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Colunistas/Criar e Construir | 18/07/2020

O tempo conspira a favor

Carlos Pimentel Mendes é jornalista, especialista em transportes e logística, criador e editor do primeiro caderno regional de Informática, criador do primeiro CD-ROM (quem ainda sabe o que é isso?) brasileiro totalmente em linguagem HTML da Internet, pioneiro na interação regional entre Web e jornal impresso (y otras cositas más)...

Muita gente não acredita que muitas mudanças ocorrerão no "novo normal".

Não tenho dúvida de que muita gente está contando o tempo para o previsto final da pandemia e a volta à normalidade. E não acredita que muitas mudanças ocorrerão, a vida voltará a ser a mesma. Porém, crescem as evidências de que a mudança é definitiva. E é justamente o tempo um aliado nesse processo de criação do chamado “novo normal”.


Na capital paulista, a TV já mostrou um grande escritório de advocacia completamente deserto e já sem o mobiliário, pronto para ser devolvido ao locador. Não, a empresa não faliu, muito pelo contrário. Seus colaboradores foram colocados em teletrabalho no início da pandemia, em março, e se adaptaram tão bem à nova rotina que já não querem voltar ao estilo anterior de trabalho. E a empresa alegremente aceitou a mudança, ao ver que seu pessoal está produzindo muito mais e gerando muitos novos negócios. De opção emergencial, o teletrabalho virou um sistema definitivo de trabalhar.


Para as pessoas que ali trabalham, muito menos estresse, já não precisam enfrentar o trânsito extremamente lento da capital ou o absurdo sistema de transporte literalmente de massa, pois não foi feito para transportar pessoas, amontoadas umas sobre as outras, enfrentando o calor infernal, o clima abafado e ainda tentando se equilibrar em meio ao para-acelera dos veículos. São em média quatro horas a menos de estresse por dia, quem quer isso?


Pessoas descansadas e com mais tempo livre produzem ideias, fazem mais contatos, capricham mais no trabalho e isso gera mais negócios. Foi o que o escritório de advocacia descobriu. Está gerando mais renda do que nunca, mesmo com a economia mundial prejudicada. Então, o que justificaria voltar à situação anterior? Você sabe a resposta: nada.


Este foi um exemplo no setor de serviços. Nas indústrias cada vez mais automatizadas, o trabalho humano passa a ser mais o de controlar painéis de informações, e isso pode ser feito à distância. Se não puder, logo poderá, pois quando há demanda as novas soluções surgem rapidamente – é só ver as centenas de projetos de vacinas que estão sendo desenvolvidas em laboratórios de inúmeros países. A tendência de personalização dos produtos para atrair clientes é outra aliada, pois o funcionário da indústria precisará para isso estar muito mais perto do cliente do que da fábrica.


Comércio - E chegamos aos lojistas e vendedores em geral. Enquanto muitos se lamentavam – e eu entendo isso, pois não é tão fácil assim mudar, às vezes bem radicalmente – outros estão transformando a crise em oportunidades, em inúmeros exemplos que a Imprensa vem destacando.


Verdade: muitos enfrentem prejuízos pesados, foram apanhados na contramão dos projetos e sonhos que criaram dentro de uma outra realidade e se desfizeram com a revolução causada pelo isolamento social. Não suportam mais os financiamentos contratados, ou não conseguem recursos financeiros para novos empreendimentos (azar dos governos que não sabem agir para formar um novo ambiente de negócios, com tributação mais justa, e azar dos bancos que não conseguirem se adaptar a essa nova demanda!). 


Entretanto, muitos empresários estão justificando o nome, estão empresariando, assumindo os riscos de um novo investimento. E alguns já colhem os primeiros tímidos resultados. Ou não: há quem já esteja ganhando muito bem com a nova forma de comerciar via Internet. Estes, decerto, já viram as vantagens concedidas aos pioneiros, aos que saem na frente, e vão querer manter essa grande distância à frente dos concorrentes.


Nem todos? - Claro, existem algumas atividades que não podem mudar, elas precisam atuar de uma certa forma que a pandemia em si não altera. Mas, mesmo nestes casos, nem tudo será igual.


Nas áreas do design de interiores, da arquitetura, do urbanismo, da construção civil, às quais estas colunas são principalmente dedicadas, os novos comportamentos ditam mudanças como o surgimento de novos espaços dentro das residências (para o teletrabalho) e nos condomínios (para mercados e prestadores de serviços), nas áreas comuns (para garantir melhor higienização contra futuras causas de contaminação) e muito mais. Todos precisam estar atentos às tendências de mercado que começarão a surgir agora, para que consigam atender às novas demandas.


Pequenas diferenças na forma de agir durante a pandemia serão incorporadas às suas ações, à sua visão de mundo e às perspectivas ou aos cenários de suas atividades. Até porque tanto os profissionais como os seus clientes já estão ficando acostumados e não aceitarão menos do que já têm agora. Até nestes casos, o tempo conspira a favor de um novo normal.
 

Para chegar a um novo normal, é preciso um salto sobre as incertezas. Vale a pena
Imagem de Pete Linforth por Pixabay

 

As pessoas estão se acostumando a uma nova forma de vida
Imagem: criada por ArthurHidden - br.freepik.com 
 


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