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Colunistas/Cinema | 25/01/2020

Resenha da semana: 1917

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Um filme para ficar marcado na história 

O cinema é uma arte que sempre me fascinou desde criança e que me encanta até hoje. Lembro de filmes que marcaram minha adolescência, como Clube da Luta, ou a primeira vez que assisti à clássicos como O Poderoso Chefão, Laranja Mecânica ou Pulp Fiction, por exemplo. Não me lembro exatamente qual foi o momento em que comecei a me interessar por cinema, mas são projetos como este que fazem todo o sentido para eu ter me dedicado todo estes anos a acompanhar a sétima arte. 1917 é uma urgente e vertiginosa aula de cinema em seu estado mais puro. O filme não tem grandes pretensões intelectuais, mas mescla, com maestria, entretenimento e conteúdo ao mesmo tempo comprovando que Hollywood ainda pode entregar materiais originais se tiverem confiança em seus realizadores. No caso aqui, o diretor Sam Mendes, que está no auge de sua arte.

 

A trama é simples e objetiva: os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Quando eles são encarregados de uma missão aparentemente impossível, os dois precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar mais de 1600 colegas de batalhão de uma emboscada do exército alemão. Trazendo urgência e tensão desde o primeiro segundo de projeção, o diretor Sam Mendes tem uma impressionante conquista técnica neste longa, com uma completa imersão e definitivamente nos jogando junto com aqueles dois soldados nas trincheiras, lamas, ratos, corpos e todos os horrores da guerra. Tudo é extremamente bem calculado pelo diretor em uma filmagem que não possui cortes aparentes, ou seja, ele é filmado em um longo plano sequência que acompanha os soldados de um ponto A ao ponto B, como se fosse em tempo real. Isso faz com que o público tenha uma experiência, como eu tive, bastante agonizante em relação ao destino dos protagonistas. Sam Mendes constrói tantas cenas marcantes, mas posso destacar a cena da queda do avião em direção aos protagonistas e a corrida de um deles por um extenso campo de batalha. Mais uma vez, tudo sem cortes. 

 

O roteiro, escrito também pelo diretor em homenagem ao seu avô, que lutou na Primeira Guerra, consegue de maneira bastante natural, contemplar a existência humana em meio ao ambiente hostil e cruel da guerra. Os momentos de calmaria,  de simples diálogos entre os dois soldados e até as metáforas (como a cena das flores de cerejeira), dão o contraponto à dura realidade das atrocidades no front de batalha. 

 

Vou dedicar este parágrafo para falar sobre as qualidades técnicas do longa: tudo funciona com extrema perfeição como há tempos não se via no cinema (se já foi visto). Começando pela magistral fotografia do genial Roger Deakins (provavelmente leve seu segundo Oscar este ano). Você provavelmente se pegará perguntando diversas vezes: Como diabos ele fez isso? Operando a câmera como se ela fosse um terceiro personagem dentro do filme, Deakins realiza um de seus melhores trabalhos em uma linda composição de luzes e variados cenários. O design de produção aliado a direção de arte é excepcional com a construção dos cenários repletos de impressionantes terrenos esburacados por bombas, corpos apodrecidos, arames farpados e armadilhas escondidas, que trazem uma verossimilhança incrível ao filme. A trilha sonora fecha esse primor com a grandiosidade que um épico de guerra merece. Prepare-se para ficar maravilhado e sentir fortes emoções com essa obra.

 

Apesar disso tudo, não há nenhuma atuação relevante além da entrega dos jovens atores George MacKay e Dean-Charles Chapman, pois 1917 se resume muito mais à missão em si do que a entrega de estupendas atuações. Mas Mackay, que possui mais tempo de tela, entrega uma performance madura e emocionante.

 

1917 é um estupendo e primoroso épico de guerra sobre coragem e amizade. Um filme para ficar marcado na história e que deve ser assistido no cinema pelo marcante e revolucionário trabalho do diretor Sam Mendes. Simplesmente imperdível para qualquer cinéfilo que se preze. 

 

Curiosidades: 1917 levou o prêmio de melhor Diretor, para Sam Mendes, e de Melhor Filme Drama no Globo de Ouro 2020.

 

 

Confira aqui a programação dos cinemas de Santos e região.

 

Foto: Divulgação/Universal Pictures


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