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Um motivo para ter fé

16/11/2019
Um motivo para ter fé | Jornal da Orla

Fé. Por vezes a única razão de muitas pessoas não desistirem de suas vidas. Em outras ocasiões, é a mola propulsora que dá força e coragem. Pode-se definir também como a forma de estar próximo do Deus que cada um preferir… São inúmeras – e pessoais – as razões pelas quais se escolhe a fé. Mas às vezes ela é quem escolhe a pessoa também. Foi o que aconteceu com a presidente do Lar Espírita Mensageiros da Luz, Edna Daguer. Aos 29 anos de idade, em uma fase de descrença e busca pela espiritualidade, encontrou na casa a base que faltava para sua vida.

 

“Eu não estava me encontrando na vida. Um dia fui a um jantar onde o então diretor do Lar estava. Me abri e ele me convidou para vir aqui. Eu me lembro que disse ‘estou procurando Deus, se eu me encontrar com ele lá, eu fico, caso contrário, quero ter a liberdade de ir embora”. Desta forma, permanece na casa há 44 anos, e hoje é diretora-presidente da instituição que existe há 50 anos  com o intuito de abrigar pessoas com paralisia cerebral e outras deficiências associadas de ambos os sexos e diferentes faixas-etárias. 

 

A ideia de criar uma casa que abrigasse este grupo surgiu em 1969 com o grupo Kardecista pertencente ao Centro Espírita Henrique Seara, especificamente o casal Paulo e Leonor Marques, deram início às obras  do atual prédio azul e branco localizado na Rua Cunha Moreira, número 47. O local que começou com um pequeno terreno, está composto por três andares que separam secretaria, salão de palestras, quatro salões-dormitórios, cozinha, despensa, lavanderia industrial e seis banheiros. 

 

A casa cresceu, e não só estruturalmente. Segundo Edna, a mudança social de ver a importância da inclusão foi um pilar primordial para a evolução no Mensageiros “Antigamente as crianças não saiam às ruas para passear ou praticar tarefas externas. Hoje, além disso estar na rotina deles, às pessoas vêm visitar o lar, se voluntariam para contar histórias para essas crianças, dão comida e participam efetivamente”. A atual presidente que começou também como voluntária, acompanhou passo a passo as mudanças no lar.

 

A instituição sem fins lucrativos faz atendimento especializado 24 horas por dia. Além dos voluntários, há 70 funcionários que mantém o local junto à Edna. “Eu tenho um restaurante e por isso me divido entre lá e aqui. Mas tudo é bem feito com os meus companheiros, afinal, a gente não faz nada sozinho”, ressalta. Além da casa, há 28 anos ela gerencia o Mainah, localizado no Centro de Santos.

 

Por dedicar tanto de sua vida ao trabalho, a presidente se recorda das muitas vezes teve que abrir mão de estar mais presente com a família de sangue Astrid e Fred, para dar atenção aos seus “filhos de coração”. Carinhosamente é chamada de mãe pelas 30 pessoas que atende, mas acredita que divide bem a função. “Eu tenho que agradecer porque durante muito tempo eu deixei os meus filhos para cuidar e tratar dessas crianças que não tinham esse lado maternal”.

 

Praticamente uma vida inteira de Edna foi dentro do Lar. “É inevitável que cada vez mais nos envolvemos. O Pedrinho (foto), por exemplo, está quase sendo adotado e isso causa um sofrimento grande porque precisamos nos desapegar, é um filho que nós temos mas é necessário abdicar disso por uma melhor condição para eles. Por mais que aqui tenha muito amor, é diferente ir para uma casa que ele fica mais envolvido”.

 

A adoção é algo raro, mas que também acontece no Lar Espírita Mensageiros da Luz. “Para adotar uma criança nossa não é simples pois requer que tenha-se em casa todo o aparato que temos aqui, e claro, isso não é fácil. Mas pode-se visitar as nossas crianças para conhecê-las”. 

 

Aos domingos a casa é aberta ao público das 15h às 17h. “É importante vir aqui e vê-las. Percebemos que às vezes a gente se nega a dar um sorriso para quem está do lado, enquanto essa criança que está em uma cama e tem diversas deformidades, não hesita em dar um sorriso. É como quem diz ‘anime-se’ e ‘siga em frente’!’”. 

 

Fraternidade, caridade e humanidade são os pilares da casa em que Edna Daguer está à frente há 12 anos. Apesar da longa trajetória de dedicação, para ela, não há tempo que diminua a gratidão que é cuidar de quem muitas vezes é esquecido. “Vejo pessoas dizendo que quando se aposentar virão aqui ajudar as crianças. Eu não precisei esperar esse momento para fazer alguma coisa. Pelo contrário, estar dentro desta casa me deu uma sustentação muito grande para eu seguir a vida”. 

 

O que começou na juventude precisou de pouco tempo para se firmar para o resto da sua vida. “Não me especializei em nada para trabalhar aqui, só na caridade e no amor. Isso basta”, finaliza a presidente Edna Daguer.

 

 

Fotos Gabriel Soares