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Colunistas/Clara Monforte | 16/05/2015

Olhos nos Olhos com Maria Magalhães

Clara Monforte é advogada e colunista social, autora dos livros "Claríssima" e "Almanaque social"

Ricardo Bassetti

"A arquitetura interfere diretamente no bem-estar, na vivência, no conforto e até no humor das pessoas", disse

Formada pela Universidade Mackenzie de São Paulo, com mestrado em Desenho de Interiores, em Barcelona, Maria Magalhães acredita que simplicidade e conforto são pontos importantes para a inspiração em projetos arquitetônicos, assim como o aproveitamento da luz natural, integração de espaços e o uso de materiais como madeira, pedra e fibras naturais. Colaborou como arquiteta, gerenciando empreendimentos comerciais para clientes nacionais e internacionais. Ano passado, iniciou o "mmagalhães Estúdio" - www.mmagalhaesestudio.com - cujo objetivo é desenvolver, de forma autoral, projetos personalizados de arquitetura, interiores, desenho de mobiliário e decoração. Por lá, desenvolve soluções personalizadas e funcionais, acreditando que os pequenos detalhes de um projeto fazem a diferença no conjunto.
 
Como a arquitetura contribui para o bem-estar das pessoas?
A arquitetura interfere diretamente no bem-estar, na vivência, no conforto e até no humor das pessoas. E diria até mais do que isso: nossas lembranças e memórias estão relacionadas intimamente a uma imagem do espaço onde ela aconteceu, o que reflete mais uma das grandes responsabilidades do arquiteto.
 
Como o arquiteto traduz num projeto o desejo do cliente?
O projeto de arquitetura marca diretamente a forma com que o cliente vai morar, trabalhar ou conviver. O profissional precisa entender a dinâmica do cliente e suas necessidades, focando na praticidade, no conforto e na funcionalidade.  O morador precisa se reconhecer em sua casa, que deve contar sua história, acolher seus objetos relacionados às suas memórias, às suas viagens. Para o cliente comercial muitas vezes a identidade da marca nasce a partir da arquitetura, então o projeto precisa estar bem afinado com o conceito da marca.
 
Fale de sua experiência em Barcelona.
Morei dois anos por lá, cursando mestrado e trabalhando em um importante escritório de interiores. Diferente da maioria das cidades brasileiras, Barcelona teve sua expansão planejada e seu crescimento controlado. Hoje são poucas as áreas e bairros, onde ainda existem terrenos disponíveis para construção. Neste contexto, o campo de trabalho de projetos de interiores, restauro e retrofit, que consiste na readequação de edifícios antigos às necessidades do seu tempo, ganha mais força e importância. Acredito que as cidades brasileiras podem se transformar ao voltar um pouco mais seus olhos para estas três áreas.
 
De que maneira?
Os bairros podem se reinventar ao reocuparem os interiores de áreas abandonadas e desvalorizadas, que muitas vezes estão esquecidos em meio a bairros centrais já com infraestrutura urbana pronta e subaproveitada.  Tenho interesse especial no Centro Histórico de Santos, inclusive desenvolvi um projeto de revitalização dos armazéns portuários para o meu trabalho final de graduação, há dez anos. Acho uma pena o centro tão lindo dessa cidade ainda não estar aproveitado e valorizado como merecia.
 
É correta a máxima de que "quem casa quer casa"?
Sim, com certeza! Como diz o filósofo francês  Gaston Bachelard em seu livro "A Poética do Espaço": "Se nos perguntassem qual o  benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz". Acho que essa frase reflete o que todos buscamos, não é mesmo?
 
Que conselhos você daria para quem está procurando um imóvel?
Em termos práticos, meu conselho seria: analise a insolação do local. Acredito que a luz natural é um dos principais fatores para garantir o bem estar em um espaço. Podemos viver bem, independente do tamanho da moradia. Se for bem aproveitada e planejada, as dimensões não são tão importantes. Um projeto de arquitetura pode transformar completamente um imóvel deteriorado e mal aproveitado, mas se o espaço for muito escuro e não tiver entrada de luz natural, isso realmente é uma situação que o arquiteto dificilmente consegue reverter.
 
Com a "mmagalhães" você desenvolve de forma autoral projetos personalizados. Como é esse trabalho?
Meu escritório está baseado em  Belo Horizonte, de onde desenvolvo no momento projetos de arquitetura, interiores e decoração para diferentes partes do Brasil e do mundo, como São Paulo, Ouro Preto, Rio de Janeiro, Santos e até Genebra. Acredito que uma primeira visita para conhecer pessoalmente o cliente, o terreno ou o espaço que será reformado seja fundamental para garantir um atendimento e desenvolvimento de projeto personalizado.
 
Você utiliza a internet para atender clientes?
Somando essa visita a um levantamento preciso da área feito por profissionais, o projeto pode ser facilmente desenvolvido de maneira remota, com muita troca de e-mails, ligações e reuniões via Facetime, Skype etc. Conforme a necessidade do cliente, trabalhamos também com o acompanhamento de obra. Tenho percebido uma crescente de ofertas de projetos de decoração on-line, o que acredito que possa funcionar, porém de um levantamento desenvolvido por profissionais, pelo menos uma visita ao local e conhecer pessoalmente o cliente... disso eu não abro mão.
 
E como encontrar a solução personalizada perfeita?
Não gosto de fórmulas prontas. Preciso entender junto ao cliente seus sonhos, suas expectativas, sua dinâmica. A afinidade na forma de pensar é fundamental entre arquiteto e cliente, por isso acho tão importante conhecê-lo pessoalmente. Sou muito detalhista e me preocupo com a boa execução da obra, com os acabamentos, encaixes. Acredito que são os detalhes que fazem a diferença na percepção geral do conjunto.

E em relação a projetos comerciais?
Nesse contexto, a arquitetura faz parte da identidade, da criação da marca. Por exemplo, em um restaurante, a arquitetura faz parte da experiência que o cliente terá no local. Se as cadeiras são confortáveis, se a luz é agradável, essas sensações também ficam na memória, não apenas o atendimento e a comida. Além disso, o projeto de arquitetura interfere diretamente na forma de operação do estabelecimento, podendo garantir uma boa dinâmica de serviço.
 
Simplicidade e conforto são palavras de ordem?
Valorizo muito a simplicidade em meus projetos no sentido de serem despretensiosos, descomplicados, funcionais e confortáveis sim, sempre! Temos a preocupação do desenvolvimento de um projeto a partir de uma metodologia precisa, desde o seu conceito até os pequenos detalhes buscando soluções flexíveis e funcionais.
 
O aproveitamento de luz natural e materiais da natureza são, hoje, uma contribuição ao meio ambiente?
Somos privilegiados em podermos usar materiais naturais em projetos de arquitetura e interiores. A madeira, as pedras e fibras naturais ajudam na composição dos ambientes com charme e harmonia, geram texturas, aquecem os ambientes além de, em geral, serem resistentes.

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