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Colunistas/Cinema | 21/09/2019

Resenha da semana: Midsommar: O Mal não Espera a Noite

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Lembro quando Hereditário foi lançado nos cinemas, em 2018, e o quanto fiquei impressionado com a proposta de um novo terror do diretor americano Ari Aster. Misturando com eficiência, drama e horror, o cineasta apresentou um dos melhores e mais assustadores longas daquele ano, o que me deixou com uma grande expectativa para seu novo trabalho. Midsommar trata de diversos temas, mas sobretudo, sobre os efeitos de viver em sociedade e a falta de empatia. O público que espera deste longa um espetáculo de carnificina, jump scares e recursos baratos do gênero, podem se decepcionar. Mas, para aqueles que querem ser transportados para um terror psicológico, que aos poucos vai destruindo sua mente, este é o filme.

 

No longa, após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã. O diretor Ari Aster trabalha com um cinema de personalidade, provocador, que gerará debates e diversas interpretações do público, que gostando ou não, é o tipo de filme que não deixará ninguém indiferente. Partindo de um início semelhante ao já visto em Hereditário, com uma trama que vai se desenvolvendo sem pressa e repleta de dramas e lutos pessoais (que faz com que criemos uma grande empatia com a protagonista), o diretor cria uma atmosfera de tensão crescente, que ao longo de seus 140 minutos, te deixará sem ar e com o estômago embrulhado. Ari Aster está dedicado em criar um proposital desconforto no espectador, com um nível de suspense altíssimo do início ao fim, criando cenas impactantes, como o ritual de despedida dos anciões ou deixando sem legenda os diálogos em sueco dos nativos, afim de criar uma sensação de isolamento para o público. O roteiro, escrito pelo diretor, tem um primeiro ato dedicado a nos apresentar seus personagens principais, suas personalidades e como suas distintas perspectivas vão lidar com o que vem pela frente, porém também gasta um bom tempo na contemplação dos costumes daquela vila, o que chega a ser um tanto quanto entediante, ao passo que uma grande parte da narrativa acaba sendo desperdiçada apenas ao exibir os efeitos de bebidas alucinógenas nas belíssimas paisagens da locação (o que remete aos quadros impressionista do pintor Vincent Van Gogh).  

 

Aliás, o trabalho técnico deste longa merece aplausos, pois é difícil criar uma atmosfera de tensão com a luz do dia, mas a forma íntima que o que o início do longa nos apresenta, propõe um mergulho do espectador, onde absorvemos completamente o clima de tensão e desespero dentro daquele culto pagão. 

 

Se em seu último filme, Ari Aster conseguiu tornar a atuação de Toni Collette inesquecível, agora ele também consegue fazer a atriz Florence Pugh brilhar, que cria uma figura traumatizada e frágil, com uma interpretação crua e bastante expressiva, seja em momentos dramáticos ou quando presencia diversos momentos de pura brutalidade.

 

Midsommar - O Mal Não Espera a Noite demanda um estômago forte do público por ser um filme cuja violência (que é bastante gráfica e explícita), vai além de apenas física, e muito mais na parte psicológica. É um filme perturbador, incômodo e que gerará diversas interpretações, por não seguir as convenções tradicionais de seu gênero. Enfim, é mais um trabalho genial deste que é um dos melhores diretores da atualidade.

 

Curiosidades: Segundo a lenda, o Midsommar é um ritual pagão para celebrar a fertilidade da natureza no dia mais poderoso do ano, quando os elementos mágicos são mais fortes. 

 

Foto: Reprodução
 


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