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Colunistas/Digital Jazz | 09/05/2014

"Bottle's bar" - Beco das Garrafas

Cássio Laranja é produtor musical e coordenador da rádio online Digital Jazz/Jornal da Orla

O local foi reaberto no Reveillon deste ano e, de forma surpreendente, conta com uma programação diária de Bossa Nova

No dia 7 de março de 2014, vivi uma das maiores emoções da minha vida. Pude conhecer, pessoalmente, o mítico "Bottle's Bar", no Beco das Garrafas, localizado na esquina da Rua Duvivier, no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro. E que viveu seu auge entre os anos de 1958 a 1965.
 
O local foi reaberto no Reveillon deste ano e, de forma surpreendente, conta com uma programação diária de Bossa Nova, graças ao empenho e dedicação pessoal da incansável e dinâmica cantora e uma das proprietárias da casa, Amanda Bravo de Moraes Ferreira, filha do músico e produtor Durval Ferreira, um dos melodistas e compositores mais importantes da Bossa Nova, autor dos clássicos "Batida Diferente", "Estamos Aí", "Tristeza de Nós Dois", "Chuva", "Moça Flor", entre outros temas marcantes.
 
Tenho que confessar que, por várias vezes, esbarrei propositalmente meu braço nas paredes da casa, talvez para poder sentir um pouco do que estava impregnado naquelas paredes, afinal, elas registraram e absorveram alguns dos melhores momentos da nossa música. 
 
A história da Bossa Nova passa por este local bastante intimista e lá se apresentaram simplesmente todos os grandes nomes do gênero. Aquele palco funcionava como templo de batismo para todos os artistas. E olha que foram muitos nomes importantes que ali tocaram ou cantaram no início de suas carreiras.
 
Alguns destes nomes: Tom Jobim, Sergio Mendes, Luiz Eça, Luiz Carlos Vinhas, Paulo Moura, Durval Ferreira, Maurício Einhorn, Johnny Alf, Sylvinha Telles, Leny Andrade, Nara Leão, Elis Regina, Silvio Cesar, Pery Ribeiro, Wilson Simonal, entre tantos outros.
 
Coincidência ou não, naquela noite eu estava no lugar certo, na hora certa. Afinal, depois de 50 anos, ali voltaria a se apresentar um dos grandes nomes da Bossa Nova, o músico Bebeto Castilho, integrante do incrível grupo Tamba Trio, desta vez ao lado do Paulo Midosi Trio.  Quando falei com Bebeto Castilho, antes do show, um aperto de mão, um abraço afetuoso e lágrimas de emoção.
 
Cresci ouvindo em casa o Tamba Trio e a sonoridade do grupo marcou a minha formação musical e os arranjos, sempre de vanguarda e ousados, caracterizaram a trajetória de sucesso do grupo.
 
Foi uma noite memorável e inesquecível, compartilhada ao lado do meu querido amigo e músico carioca, Marlon Esteves e também dos queridos Marcello Silva, Fred Falcão e da simpática e alegre Nildé Ferreira, viúva de Durval Ferreira.
 
Na abertura do show, conferi, surpreso, a voz suave da querida cantora Amanda Bravo,  um dos grandes nomes da nova geração de intérpretes da Bossa Nova. Talento e simpatia não lhe faltam. Viva o Bottle's Bar !!! Viva a Bossa Nova !!!
 
Fred Falcão - "Voando na Canção"

 
Nas andanças por esta vida, nos deparamos com agradáveis e inesquecíveis surpresas. Uma destas vivi na cidade do Rio de Janeiro, recentemente.
 
Em minha primeira e marcante visita ao Bottle's Bar, no Beco das Garrafas, conheci o compositor Marcello Silva, parceiro e amigo do cantor e compositor pernambucano, radicado no Rio, Fred Falcão, que lança o CD "Voando na Canção", pelo selo Sala de Som, com 15 faixas, cada uma delas, homenageando suas influências musicais.
 
Surpresas à parte,  tenho que confessar que fiquei feliz e emocionado com o que ouvi, uma seleção de releituras e inéditas de suas criações, trabalho consistente e qualificado que demorou mais de uma década para ficar pronto.
 
Fred Falcão não é novato. É um jovem e ativo senhor de mais de 70 anos e que, na vida, sempre teve a música como referência, embora advogado de profissão.
 
Teve a honra de ter suas músicas interpretadas neste trabalho por Leny Andrade, Gilson Peranzzetta, Os Cariocas, Zé Luiz Mazziotti, Boca Livre, Cesar Camargo Mariano, Maurício Einhorn, Guinga, Kay Lira, Claudya, Sanny Alves, Clarisse Grova, além dos saudosos Pery Ribeiro e João Nogueira.
 
Destaque para os temas em parceria com Marcello Silva, "Samba Iluminado", "Quem Dera", "Memória de Nós" e "Jogo do Amor", também a única instrumental do CD, a balada "Ainda Te Amando", feita em parceria com Mauricio Einhorn e Alberto Chimelli e as autorais "Regressiva" e "A Cidade da Seresta". 
 
Versátil e muito inspirado, ao lado do seu violão, Fred Falcão voou bem alto na Bossa, no Choro, no Samba, na MPB e aterrissou suavemente em nossos corações. Um CD muito agradável e marcante para se ouvir.
 
Camilla Inês - "Jazzmine"

 
Outra agradável surpresa musical, vivenciada recentemente, foi descobrir o trabalho da cantora pernambucana radicada em Brasília, Camilla Inês, apresentado em 7 faixas exuberantes, sendo 5 com nítidas influências do Jazz e 2 da Bossa Nova. 
 
O CD lançado de forma corajosa e independente, no ano de 2011, foi dedicado a suas Divas, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Etta Jam, Etta Jones, Leny Andrade, Dolores Duran, Maysa, Nana Caymmi, Joyce Moreno e Mônica Salmaso, grandes e importantes referências musicais na sua carreira.
 
O CD apresenta uma sonoridade que sai do lugar comum, oferecendo uma mescla do tradicional com o moderno, sem no entanto perder a essência. Até os sensíveis chiados do discos de vinil fazem parte do contexto. E a linguagem visual do CD também impressiona, com belas fotos da artista e nítidas influências dos anos 40 e 50.
 
A produção do CD ficou por conta da própria Camilla Inês e dos músicos Ed Staudinger (teclados) e Misael Barros (bateria e percussão). Além deles, também participaram das gravações, Wallace Seixas (guitarra), Rafael Silva (sax tenor), Fabinho Costa (trompete), Ricardinho Paraíso (contrabaixo), entre outros convidados. 
 
As sete faixas são especiais. Destaque para a sequência jazzística: "Speak Low", "Tenderly", "In A Sentimenatl Mood", "My Funny Valentine" e "Cry Me A River". E também "Eu E A Brisa" e "Indecisão", numa levada de Bossa Nova.
 
Indicado para o Prêmio da Música Popular Brasileira no ano de 2012, o trabalho tem agradado a crítica especializada e o público em geral.
 
Mais uma grande prova de que nem tudo está perdido. A música de qualidade, agradece.

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