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Santos, 30 de Julho de 2010
07/03/2010
Cotidiano
Seres Imprescindíveis
Mariana Benjamim / Fotos: Leandro Amaral
 

























"As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem sua imagem duas vezes maior que o natural." Foi assim que a escritora britânica Virginia Woolf definiu as mulheres no início do século passado. Obviamente, o papel delas mudou com o tempo. Mas a essência, tão perfeitamente retratada na frase, prevaleceu.

É a mãe que acorda uma hora antes de começar sua rotina só para preparar a mochila e o café dos filhos. A irmã que não deixa de ajudar o irmãozinho na hora da lição de casa. A esposa prestativa que coloca a meia de uma semana do marido para lavar (caso contrário, ficaria esquecida no tênis). Ou até mesmo a namorada do colegial que precisa ajudar o garoto a crescer.

Mas trata-se, sobretudo, daquela mulher realizada, que veio ao mundo para multiplicar: seja amor ou sabedoria. Aquela que todo homem precisa ter ao seu lado como norte, independente do papel que ela exerce.

Como sucesso não se explica, mas exemplifica, o leitor conhecerá quatro histórias de mulheres diferentes que, à sua maneira, são imprescindíveis para a sociedade, ou para as pessoas de seu convívio diário. Mulheres que podem ser como você, ou como alguém que você conhece. 

Por que não eu?

“Cedo ou tarde, chega o momento em que a vida se divide em duas partes”. Foi assim que Gilze Maria Costa Francisco viu-se em 1999, ao fazer o auto exame e descobrir um nódulo no seio. Seus anos como enfermeira e uma certeza, que somente Deus pode explicar, foram o suficiente para fazê-la compreender o nascimento da sua nova pessoa. Uma paciente de câncer.

"É quando você tem a certeza de que só existem dois caminhos: o início do fim, ou o começo de uma linda história de superação", explica ela, que, naturalmente, ficou com a segunda opção.

O começo é, em geral, sempre o mesmo. A paciente descobre o nódulo, chora, entra em desespero ao pensar que pode perder a mama, questiona-se "Por que eu?", e acredita que morrerá. Algumas se recuperam rapidamente e tiram forças sabe-se lá de onde para enfrentar a doença. Outras não têm tanta sorte assim.

Gilze foi uma das que chutou a bola para frente e, segundo ela, só quando trocou o "Por que eu?" pelo "Por que não eu?", pode aceitar com mais facilidade.

"Eu passei a entender que não havia nada de especial em mim que me tornasse imune a qualquer doença, inclusive o câncer. Depois, passei a entender que, se estava passando por isso, tinha um motivo: eu deveria ajudar quem estava na mesma situação".

Pensamento altruísta que resultou inicialmente em um site de apoio e informação para mulheres com câncer de mama, o www.cancerdemama.com.br. Aos poucos, Gilze foi percebendo que faltava um local em que as mulheres pudessem se encontrar e trocar experiências. Assim foi criado o Instituto Neo Mama, que hoje organiza campanhas de prevenção, oferece acompanhamento psicológico e sexual para as mulheres, banco de perucas e até próteses para quem não tem condições de comprá-la.

Mas, para a enfermeira que hoje concilia família, trabalho e as tarefas do instituto, o carinho, o aconchego, a percepção do momento mais indicado para falar e consolar são as partes mais importantes do trabalho realizado no Neo Mama. Um trabalho que requer a sensibilidade que, para ela, um homem, talvez, não aprenda nunca a ter.
 
Instituto Neo Mama:
Rua Mato Grosso, 450 - Tel. 3223-5588. www.neomama.com.br

As formas da sensibilidade

Aprimorar a paciência e a atenção está presente no dia a dia das mulheres, por uma infinidade de motivos diferentes. Mas a dentista e artista plástica Gisele Prata Real consegue aprender tais características de forma extremamente prazerosa, tanto para ela quanto para os que podem conferir o seu trabalho.   
Isso porque, além de atuar como dentista, Simone faz esculturas de todos os tamanhos e formas em areia, bronze e argila, entre outros materiais, e consolidou carreira internacional.

Tudo começou quando ela tinha 9 anos e, pela primeira vez, viu uma escultura em areia. Sua paixão nasceu, e o próximo passo foi matricular-se em um curso.

Destino ou não, Simone acabou deixando de lado sua paixão para dedicar-se à odontologia anos mais tarde, mas há 11 anos trouxe a arte de volta para sua vida. Graças ao seu talento, sua carreira não demorou a decolar. Grande parte de suas obras foram feitas fora do Brasil, como, por exemplo, os personagens do filme "Senhor dos Anéis" em um shopping da Alemanha.

