Colunistas/Vida em Dia | 24/08/2019

Atenção, futuras mamães!

Jornalista

Estudos revelam que estratégias, principalmente nutricionais, durante a gestação trazem benefícios que vão além da infância do bebê

Os 90 dias antes da concepção, somados aos cerca de 280 dias de gravidez e os 730 dos primeiros dois anos de vida são os mais importantes para a saúde futura da criança. Pesquisas evidenciam que a boa nutrição, por exemplo, é uma das principais medidaspara evitar obesidade e o diabetes na vida adulta. 


O programa 1,000 days, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2010, foi desenvolvido para melhorar a saúde da gestante, além de estimular o aleitamento materno e combater à desnutrição”, explica o ginecologista Eduardo Borges da Fonseca, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que participou nesta semana de evento da Bayer sobre os 1.100 dias para moldar o futuro do bebê. Novas evidências científicas colaboraram para a ampliação desse ciclo e assim botaram na conta os três meses que antecedem a gravidez.


Para quem quer engravidar, é importante prestar atenção no peso. Quem está muito abaixo ou acima do peso pode ter maior dificuldade, já que esses extremos acabam desregulando a produção de hormônios essenciais para a fecundação.


Algumas vitaminas também são importantíssima na gestação, entre elas o ácido fólico associado, que devem ser suplementado nos primeiros meses de gravidez para evitar malformações do feto. “Essa vitamina, que faz parte do Complexo B, participa do fechamento do tubo neural e tem ação fundamental na formação do sistema nervoso do bebê“, explica Eduardo Borges.


A vitamina B12 e o ferro também merecem total atenção. “A deficiência desse mineral acomete até 30% das brasileiras em idade fértil”, estima Fonseca. Entre as muitas funções, ele favorece a boa oxigenação da placenta. Estudos têm mostrado que é necessário apresentar bons índices desse nutriente no período que antecede a concepção. 
 

Cardápio equilibrado

A correria diária resulta em dietas pouco nutritivas, daí esses déficits tão comuns. Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revela que frutas e hortaliças têm perdido a vez para itens ultraprocessados, práticos e calóricos. O trabalho mostra que 90% da população não está em dia com os níveis de vitaminas e sais minerais. “O consumo diário de vegetais deve ser de de 200 a 400 gramas“, alerta o nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, a ABRAN.


O médico Durval Ribas ainda destaca a importância do zinco, da vitamina D, do cálcio e do ômega-3 como grandes aliados da boa gestação. “A mulher deve ter reservas apropriadas para que seu organismo não sofra depleções na gestação e para garantir que seu filho cresça saudável“. Para estabelecer as dosagens corretas de suplementação é preciso avaliar os hábitos alimentares e solicitar exames laboratoriais específicos. 


O futuro papai também precisa estar atento. O zinco, por exemplo, ajuda muito na fertilidade. “Sua deficiência afeta as taxas de testosterona. A suplementação favorece a contagem de espermatozoides e a vitamina E e o selênio reforçam ainda mais essa atuação. O ácido fólico é outro que faz toda a diferença no organismo masculino e ainda contribui para a integridade do material genético“.
 

 

Herança genética
A epigenética, que são as respostas dos nossos genes aos efeitos do ambiente, também é outra ferramenta atual. Análises observacionais do epidemiologista inglês David Barker (1938 – 2013) serviram de inspiração para definir a essa ciência. “Barker foi um dos primeiros a afirmar que o recém-nascido de baixo peso é um candidato à obesidade com o passar dos anos”, relata Eduardo Borges. 


Essa tendência se dá porque o organismo aprende a lidar, desde a fase intrauterina, com uma situação de escassez constante. Quando o feto não recebe nutrientes a contento, ele passa a utilizar qualquer ínfimo suprimento como reserva de energia. Ou seja, não desperdiça nada. E esse mecanismo de defesa favorece o acúmulo de quilos extras na infância e repercute com o passar dos anos. Em contrapartida, durante as 40 semanas da gestação, intervenções nutricionais efetivas resultam em efeitos duradouros e impactam pela vida toda.

 

O ômega-3 
Trata-se de um ingrediente que tem se destacado em estudos por sua atuação em curto e longo prazo. Denominado DHA (ácido docosahexaenóico), ele é uma molécula do time das gorduras que favorece o desenvolvimento do cérebro e da retina do bebê a partir do segundo trimestre de gestação. 


O ginecologista e obstetra Henri Korkes, professor do Departamento de Obstetrícia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) revela que há ainda estudos mostrando que o ômega-3 reduz o risco de parto prematuro.  E já se sabe: quanto mais tempo o bebê ficar no ventre materno, menor a chance de intercorrências.


 “O ideal é que se ultrapassem, ao menos, 37 semanas de gestação”, diz Henri Korkes. É que a partir dessa fase os órgãos estão maduros e a criança já vai estar preparada para respirar e se alimentar fora do útero. A tendência é de que seu peso e tamanho também estejam adequados, o que, inclusive, pode afastar a obesidade futuramente“.


A substância é encontrada em peixes de águas frias, como o atum e o salmão. Quem não abusa desses itens no cardápio deve suplementar, de acordo com a Associação Brasileira de Nutrologia. O ômega-3 também deve ter seu lugar garantido no pós-parto. “Há indícios de ganhos cognitivos ao bebê que recebe leite materno com doses adequadas de DHA”.

 

Vitamina D
Muito falada nos últimos anos, a vitamina D precisa marcar presença antes, durante e depois da gravidez. Ao longo dos nove meses de gestação, não restam dúvidas sobre a importância do nutriente na formação do esqueleto da criança.  “Existem ainda trabalhos robustos sobre a ligação entre a vitamina D e a redução do risco de asma”, comenta o ginecologista e obstetra Luciano de Melo Pompei, livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e professor da Faculdade de Medicina do ABC.


Pesquisa publicada no periódico científico JAMA, mostra que a suplementação na gravidez diminui a probabilidade de os bebês apresentarem sibilos respiratórios (ruídos).  A reconhecida atuação em prol do sistema imunológico ajuda a explicar esse efeito. As doses de suplementação podem variar de 400 a 2000 UI por dia.  “São realizados exames para estipular as necessidades de acordo com a paciente”, diz Luciano Pompei.


Após o nascimento do bebê a recomendação continua. Nesse período ocorrem baixas hormonais que podem favorecer a perda óssea da mãe. Muitas vezes após o parto, o foco se volta ao novo integrante da família e o cuidado com a mulher acaba sendo negligenciado.


 Além de todo o apoio emocional, o organismo das mães precisa estar fortalecido, o que também é fundamental para garantir que seu leite seja mais nutritivo e que não falte nenhum dos ingredientes indispensáveis ao filho.
 


Leia também