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Colunistas/Vida em Dia | 13/06/2020

Brasil testa fase três da vacina chinesa

Jornalista

Especialista fala sobre a imunização e destaca isolamento social.

O médico Jorge Kalil, diretor do laboratório de imunologia do Incor e líder do projeto de pesquisa da vacina contra o SARS- CoV-2 do Incor – Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP – fala sobre a nova vacina para a covid-19 e explica algumas razões para a falta de controle sobre a disseminação do coronavírus no Brasil.

 

Por que não estamos conseguindo conter a pandemia de covid-19?
são vários fatores. Em primeiro lugar, não temos um controle central, ou seja, cada região está tomando suas medidas de forma independente. E agora, que estamos com um número enorme de doentes, as pessoas continuam saindo casa. Para mim, o que fez com que o número de casos subisse muito foi a falta de isolamento dos casos suspeitos e a impossibilidade de testar todos os pacientes com suspeita do novo coronavírus. O ideal era que em vez de dizer para os pacientes com sintomas ficarem em casa e só voltarem ao hospital quando estivessem se sentindo mal, fazer com que eles ficassem imediatamente isolados até sair o exame do PCR, que confirma a presença do vírus. Desta forma, esses doentes não iriam contaminar outras pessoas. Poderiam ter usado os hospitais de campanha, que estavam mais ou menos vazios, para instalar essas pessoas com suspeita da doença e que não tinham condições de se isolar em casa.

 


Pessoas com menos condições financeiras, muitas vezes, moram em residências com apenas um cômodo. Fica difícil fazer o isolamento...
Exatamente. A população carente, que é a mais afetada pelo covid-19 no momento, não tem como se isolar em casa, já que moram em espaços muito pequenos junto com outras pessoas. Por isso, é preciso ajudar esses pacientes a manterem-se isolados.

 


O número de mortes no Brasil também está muito alto, não é?
Os casos e as mortes estão crescendo exatamente porque não testamos todas as pessoas com sintomas e justamente esses pacientes estão infectando outros. E mais: nós estamos abrindo para a volta das atividades enquanto a infecção ainda está se alastrando com muita velocidade. As pessoas estão cansadas do isolamento, mas teriam que esperar mais um pouco, em vez de abrir no momento de pico da doença. 

 

E a vacina vai proteger com eficácia?
Essa vacina chinesa só vai ser testada no Brasil, porque lá na China a doença praticamente não existe mais. A fase três da vacina consiste em imunizar uma parte dos voluntários. Já a outra parte recebe placebo (que não tem efeito algum). Depois, se observa durante um ano se essas pessoas que foram vacinadas estão realmente protegidas e se os que não foram imunizados eventualmente pegaram a doença. Com isso, a gente pode calcular também o grau de cobertura, ou seja, o porcentual de pessoas que realmente estavam protegidas. Ainda não temos publicações suficientes para saber se a vacina vai ser realmente eficaz. O que sabemos é que vacinas de vírus inativado geralmente propiciam uma memória curta. Isso indica que se essa vacina funcionar, provavelmente, terá que ser repetida com alguma frequência, talvez anualmente. Mas isso vai ter que ser observado quando forem feitos os testes e também na observação depois da aprovação da vacina. 

 

Qual o envolvimento do Brasil na produção desta vacina?
O Brasil não participou do desenvolvimento científico ou industrial da vacina. Nosso país vai simplesmente trazer a tecnologia para testar a vacina feita pelos chineses e custear a fase três dos testes.  

 

Qual será a capacidade de produção desta vacina?
Isso vai depender de como esse vírus está adaptado para o crescimento de cultura de células. No Instituto Butantan, eu construí duas fábricas de vacinas: a da raiva e da dengue, que podem ser adaptadas à produção da vacina do coronavírus, ou seja, essas unidades produzem vírus a partir da cultura de células e podem também fazer a purificação do vírus. Já a inativação é outro processo, que acredito que os chineses vão bem explicar para os técnicos aqui no Brasil. 

 

Quais as medidas que podemos tomar para que o vírus seja contido neste atual momento em que estamos vivendo?
Temos que isolar os casos suspeitos e os contactantes, ou seja, se o paciente aparece com sintomas tem que fazer o teste PCR imediatamente e ser isolado caso dê positivo. Essa é a melhor maneira para conter o vírus. A quarentena talvez não seja eficaz para a população de baixa renda, sobretudo se tem alguém da família que precisa sair para trabalhar ou para qualquer outra coisa na rua. Temos que fazer algo que identifique rapidamente qualquer pessoa contaminada. Da mesma forma, as medidas de isolamento devem continuar de forma estratégica, inteligente e adaptada para cada região.

 

Como o vírus tem se comportado no organismo das crianças?
As crianças se infectam menos, provavelmente porque tem o que chamamos de imunidade inata, que é mais forte, e capaz de eliminar bactérias e vírus mais rapidamente. Então, a maioria das crianças tem essa imunidade nata muito ativa e são assintomáticas ao coronavírus. No entanto, algumas pegam o vírus e ficam doentes e o comportamento é diferente. Elas não desenvolvem a doença pulmonar que os adultos tem. Estão sendo feitos estudos para confirmar se existem menos receptores específicos no pulmão das crianças, que evitam as complicações pulmonares. Mas a gente sabe que há esses receptores no endotélio, que são as células que cobrem internamente os vasos sanguíneos. Ele, sim, fica infectado e, depois, inflamado, e isso pode levar à uma doença chamada de arterite de Kawasaki, que é grave e que geralmente é autoimune, mas, nestes casos, pode ser infecciosa. E, como o vírus entra na circulação das artérias, pode chegar realmente até as meninges e ao pulmão, com várias particularidades diferentes. Todos precisam se proteger para evitar o contágio do vírus!

 


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