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Colunistas/Cinema | 18/07/2020

Destaque da semana: A hora mais escura

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Explora a complexidade da obsessão de uma mulher solitária e masculinizada por um mundo repleto de ódio.

Onde você estava em 11/09/2001? Os primeiros minutos de A Hora Mais Escura apresentam gravações de áudio reais de pessoas que estavam presas no World Trade Center no dia do atentado terrorista orquestrado pela Al-Qaeda e encabeçado pelo seu líder Osama bin Mohammed bin Awad bin Laden. Evocando o medo e o sentimento de perda logo de início, este longa deixa claro que não pretende se afastar dos aspectos mais desprezíveis da história que está contando, mesmo com seus realizadores tendo sido acusados de banalizar a violência e a tortura, ou até mesmo de terem sido beneficiados com informações privilegiadas de órgãos como o Pentágono, Casa Branca e da própria CIA. A verdade é que, A Hora Mais Escura é um filmaço que possui uma impressionante riqueza de detalhes e que deixará o público obcecado e grudado na tela pela maior caçada humana da história.


No filme, os ataques terroristas sofridos pelos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, deram início a uma época de medo e paranóia do povo americano em relação ao inimigo, onde todos os esforços foram realizados na busca pelo líder da Al Qaeda, Osama bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que está por trás dos principais esforços em capturar Bin Laden, por ter descoberto os interlocutores do líder do grupo terrorista. Com isso, ela participa da operação que levou militares americanos a invadir o território paquistanês, com o objetivo de capturar e matar bin Laden. Kathryn Bigelow (a primeira mulher a ganhar um Oscar de melhor direção), dirige o filme com um realismo impressionante e uma riqueza de detalhes quase obsessivos (eu não me recordo de ter visto isso em um filme antes) que se assemelha bastante à um documentário, por suas cenas cruas, frias, implacáveis e sempre objetivas. A diretora não cai na alternativa de glorificar o exército americano, mostrando uma grande evolução em sua carreira com uma fluidez admirável na condução da narrativa, realizando um retrato consciente e brutal, chegando à ousadia de recriar, em tempo real, e de um nível cinematográfico excepcional, a invasão ao esconderijo de Osama Bin Laden (são 40 minutos cravados de puro realismo e tensão, na melhor sequencia do filme). Pode contar, é impressionante. 


O roteiro, escrito pela diretora em parceria com o jornalista Mark Boal, é dividido em capítulos e não contesta fatos ou os endossa: opiniões ou métodos utilizados no processo dessa caçada estão totalmente na mão do público, deixando espaço suficiente para que façamos nossas próprias conclusões diante dos dilemas éticos e morais que seus personagens são expostos, em especial na obsessão de uma mulher e em sua desconstrução como ser humano, que lhe roubou quase uma década de vida. Criando um envolvente, ambicioso e empolgante filme de investigação, o roteiro nos apresenta com brilhantismo todos os erros e acertos em seguir pistas sobre o terrorista, que passam por subornos com Lamborguinis, intensas sessões de tortura, rastreamentos de telefones, verdadeiros comitês para tentar provar a localização de Bin Laden e reuniões para tentar acertar a probabilidade de que o terrorista esteja realmente na casa a ser invadida. Tudo é realizado com extrema maestria, criando um intenso thriller de espionagem. 


A direção de fotografia de Greig Fraser é eficiente e que demonstra uma identidade visual muito bem trabalhada, especialmente no uso da escuridão e das visões noturnas que chegam a causar arrepios. A trilha sonora, composta por Alexander Desplat, cumpre bem sua função na narrativa ao passo que o trabalho de montagem é eficiente ao organizar as diversas informações que levarão ao terrorista.


O elenco do filme é excepcional, e é composto por grandes atores em excelentes performances, como Jason Clarke, Kyle Chandler e Mark Strong mas é a atuação de Jessica Chastain o grande destaque do filme. Apresentada inicialmente como uma agente extremamente profissional e obstinada, Chastain oferece uma performance magnífica, explorando todas as nuances de sua personagem, abraçando completamente a transformação daquela outrora jovem inteligente e cheia de potencial, em uma verdadeira máquina obcecada e com um único objetivo na vida. O seu choro em um momento crucial do filme é grande um alívio para ela e para o público.


A Hora Mais Escura jamais se rende a um discurso fácil e direto para agradar ao público, deixando seu foco ao explorar, de forma crua e visceral, a complexidade das obsessões de uma mulher solitária e masculinizada por um mundo repleto de ódio. Definitivamente, trata-se da obra-prima de Kathryn Bigelow. 


Curiosidades:  A produção foi pega de surpresa com o anúncio da morte de Osama Bin Laden. A história girava em torno da caçada ao terrorista.

 

 


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