Cultura/Roteiro Cultural | 12/06/2009

Cacilda Becker... 40 anos depois

Carlos Pinto

O jornalista Carlos Pinto escreve sobre uma das mais importantes personalidades do teatro brasileiro, que faleceu há exatos 40 anos.





















“A morte emendou a gramática.
Morreram Cacilda Becker.
Não eram uma só.
Eram tantas...”
(Carlos Drummond de Andrade)


Considerada como uma das mais importantes personalidades do teatro brasileiro, Cacilda Becker nasceu em Pirassununga nos idos de 1921. Conforme confessou a Garda Gurgel, em entrevista concedida em fevereiro de 1969, teve uma infância pobre materialmente, mas rica no sentido de estar sempre rodeada por pessoas evoluídas e inteligentes. E dentro desse ambiente, já morando em Santos, que aos 17 anos incentivada pela mãe vai para o Rio de Janeiro, onde inicia sua carreira teatral no Teatro do Estudante do Brasil, pelas mãos de Paschoal Carlos Magno.

Completou seu curso de normalista e se decidiu pela carreira teatral. Foi um inicio terrível, de muita luta, onde até fome passou, mas com persistência e força de vontade atravessou todas as fases más e difíceis da carreira, até conquistar a consagração. Seu sonho de adolescente era tornar-se bailarina clássica, mas o teatro veio ocupar um lugar especial em sua vida. A partir de 1940, quando se inicia no Teatro do Estudante, construiu uma carreira que durariam 29 anos.

Voltando a São Paulo ajuda a criar o Teatro Brasileiro de Comédia – TBC em 1948, tornando-se em pouco tempo a primeira atriz da companhia. Nesta época, conceituam-se como seus principais trabalhos, seus desempenhos em “Seis personagens à procura de um autor”, de Luigi Pirandelo, e “Antígona”, de Sófocles. Por essa época (1947) trabalha em seu primeiro filme, intitulado “A luz dos meus olhos”. Posteriormente, em 1954, viria a protagonizar sua segunda e última aparição cinematográfica, “Floradas na serra”, ao lado de Jardel Filho. Em 1958 resolve fundar sua própria companhia teatral, ao lado de Walmor Chagas, seu marido, Ziembienski e Fredi Kleemann, seu melhor fotógrafo.

Encenou grandes obras da dramaturgia mundial, como “Longa jornada noite adentro”, de Eugene O Neill, e “A visita da velha senhora”, de Durrenmatt. Desfilou pela dramaturgia mundial, trabalhando em obras de Schiller, Renard, Tennessee Williams, Albee, Shakespeare e Gil Vicente, entre outros. Dos dramaturgos nacionais trabalhou em obras de Martins Pena e Abílio Pereira de Almeida. Em princípios de 1969 inaugura o Teatro Municipal de São Carlos, com o texto de Samuel Beckett “Esperando Godot”. Em 6 de maio desse mesmo ano, foi acometida por um derrame cerebral, em função da ruptura de um aneurisma cerebral. Durante 38 dias esteve em coma, vindo a falecer em 14 de junho de 1969.

Exatamente há 40 anos, o teatro brasileiro perdia sua grande liderança, e uma militante ativa na luta pela redemocratização do país. Pequena, frágil na sua estrutura física, mas uma gigante na luta pelos interesses coletivos da classe teatral. Hoje, só nos resta homenagear essa grande dama do teatro brasileiro. Cacilda Becker vive em cada ator, em cada atriz, em cada profissional das artes cênicas. Desde sua morte, jamais surgiu liderança com a mesma força, as mesmas atitudes éticas, e o mesmo desprendimento para lutar em favor da coletividade teatral. Ninguém ocupou seu lugar.


Carlos Pinto é jornalista, presidente do ICACESP e secretário de Cultura de Santos


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