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Colunistas/Cinema | 11/07/2020

Dica da semana: Era uma vez no oeste

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Um grande triunfo cinematográfico que é poético, sensível e inovador.

 

Em plena tarde sob um sol escaldante, somos apresentados a três homens armados e com longas capaz beges que chegam a uma estação de trem aguardando algo ou alguém. Com belíssimos enquadramentos, somos transportados aquele universo através do som de uma goteira e de um moinho que são amplificados ao máximo, enquanto um dos homens é incomodado por uma mosca com um zumbido persistente e irritante. Finalmente surge o trem que esperavam, e todos com as pistolas engatilhadas nas mãos, nada encontram. Quando o apito do trem soa novamente anunciando sua saída, os três homens viram as costas e, neste momento, ouvem o som de uma gaita e terminam se preparando para um épico duelo. Toda essa cena inicial de Era Uma Vez no Oeste não possui um diálogo sequer, apenas o poder da imagem e do som e é exatamente isso que o lendário diretor Sergio Leone faz ao transformar essa cena em uma das mais antológicas e incluir seu filme no hall de um dos melhores da história do cinema.


No filme, em virtude das terras que possuía serem futuramente a rota da estrada de ferro, um pai e todos os filhos são brutalmente assassinados por um matador profissional. Entretanto, ninguém sabia que ele, viúvo há seis anos, tinha se casado com uma prostituta de Nova Orleans, que passa ser a dona do local e recebe a proteção de um hábil atirador, que tem contas a ajustar com o frio matador. A cena inicial descrita acima (melhor vista do que escrita) é apenas um exemplo da espetacular direção de Sergio Leone. Era Uma vez no Oeste consegue, como poucos filmes, transcender qualquer categorização de gênero e é, talvez, o ponto alto da carreira de um diretor que demonstra aqui, uma maturidade impressionante de fotografia, montagem, cenografia, trilha sonora aliado a um controle absoluto de seu elenco. Sua assinatura estilizada para o gênero western é inconfundível e o diretor consegue utilizar todas essas ferramentas ao subverter as expectativas do público e homenagear o gênero à sua completa vontade. Leone constrói seu filme com um ritmo bastante lento e calculado, mostrando sua costumeira habilidade e perfeccionismo para construir cenas antológicas com a criação de planos e movimentos de câmera cheios de estilo, como a cena do massacre em que apresenta o personagem de Henry Fonda ao público ou o memorável duelo final, desde sua preparação com a chegada dos personagens até os famosos close nos olhares deles. O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com Bernardo Bertolucci e Sergio Donati é diferente de tudo que já havia sido feito na época, sendo profundo ao abordar temas como vingança, a evolução do progresso no oeste americano e o poder do dinheiro, com diálogos extremamente inteligentes e marcantes, aliado a uma belíssima construção de seus emblemáticos personagens. Reparem que o roteiro não deixa uma ponta solta, podendo soar confuso e sem fazer grandes revelações das motivações de seus protagonistas no início, mas que encaixa perfeitamente essas narrativas soltas uma na outra, demonstrando o excelente trabalho na idealização da história e no cuidado com o texto. 


O filme conta também com um impecável trabalho de montagem que permite a extensa narrativa fluir de forma agradável, jamais soando arrastada ao passo que sua fotografia, com o bege e marrom predominando, tornam aquele universo ainda mais seco e árido do que já é. Já o trabalho de direção de arte impressiona pela construção de uma cidade com mobílias, talheres gastos, figurinos empoeirados, saloons que parecem ser reais e uma excelente maquiagem, marcando os rostos queimados pelo sol. Mas a cereja do bolo fica a cargo do imensurável trabalho de Ennio Morricone e sua fenomenal trilha sonora, que é capaz de emocionar mesmo sendo escutada independente do filme. O uso de vocais angelicais dão o tom épico que o filme exigia e é impressionante todos os personagens possuírem uma trilha sonora própria, que casa perfeitamente com cada um deles em todas as cenas. 


A escolha do elenco se mostra extremamente formidável, sendo a escalação de Henry Fonda como o grande antagonista, totalmente acertada, uma vez que o ator é conhecido por sempre ter interpretado o bom moço. Jason Robards como Cheyenne consegue tirar o peso dramático do filme e trazer um pouco de humor, com um diálogo impagável sobre Judas e dólares ao passo que Charles Bronson está perfeito como o homem sem nome, sendo enigmático, calculista e calado na medida certa.


Era Uma vez no Oeste é uma obra de arte obrigatória não só pelos apaixonados por western como eu, mas sim para todos os amantes do cinema. Um grande triunfo cinematográfico que é poético, sensível e inovador, realizado por um diretor que ainda deixa saudades.


Curiosidades:  Originalmente, era a intenção do diretor Sergio Leone que Clint Eastwood interpretasse o personagem que acabou ficando com Charles Bronson em Era uma Vez no Oeste.
 

 


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