as crianças não consumam mais do que seis colheres de chá de açúcar ou 100 calorias por dia. “Para as crianças, a maior fonte de açúcar adicionado frequentemente não é o que comem, é o que bebem. Como pediatra, sei bem que os refrigerantes representem riscos reais e evitáveis à saúde das crianças, incluindo cárie dentária, diabetes, obesidade e doenças cardíacas”, diz o pediatra Moises Chencinski.

 

Os prejuízos do açucar

Engorda - No organismo, o açúcar é convertido em gordura de duas a cinco vezes mais rápido que os amidos. A frutose no produto também é metabolizada pelo fígado, contribuindo para a esteatose hepática (“fígado gorduroso”) — o que pode promover a resistência à insulina e levar a diabetes do tipo 2.

 

Prejudica o intestino - O consumo elevado de açúcar deixa a microbiota intestinal fora de sintonia, favorecendo a proliferação de fungos e parasitas. O excesso do fungo “Candida albicans” pode levar a uma série de sintomas irritantes. O açúcar também contribui para o resfriado, a diarreia e gases.

 

Enfraquece o sistema imunológico - Depois do consumo de açúcar, a capacidade do sistema imunológico de matar germes é reduzida para até 40%. O açúcar também enfraquece o estoque de vitamina C, da qual os leucócitos necessitam para combater vírus e bactérias. Também fomenta o processo inflamatório e desencadear graves doenças.

 

Eleva o risco de câncer - As células cancerígenas precisam do açúcar para se multiplicar. Estudo da Escola Médica de Harvard indica que o açúcar refinado faz com que células cancerígenas se transformem em tumores e recomenda o menor consumo possível do produto.

 

Contribui para o envelhecimento - Ocorre a glicação, processo pelo qual moléculas de açúcar se ligam às fibras de colágeno. Como resultado, estas perdem sua elasticidade natural. O excesso de açúcar também prejudica a microcirculação, o que retarda a renovação celular. Isso pode estimular o desenvolvimento de rugas e o envelhecimento precoce.

 

Afeta o humor - Em pequenas quantidades, o açúcar promove a liberação da serotonina, um hormônio que estimula o humor. No entanto, o consumo elevado do produto pode fomentar a depressão e a ansiedade. Mudanças repentinas nos níveis de açúcar no sangue também podem levar à irritabilidade, ansiedade e alterações de humor.

 

Provoca agressividade - Pessoas que consomem açúcar em excesso são mais propensas a assumir um comportamento agressivo. Crianças que sofrem de déficit de atenção e hiperatividade também são afetadas pelo açúcar. O consumo elevado do produto afeta a concentração e fomente a hiperatividade. É por isso que as crianças devem evitar comer açúcar no horário escolar.

 

Pode viciar - O cérebro responde ao açúcar, liberando dopamina, da mesma forma que responde ao álcool e a outras substâncias que causam dependência. Testes indicam que pessoas que deixaram de consumir alimentos e bebidas adocicadas por dez dias começaram a ter dores de cabeça e picos de irritabilidade, resultado da abstinência. 

 

Provoca perda de memória - Segundo estudo realizado pelo Hospital Universitário Charité de Berlim, pessoas com níveis elevados de açúcar no sangue têm um hipocampo menor, parte do cérebro fundamental para memória de longo prazo. 

 

Contribui para o Alzheimer - Estudos mostraram que o excesso de consumo de açúcar aumenta o risco de desenvolvimento da Doença de Alzheimer. Uma pesquisa de 2013 mostrou que a resistência à insulina e altos valores de açúcar no sangue – ambos comuns no diabetes – estão associados a um maior risco de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer.

 

Foto: Free Stock Image Bank


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