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Cotidiano/Comportamento | 07/03/2020

Feminismo na balança

MARCO SANTANA - DA REDAÇÃO

Vivemos tempos tão confusos e paradoxais que é comum encontrar mulheres contrárias ao... feminismo!

 

A situação é resultado direto do cenário atual, caracterizado pelo excesso de informações, muitas delas desencontradas, falsas e equivocadas ao se atribuir nomenclaturas para se designar situações, comportamentos e pessoas.

 

O motivo da discórdia é a definição de feminismo. O preconceito, a pressa, a preguiça, a raiva ou a maldade (pura e simplesmente) fazem com que muita gente dissemine um conceito que não corresponde ao real significado do termo.

 

Definição
Qualquer dicionário, seja de língua portuguesa ou sociologia, trará uma definição de feminismo que não deixa dúvidas: “movimento que luta pela igualdade de condições entre homens e mulheres, no sentido de que ambos tenham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades”.

 

Nada diz sobre aborto, depilação, maquiagem, tamanho ou cor da roupa, lesbianismo, ódio aos homens ou à maternidade...

 

Assim, as principais críticas ao feminismo (feitas até mesma por mulheres) são ao que, definitivamente, ele não é. Na verdade, o debate reside na conquista (e garantia) de direitos civis e, talvez o mais importante, no reposicionamento da mulher nos contextos familiar e profissional.

 

Até existem mulheres que ficam sem depilar as axilas e se recusam a usar absorventes, como uma espécie de protesto. Mas generalizar, difundindo que todas as feministas são assim, é o mesmo que dizer que todo padre católico é pedófilo e todo muçulmano é terrorista, por exemplo. Evidentemente que há radicalismo em todo tipo de militância, da política à torcida futebolística, mas crer que todos são extremistas é um tremendo erro.

 

Os críticos ao movimento feminista, por ignorância ou má fé, buscam disseminar que estas manifestações são a regra, e não as exceções. E esta estratégia vem dando resultado, conforme revela uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha no ano passado.

 

Filosofia e prática
A pesquisa revelou que 56% das mulheres rejeitam se associar ao feminismo e 41% acreditam que ele traz mais prejuízos que benefícios.

 

Mas, ao serem ouvidas sobre questões mais práticas e menos filosóficas, as mulheres demonstram entender do que se trata: 86% discordam da ideia de que mulheres “devem se dedicar só à casa e aos filhos”, e 64% concordam que ganham salário menor simplesmente por serem mulheres.

 

Debate importante
Temas polêmicos como aborto realmente estão na pauta das ativistas mas os principais assuntos são a participação das mulheres. Apesar de serem 51,6% da população brasileira, as mulheres ocupam apenas 15% das cadeiras no Congresso Nacional e 26% dos cargos de alto comando nas empresas. A diferença salarial entre homens e mulheres exercendo a mesma função chega a 62%. Num ranking de igualdade de gênero elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, o Brasil ocupa o 85º lugar, entre 145 países.

 

Mentiras sobre o feminismo
De tão antigas e repetidas ao longo das décadas, algumas mentiram acabam sendo aceitas e incorporadas ao senso comum:

 

“Mulher quer direitos iguais, então vai carregar um saco de cimento ou objetos pesados”
Realizar trabalhos que exigem mais força física e menos habilidade intelectual independe do gênero.

 

“Não quer sofrer abuso, não usa vestido curto ou decote”
Homens não sofrem questionamento sobre sua vestimenta. A crítica às mulheres é resultado da sociedade machista e da tolerância à chamada “cultura do estupro”, que busca atribuir à vítima a responsabilidade pela violência sexual sofrida.

 

“Mulher é emotiva demais para ocupar cargos de liderança e tomar decisões racionais”
Não há nenhum estudo científico que comprove isso. Ao contrário, o comportamento do ser humano (homem ou mulher) está mais relacionado ao seu ambiente de criação.

 

"Mulher que já teve vários parceiros é promíscua; homem é garanhão, pegador”
Resultado da cultura patriarcal, na qual era comum a família “soltar seu bode mas prender sua cabrita”.

 

“Mulher é o sexo frágil”
Lutadoras, halterofilistas, policiais e outras profissionais de atividades que exigem vigor tanto físico quanto de atitudes comprovam o contrário. 

 

“Homem pode ir para o happy-hour, pois merece após um dia de trabalho desgastante; mulher deve ir para casa cuidar dos filhos pois ela que tem ‘instinto materno’
Mais uma herança do pensamento patriarcal, em que a mulher deveria se dedicar apenas à criação dos filhos, tarefas domésticas e atividades inofensivas como bordar e costurar.

 

“Feministas não usam maquiagem, não se depilam, não usam sutiã e rejeitam qualquer manifestação de feminilidade”
Tática dos opositores para desacreditar o feminismo, buscando disseminar que episódios ou indivíduos isolados são a regra.

 

“Feministas são mal amadas ou lésbicas”
Preconceito

 

“Feministas odeiam mães e crianças”
?

 

“Feminismo é o contrário de machismo”
Feministas defendem a igualdade entre os gêneros. Machistas acreditam na supremacia dos homens. Há, sim, quem defenda a superioridade das mulheres diante dos homens — é o chamado femismo. Existe ainda um distúrbio de comportamento chamado misandria, que é o ódio, desprezo ou preconceito contra pessoas do sexo masculino.

 

“Feministas são histéricas e radicais”
Pessoas histéricas e radicais estão presentes em todos os ativismos.

 

“Feministas odeiam cavalheirismo”
Mulheres gostam de gentileza, o problema é quando a iniciativa do homem na verdade busca sugerir que a mulher é frágil e incapaz. Não adianta, por exemplo, o homem carregar uma pequena sacola de compras e deixar a mulher fazer a faxina em casa sozinha. Diante de cavalheirismos como o homem abrir a porta do carro ou pagar a conta no restaurante, a mulher acaba se colocando em um dilema: se aceita, pode denotar submissão; se rejeita, pode ser interpretada como arrogante. É possível estabelecer parâmetros para definir se o ato é mera gentileza ou uma manifestação sexista? Talvez sim: O homem faria a gentileza para outro homem? Aceitaria aquele ato de cortesia de uma mulher?

 

“Feministas são, na verdade, feminazis”
Comparar o movimento feminista à ideologia nazista, que pregava sobretudo a supremacia, o ódio e a violência, é uma tentativa de desqualificar a defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres.

 

“Feminicídio é mi-mi-mi”
Há quem alegue que feminicídio (crime previsto no Código Penal) não existe pois “apenas 8%” dos assassinatos no Brasil foram de mulheres. O que estas pessoas não entendem é que o feminicídio é caracterizado quando o homicídio ocorreu justamente pela motivação do crime —na grande maioria das vezes, o autor do crime é o marido, namorado ou ex-companheiro da vítima.


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