Rádio Jornal da Orla/Digital Jazz

Ouça agora

Colunistas/Cinema | 23/05/2020

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Alejandro González Iñárritu cria um fascinante e admirável longa onde eleva o sentido da palavra Cinema

A busca pelo ator por ser amado e valorizado (por público e crítica) dentro de sua função, é um quesito essencial, não só para sustentar sua carreira, como também um combustível artístico que ele precisa para desempenhar seu papel. E é exatamente isso o que move Riggan Thomson, protagonista de Birdman, premiado filme de 2014, que mergulha em um profundo estudo de personagem e faz uma feroz crítica ao show business, à indústria de filmes de super heróis que se instalou em Hollywood e aos próprios críticos, que acham que são deuses e acreditam poder definir o sucesso ou fracasso de um projeto. Uma das coisas mais interessantes e que mais me fascina no cinema, é a possibilidade de ter uma experimentação criativa, sem a preocupação de seguir padrões pré definidos de sucesso, e quando há essa quebra de paradigmas com idéias totalmente autorais, você enxerga o que existe de mais puro dentro do cinema. E, é isso o que faz o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, que cria um fascinante e admirável longa onde eleva o sentido da palavra cinema, pelo maravilhoso trabalho desenvolvido atrás das câmeras


No filme, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso no passado interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem, sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente. Planejado pelo diretor e por seu diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (o melhor em atividade) para ser um único plano-sequencia de quase duas horas de duração, Birdman faz com que todos seus acontecimentos ganhem um grande senso de urgência, que reforça o clima de pressão em qual o protagonista se encontra. E essa decisão do diretor já é digna de aplausos por não soar como um recurso técnico gratuito, mas sim por contribuir com um grande peso dramático na narrativa. O filme se passa basicamente todo em um teatro, o que propicia esse tipo de montagem e o trabalho feito com os atores entrando e saindo de cena, dá um ar de peça de teatro à Birdman, o que acaba criando uma espécie de metalinguagem, já que o filme é sobre a montagem de uma peça teatral. 


O roteiro, escrito pelo diretor e por mais 3 pessoas, traça um interessante panorama do que se passa nos bastidores de espetáculos, a briga de egos entre os atores e o quanto é difícil o processo de criação. Tudo isso, sem glamourizar o que ocorre por trás do palco. O design de produção se mostra bastante eficiente para a imersão do espectador, e reparem como o camarim do protagonista é retratado como um lugar depressivo e bagunçado, assim como o que se passa em seu próprio interior, onde o personagem passa o filme todo oscilando entre fúria e tristeza. Outro ponto bem interessante é a trilha sonora toda composta por bateria, que cria ritmos de jazz que colaboram para ressaltar a tensão que o protagonista está passando. Para finalizar, é impossível não destacar o trabalho de fotografia, que é simplesmente um deleite de se observar. Imaginem a dificuldade de conciliar tudo o que está acontecendo em tela, com centenas de elementos agindo em primeiro e segundo plano com os atores tendo que decorar suas falas por mais de 10 minutos em cena sem corte.


E aí, chegamos nas atuações que é o ponto alto do filme. Michael Keaton tem o melhor papel de sua carreira e cria um contraponto interessante com o personagem, já que ele interpretou o Batman no passado.  Movido pelo ego e pela arrogância (veja que ele acredita que voa e move objetos com a mente), o ator cria um personagem com diversas camadas, de diretor inseguro à ator egocêntrico com uma atuação impecável. E o que torna seu trabalho inesquecível, é a química com Edward Norton, que demonstra um talento invejável em sua primeira cena, onde assume o primeiro ensaio com Keaton. Esnobe e ainda mais egocêntrico que o protagonista, Edward Norton mostra porque é um dos mais talentosos atores de sua geração.


Birdman foi um grande passo artístico na carreira de Alejandro González Iñárritu, conta com uma fabulosa fotografia e impecáveis atuações de todo o elenco. Tudo isso, aliado a um final propositalmente ambíguo, que abrirá debates após o final da projeção. 


Curiosidades: Todo o elenco teve que se adaptar ao estilo de filmagem rigoroso de Alejandro González Iñárritu, que os exigiu a realizar 15 páginas de diálogo em um momento, enquanto faziam marcações precisamente coreografadas .


Leia também