Rádio Jornal da Orla/Digital Jazz

Ouça agora

Colunistas/Criar e Construir | 18/04/2020

Um cavalo andando no (seu) apartamento

Carlos Pimentel Mendes é jornalista, especialista em transportes e logística, criador e editor do primeiro caderno regional de Informática, criador do primeiro CD-ROM (quem ainda sabe o que é isso?) brasileiro totalmente em linguagem HTML da Internet, pioneiro na interação regional entre Web e jornal impresso (y otras cositas más)...

Você, que agora passa mais tempo em casa (geralmente um apartamento), por conta do isolamento social ‘proporcionado’ pelo Covid-19, e não mora na cobertura do prédio, já deve ter notado uns barulhos que - para dizer o mínimo - certamente incomodam. E não adianta brigar com o vizinho de cima, não dá para esperar que ele ande o tempo todo de pantufas, não arraste móveis, não deixe cair nada, muito menos que as crianças (e os cãezinhos...) não pulem ou corram dentro do apartamento. Afinal, as pessoas precisam gastar energia, se movimentar, mesmo que não pretendam quebrar o recorde mundial da maratona.


Se o barulho vindo da rua incomoda, e um avião decolando ou descendo perto de sua casa também incomoda muito, o tec-tec do salto do sapato no meio da noite incomoda muito mais. Pois saiba que existe até o Dia Internacional da Conscientização sobre o Ruído, desde 1996 celebrado na última quarta-feira de abril – portanto, no próximo dia 29.


Essa é uma preocupação também dos engenheiros: o som transmitido através das lajes do prédio. Por isso mesmo, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) criou a ABNT NBR 15575 - Norma de Desempenho, que contempla estes e outros assuntos relacionados com a chamada habitabilidade.


Ela inclui três grupos de requisitos: segurança estrutural contra incêndios, sustentabilidade (durabilidade, condições de manutenabilidade e impactos ambientais) e habitabilidade (estanqueidade da água, desempenho térmico/acústico/lumínico, saúde/higiene/qualidade do ar, conforto tátil e antropodinâmico, funcionabilidade/acessibilidade).


Limites - Concentremo-nos desta vez no tema do desempenho acústico. A norma NBR requer ajustes em certos itens construtivos, entre eles as fachadas e coberturas, as paredes e os entrepisos, objetivando um eficiente isolamento acústico. Mas ela não fixa diretamente limites quanto à acústica dentro da unidade habitacional ou quanto ao máximo de intensidade sonora aceitável para o repouso à noite - eles são tratados na NBR 10152. Já a quantificação dos ruídos externos é definida na NBR 10151.


L'nTw - parece algo escrito em idioma klingon, saído diretamente da série Star Trek, mas é uma forma de cálculo internacionalmente padronizada (padrão ISO) para o desempenho acústico relacionado ao ruído de impacto. Nesse indicador, o máximo aceitável pela NBR 15575 é de 80 decibéis. O que condena liminarmente certos imóveis populares feitos com lajes de 8 a 9 centímetros, sem contrapiso flutuante. Para a laje ser aprovada, tem de possuir no mínimo 10 cm, entendendo-se 65 decibéis como desempenho intermediário e o limite de 55 dB no padrão superior.


Soluções - Entre os vários tipos de lajes testados a partir da edição da NBR 15575, a laje pré-moldada convencional teve o pior desempenho, seguida pela laje pré-moldada treliçada e situando-se em posição razoável a laje nervurada, vencendo neste quesito a laje maciça. Com a ressalva de que existem outras variáveis a considerar no projeto, como o tamanho dos vãos e especialmente a espessura da capa de concreto, daí a recomendação de serem feitas sempre simulações para auxiliar no processo decisório. E é bom os projetistas ficarem atentos ao mercado, pois novas soluções estão vindo: a laje nervurada com formas plásticas registrou desempenho melhor do que a nervurada com EPS e mesmo do que a laje maciça, que era a melhor opção anterior.


O contrapiso flutuante é visto como uma forma de atenuar algumas das desvantagens relacionadas ao ruído de impacto (o tec-tec dos sapatos lá em cima): ele, digamos, flutua sobre uma camada de material que absorve os impactos, reduzindo sua transmissão através da laje para o andar de baixo.


Custo - Claro que o seu bolso vai sentir. Lajes mais finas reduziam a altura do prédio em construção, o gasto com o concreto e o peso total da obra (que impacta no projeto das fundações). Porém, a diferença de custo para as construtoras seguirem os novos padrões legais é amplamente compensada no conforto, inclusive para você não ser acusado pelo vizinho de baixo, de ter um cavalo andando pelo seu apartamento (pois você tanto pode ser vítima como réu na história, às vezes ambos simultaneamente).


O lado bom de existirem essas normas não costuma ser lembrado: você contratou a construção de seu apartamento, mas se ela não cumprir as normas, você pode tem respaldo para recusar o recebimento do imóvel ou negociar um bom desconto – pelo menos, que seja proporcional ao tamanho do seu desconforto futuro.


Nota: Para o leitor leigo, creio que já basta essa compreensão. Quem quiser se aprofundar no assunto decerto encontrará bom material de leitura nos hipervínculos incluídos no texto.


Laje nervurada já apresenta resultados acústicos melhores que a maciça; Foi a escolhida na instalação da Agência RGA em New York
Foto: https://www.atex.com.br/

 


No empreendimento paulistano Rochaverá Corporate Towers foi empregado o sistema de laje nervurada unidirecional
Foto: https://www.atex.com.br/

 


O tipo de laje deve ser uma preocupação constante dos projetistas, pois interfere diretamente no resultado da obra
Foto: https://www.atex.com.br/

 

Além do resultado acústico, bom lembrar que existe também o lado estético
Foto: Wikipédia/https://www.atex.com.br/


Leia também

Colunistas | 27/06/2020
Colunistas | 22/06/2020