De de um lado há homens que negligenciam e até abandonam os filhos após se separarem das mães, de outro há homens que lutam para assumir plenamente sua função de pai, mesmo que para isso tenham que travar desgastantes batalhas judiciais. Eles não querem apenas participar com o sustento, mas acompanhar o crescimento e contribuir na formação moral e intelectual da criança. Pai em tempo integral, não apenas de fim de semana e hora marcada.
Se a reconciliação do casal não tem jeito, esta seria a solução ideal para a criança (a principal interessada na história): não sofrer com o afastamento de um ou de outro. Mas, por mais lógico que possa parecer, as coisas não caminham assim, tanto que já há pais mobilizados para lutar pelo direito de vivenciarem a paternidade e evitar o distanciamento que tanto prejudica os laços de afeto e referências. É que enquanto a disputa judicial se prolonga por anos, os filhos crescem, às vezes sob os cuidados da avó ou de uma babá.
No ano passado, foi criado no Rio de Janeiro o movimento "Pais por Justiça" (inspirado no grupo inglês Fathers 4 justice), que montou uma grande instalação na praia de Copacabana, com 365 bonecos de plásticos com olhos e boca vendados, simbolizando o afastamento forçado de seus filhos. Em Santos, o movimento está sendo articulado pelo analista de sistemas autônomo Nildo Fernandes Silva (foto), 35 anos, e já conta com alguns integrantes.
Além do contato restrito com seus filhos, esses pais reclamam da manipulação psicológica por parte das mães, às vezes seguida de falsa acusação de mau trato ou abuso sexual, e da morosidade e parcialidade das autoridades judiciais, que via de regra coloca-se sempre ao lado da mãe. "O objetivo é alertar a sociedade e a Justiça para esta realidade, que pode provocar danos irreversíveis nas crianças, que viram órfãs de pais vivos", esclarece Nildo Silva. O movimento fará manifestação no Dia das Mães, em Santos ou no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
Eles querem participar, não só pagar as contas Nildo tem uma filha de 6 anos, que fica com ele um final de semana a cada quinze dias. Ele está pedindo a guarda da menina na Justiça, mas corre o risco até de ser preso por não pagar a pensão alimentícia, arbitrada em quatro salários mínimos, perto de R$ 1.700,00. "Estou bancando todas as despesas dela, como escola, roupas, comida, medicação, tudo comprovado, mas este valor eu não tenho como pagar, é mais do que consigo ganhar atualmente".
Nildo entrou com pedido de revisional em dezembro passado, mas até agora a audiência não foi marcada. Está separado desde outubro de 2007, depois de cinco anos de namoro e sete de casamento.

Marcos (o nome foi trocado a seu pedido), 43 anos, é industriário e paga dois salários mínimos de pensão para a filha, também com seis anos, além de convênio médico e odontológico. Ainda assim, a menina está matriculada em escola pública e, segundo o pai, em suas visitas quinzenais chega apenas com a roupa do corpo. Marcos deixou o apartamento adquirido na época de solteiro com a ex-mulher e voltou para a casa dos pais. "Sei que ela não está pagando nem condomínio nem IPTU. Pedi na Justiça que a mãe preste contas do que faz com o dinheiro da pensão, mas o juiz indeferiu". Separado há um ano e 7 meses, ele foi casado por 6 anos, após 4 de namoro.
Nos dois casos, as separações são litigiosas (a de Nildo ainda não foi oficializada) e os ex-casais, que um dia trocaram juras de amor, não se falam, nem mesmo sobre assuntos de interesse das crianças. "A gente não tem o direito de acompanhar o que acontece com nossas filhas, se estão bem na escola, se ficam doentes, nada. Isso acaba comigo, mas não vou desistir dela nunca", desabafa Marcos.
Passando pela mesma situação, o advogado Fernando (o nome também foi trocado), 43 anos, admite que são poucos os pais separados que se preocupam em participar da vida dos filhos, mas esta minoria é discriminada e acaba pagando pelo descaso de outros. "O Poder Judiciário tem a obrigação de fazer as leis serem aplicadas, inclusive a mãe que reclama deve entrar na Justiça obrigando o pai de seu filho a conviver com ele, a lei prevê isso". Fernando tem uma filha de 4 anos, que vê todas as quartas-feiras, apenas por uma hora, e pega no fim de semana, a cada quinze dias. A mãe é sua ex-namorada, de quem não consegue nenhuma informação sobre a filha, apesar de pagar pensão alimentícia e arcar com todas as despesas. "Não é a situação em si que cria o problema, depende da pessoa com quem a gente se relaciona".
A recomendação do advogado André Luiz Teixeira Perdiz Pinheiro (foto) para os pais que se identificam com essa situação é sempre buscar a Justiça. "A lei atual determina que fica com a criança quem tem melhor condição. O pai não pode ser mero espectador do crescimento do filho. Pai e mãe são para sempre e não pode haver cerceamento, porque a criança não tem defesa e sempre é ela a maior prejudicada. É a criança quem paga pelo ato errado da mãe ou do pai".
Movimento Pais por Justiça - sites http://www.paisporjustica.com e http://paisporjustica.blogspot.com/ e ainda comunidade no orkut. No Rio de Janeiro o contato é pelo cel (21) 9549-3746 e em Santos (13) 9771-8012, com Nildo.
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