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Colunistas/Criar e Construir | 23/05/2020

Cidades preparam o futuro pós-pandemia

Carlos Pimentel Mendes é jornalista, especialista em transportes e logística, criador e editor do primeiro caderno regional de Informática, criador do primeiro CD-ROM (quem ainda sabe o que é isso?) brasileiro totalmente em linguagem HTML da Internet, pioneiro na interação regional entre Web e jornal impresso (y otras cositas más)...

Estamos tratando de cidades e realidades bem diferentes entre si, como Atenas, Bogotá, Buenos Aires, Chicago, Durban, Hong-Kong, Lisboa, Londres, Medellin ou Sydney

Começou com 40 metrópoles e mantém o nome C40, mas já abrange 96 cidades, a quarta parte da economia global e mais de 700 milhões de cidadãos: o grupo C40 (c40.org) se compromete a colocar em prática as metas mais ambiciosas do Acordo Climático de Paris, especialmente para limpar o ar que respiramos, “abrindo caminho para um futuro mais saudável e sustentável”, como declara.


Para estas metrópoles – o Brasil é representado por São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba -, quando terminar a pandemia do Covid-19, não deve haver um retorno à “normalidade” que existia no início de 2020, pois ela estava conduzindo ao superaquecimento do planeta e a um desastre ambiental. E, já que os governos nacionais não conseguem implantar políticas mais sustentáveis, são os governos locais que estão assumindo o protagonismo neste cenário de mudanças.


Estamos tratando de cidades e realidades bem diferentes entre si, como Atenas, Bogotá, Buenos Aires, Chicago, Durban, Hong-Kong, Lisboa, Londres, Medellin ou Sydney, entre outras.


Em comunicado lançado no início de maio, o grupo avisou: “prefeitos, representando milhões de pessoas em todo o mundo, se comprometem a construir uma sociedade melhor, mais sustentável e mais justa a partir da recuperação da crise da Covid-19”. Para o prefeito de Los Angeles e presidente do C40, Eric Garcetti, a pandemia “tem desnudado as desigualdades sistêmicas encontradas com demasiada frequência no coração de nossas comunidades. À medida que começamos a sair desta crise, devemos reconstruir uma economia que funcione verdadeiramente para todos”.


Objetivos - A meta é elevar a população mais vulnerável, construindo uma sociedade mais justa, resiliente e sustentável, para que não tenhamos no futuro notícias como a dos últimos dias, de que há mais mortes nas favelas cariocas do que em 15 estados brasileiros. Mortes causadas pela aglomeração humana e habitacional, pela falta de condições sanitárias básicas (água, esgoto, lixo), pela inexistência de qualquer planejamento urbano (vielas estreitas, quase inacessíveis) e das estruturas básicas que formam a presença do Estado em uma comunidade (postos de saúde, escolas etc.).


Uma das referências do grupo é o modelo Doughnut Economics, criado pela economista Kate Raworth na Universidade de Oxford e já adotado em Amsterdam, na Holanda, que baseia o desenvolvimento de uma cidade em limites ambientais.


Isso implica em mudanças conceituais e físicas, como a grande ampliação do uso de ciclovias e da largura dos passeios, reduzindo por sua vez os espaços para a circulação de veículos poluentes. Londres, por exemplo, espera quintuplicar o número de pedestres. Aliás, bem antes de o C40 (fundado em 2005) emergir nos noticiários, nos últimos dias, já havíamos comentado em fevereiro o estudo Mobility Futures, que segue na mesma direção. 


Nas decisões políticas, o grupo espera dar posição privilegiada à Ciência, com informações corretas e responsabilidade social, de modo transparente no trato (especialmente com o setor de Saúde, para que não tenhamos uma nova pandemia).


Não é inócuo - O C40 não se limita a estudos sem efeito prático ou a declarações de princípios: está desenvolvendo programas de parcerias financeiras (C40 Cities Finance Facility), serviços de apoio direto (City Advisers, Building Energy 2020 Programme), acesso a dados (City Intelligence), esforços diplomáticos conjuntos (City Diplomacy Strategy), planejamento (Measurement & Planning, Climate Action Planning Resource Centre), negócios inovadores (Low-Carbon Districts Forum, Green Economy & Innovation Forum, City Business Aliance) e projetos especiais (Reinventing Cities, Inclusive Climate Action, Women4Climate).


Enquanto os governos nacionais emitem declarações genéricas de princípios, ainda assim contestadas por seus pares, as cidades estão “colocando a mão na massa” para promover as mudanças. E essas mudanças vão afetar você, leitor, seja você uma pessoa que vive na cidade e usa suas edificações, seja construtor, designer de interiores, arquiteto ou urbanista. A grande expectativa é que algo de bem diferente surja ao final da pandemia.


Como disse o ex-prefeito de New York (EUA), Michael R. Bloomberg, todo esse trabalho deve “levar as cidades ao futuro, e não ao passado. Precisamos de um novo normal”.
 

40 cidades em todo o mundo estão estudando a construção de um futuro sustentável pós-pandemia
Imagem: site C40

 

 

População desnutrida no mundo, em 2017, um dos dados no gráfico interativo tipo doughnut (rosquinha) de Kate Raworth
Imagem: site Kate Raworth

 

Alguns dos números que configuram as mudanças em curso no mundo
Imagem: site C40 

 


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