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Cotidiano/Comportamento | 15/02/2020

Como ser feliz em tempos de relações líquidas?

MANU CARDOSO - DA REDAÇÃO

Um manual de “como ser feliz” solucionaria a vida de muitas pessoas. Mas – spoiler! – ele não existe! Em um cenário globalizado, no qual impera uma verdadeira avalanche de dados (principalmente nas redes sociais) fica ainda mais difícil saber o que fazer para “ficar de bem com a vida”. Segundo o psiquiatra Paulo Santos, não há nenhuma regra, mas o caminho é compreender a si e ao outro, encarar-se de frente. O problema é que isso requer intimidade e autoconhecimento e, com as relações cada mais vez ‘on-line’, o risco é a superficialidade prevalecer. Nesta entrevista, o psiquiatra sugere estratégias para melhorar as relações interpessoais e ter mais serenidade para enfrentar os desafios cotidianos.

 

Jornal da Orla – A globalização trouxe efeitos positivos na vida das pessoas, mas também provocou efeitos colaterais. Quais os mais prejudiciais que o senhor destaca?

Paulo Santos – O efeito mais prejudicial é a oferta de informações que não temos condições de administrar, e esses dados estão sendo tomados como verdade. Essa ilusão prejudica o nosso desenvolvimento emocional. A verdade que existe é a do indivíduo, do que ele realmente quer. É preciso ter consciência do que de fato pertence a ele e o que pertence ao outro. Se tiver isso, consegue destacar uma determinada informação em meio a tantas outras. Ter noção de qual é o seu real interesse nesse ‘estar no mundo’ facilita a administração e escolha dos dados aos quais queremos nos envolver. 

 

Jornal da Orla – Ter essa consciência é o que está em crise hoje. Como resolver?

Paulo Santos – Nós não estamos em contato conosco e não temos uma visão clara para focar naquilo que de fato interessa. É comum eu ouvir relato de pessoas que começam a procurar assuntos que lhes interessam na internet e acabam em outro outro. Quando percebem, se perderam daquilo que realmente interessava. É um grande prejuízo de tempo, e essa enxurrada de informações faz com que nos afastemos de nós mesmos, do nosso desejo real. A solução seria o exercício de verificar quase o tempo todo se você não está sendo conduzida para consumir. 

 

Jornal da Orla – As novas tecnologias, principalmente as redes sociais, acabaram prejudicando a interação presencial entre pessoas. Quais as consequências disso?

Paulo Santos – A perda, ou escassez, do contato com o outro dificulta e impede o contato com nós mesmos. O prejuízo é não se envolver, não se importar. É preciso sentir o outro em profundidade. Essa experiência é profundamente humana e só acontece presencialmente, onde a expressão aparece independentemente da fala. A experiência emocional é visceral. Pela internet, dificilmente você vai se deparar com isso, e me refiro à experiência animal, de encantamento e de grande alegria.

 

Jornal da Orla – É inegável que os avanços tecnológicos ajudam a melhorar a vida das pessoas, mas muitos ficam obcecadas por novidades. Como identificar o limite desta busca?

Paulo Santos – Não é uma experiência com o que é novo, é anestésico diante do que suponhamos ser novidade. Uma pessoa que fica horas em um tablet, por exemplo, está mais se anestesiando do que se preenchendo. É preciso identificar o que a levou ao aparelho. O limite é você, adulto, que irá estabelecer. É preciso estar consciente da demanda emocional que se vive e qual é o papel da internet nisso.

 

Jornal da Orla – O senhor fala de “fluidez das relações afetivas”. O que seria isso?

Paulo Santos – O sociólogo Zygmunt Bauman usava esse termo para se referir à pós-modernidade. Para as relações humanas, se refere à nossa capacidade de mudar de forma, de deletar, fazer contato rápido e desfazer também. Ou seja, sem forma ou profundidade. Quando você “deleta” alguém, é um conflito excluído, algo que poderia lhe transformar, pois o crescimento se dá só no conflito.

 

Jornal da Orla – O senhor fala também da “importância de um eventual silêncio”. Em que circunstância é melhor permanecer calado?

Paulo Santos – Quem ouve tem uma vantagem grande sobre quem fala. O silêncio é uma chance de você conhecer a sua raiva, sua fúria, e ver quando ela começa a aparecer no seu corpo. Se você está em um diálogo e percebe o sentimento chegando, suporte um pouco e poderá controlá-lo. É uma forma de se conectar à essência, à animalidade, e se conhecer. Isso também serve para momentos de amor, porque passar da conta também nos coloca em risco. Um amor demasiado é profundamente letal. 

 

Jornal da Orla – Felicidade é um conceito extremamente subjetivo e até relativo. Mas, ainda assim, é possível definir alguns aspectos ou níveis que indiquem que uma pessoa é feliz?

Paulo Santos – A nossa saúde mental está mais voltada para o que é estar satisfeito do que para estar feliz. Nós não estamos felizes porque não percebemos o que temos agora. Nós achamos que o que nos fará feliz está no amanhã. É necessário nos darmos conta do que temos agora. É a compreensão do agora “infeliz” que vai nos fazer inteligentes, e ampliar a consciência para acharmos uma solução. A atividade de compreender nos deixa feliz, e isso não necessariamente é aceitar. É como um amor incondicional. A mãe, por exemplo, aceita o filho, mas não compreende porque ele está nas drogas ou não entrou para a faculdade. Sem compreender nada disso, sem correlacionar sentimento para entender o porquê se está nessa situação, ela só o aceita e o ampara. Não há preocupação. É o amor genuíno. 

 

A felicidade é a capacidade de compreender. Nós estamos em uma crise na qual precisamos resgatar essa forma de ser feliz. Até para poder negociar e lutar, em qualquer circunstância, seja em uma relação pessoal ou na sociedade de modo geral.

 

A minha proposta é que nós não queiramos solução, e sim que compreendamos e sejamos compreendidos. Quando nós pudermos compreender o mundo onde vivemos e um pouco do que somos, as coisas serão melhores.

 

Foto Guetty Images
 


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