Sua primeira viagem ao exterior foi para Portugal, em 2004, graças ao convite de um empresário que descobriu, através do site de Gisele, o seu trabalho. "As pessoas ficaram encantadas quando me viram dar forma aquele bloco de areia", conta.

É uma atividade cuidadosa, que pode demorar de três a até 10 dias, no qual Gisele tenta passar o máximo de expressividade possível para suas obras. Segundo ela, várias vezes as pessoas choraram e se emocionaram. A comoção acontece graças à sensibilidade que ela possui na hora de esculpir, à sua preferência por retratar seres humanos e à preocupação em dar vida à obra através de traços e expressões bem trabalhadas.

"Certa vez, esculpi uma mulher em trabalho de parto. Várias mulheres me procuraram ao final, com lágrimas nos olhos, para dizer que não podiam ter filhos, mas que minha obra haviam tocado seu coração", diz ela.
A tendência do seu trabalho é retratar a mulher, a força feminina e é exatamente este sentimento, além do talento dela, que cativa o público. "É a mulher valorizada, intelectual. Aquela que vence barreiras e coloca sentimento em tudo o que faz", enfatiza.

O trabalho da escultora está em www.esculturasemareia.com.br




Curvas e cérebro

Aos 15 anos, Simone Tavares, percebeu que havia nascido para ser modelo. E, quando venceu o concurso Garota AT, as coisas engrenaram para valer. 

Para ela, trabalhar com moda, além de ser tudo o que mais deseja desde adolescente, também é uma das profissões mais vantajosas para a mulher. A única em que muitas portas abrirão com mais facilidade para o sexo feminino. "É o único trabalho em que nós somos muito mais reconhecidas que o homem, onde é muito mais comum ver a mulher se destacando, ganhando mais", afirma.

Quando nova, morar em Santos nunca ajudou na hora de conseguir trabalhos, já que as grandes agências e os melhores trabalhos ficam em São Paulo. Mas, conforme crescia, podia ir com mais facilidade para São Paulo e o tempo a ajudou, acabou se tornando mais conhecida.

Entre seus grandes trabalhos estão campanhas publicitárias para várias cervejarias, como Brahma, Skol e Bavária. Simone explica que, por ter mais curvas que altura, é considerada modelo comercial, e por consequência, tem o biótipo ideal para tais campanhas.

E foi trabalhando como modelo que Simone acabou se tornou uma empresária da moda. Tudo começou em uma de suas viagens a trabalho para a Europa, onde percebeu que os biquínis por lá eram grandes demais. Na viagem seguinte, para Barcelona, resolveu levar, daqui do Brasil, cerca de 100 biquínis para vender em Euro (olha o lucro!). Vendeu surpreendentemente rápido e no ano seguinte levou o dobro de biquínis para vender.

"Quando eu percebi que trazer roupas para o Brasil também podia dar certo se compradas nos países de cotação mais baixas, fiz uma pesquisa e logo voei para Bangcok. Formando, assim, a primeira coleção de roupas da Rodamum", explica ela.

Assim começou a "Rodamum", evento itinerante de moda, organizado por Simone há mais de um ano e que está indo para a sua quarta edição. "A cada edição é preciso fazer uma pesquisa a respeito do que trazer. Mais do mesmo não ajuda, tenho que inovar", diz.



Dupla jornada

A mãe de família que procura estabilidade para poder criar os filhos é uma das histórias mais comuns hoje em dia. E é também a história da guarda portuária Cintia Maria Machado, que trabalhava até 2004 como secretária, prestou o primeiro concurso aberto para mulher da corporação e passou.

Atualmente, ela e mais 33 companheiras possuem a liberdade de fazer as mesmas tarefas que os homens, mas, no início, as coisas foram um pouco difíceis.

Cintia conta que tanto os homens da guarda, como as próprias mulheres, tinham certo receio, pois era novidade para todo mundo. Era muito raro ver uma mulher dirigindo viatura, ou lanchas. Lidar com os outros trabalhadores do porto, como os estivadores, também era um desafio, que pouco a pouco foi superado por elas.

Andar armada, fazer ronda e lidar com todo o tipo de gente tornou-se rotina na vida desta mulher, que dobra turnos e chega a trabalhar 12 horas seguidas. "É uma vida cansativa, e algumas vezes você pensa em desistir, mas não desisto porque amo o que faço", diz.

Mãe de quatro filhos, os dois mais novos (gêmeos) com 13 anos, e separada do marido, quando chega em casa ainda tem de se preocupar com arrumar, limpar, fazer comida e educar os filhos. Assim, arrumar um horário para dormir acaba se tornando luxo.

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