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Colunistas/Cinema | 25/07/2020

Dica da semana: Pecados íntimos

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Análise delicada e sensível sobre a condição humana.

Lembro quando vi Pecados Íntimos pela primeira vez em 2006 e, na época com 20 anos, não entendi o motivo do filme não ter sido reconhecido pelo grande público, tanto na época quanto ainda hoje. O longa é uma daquelas pérolas que muitos amigos cinéfilos ou não conhecem ou não se encantaram por ele. Assistindo nos dias de hoje, percebo como o filme oferece um olhar sensível e um tanto complexo sobre o eterno conflito do ser humano entre o desejo e a razão: os fantásticos personagens deste filme cedem constantemente às tentações somente para se sentirem vivos, jovens e inconsequentes. Nós, somos seres infinitamente complexos e que, mesmo contra todas as probabilidades, não evitamos ao arriscar uma vida plena e cheia de estabilidade, por uma breve e momentânea emoção mais intensa. Pecados Íntimos aborda este tema com perfeição e que talvez ainda leve mais alguns anos para ser descoberto por ser um filme que foge dos padrões convencionais e, mostra sua inteligência, ao provar que as maiores decisões de nossas vidas não são aquelas planejadas, mas sim as que tomamos em frações de segundo.


No longa, Sarah é uma mulher bem educada que não consegue aceitar sua vida como dona de casa e mãe. Brad é um pai que está casado com uma linda cineasta e resolve patinar ao invés de estudar para seu exame. O casal se conhece em um parque, enquanto seus filhos dormem e seus cônjuges trabalham. O filme é conduzido de forma discreta pelo talentoso diretor Todd Fields (em seu segundo longa), onde aqui, ele não procura chamar a atenção do público para suas técnicas de filmagem com transições de cenas elaboradas (com exceção da magistral cena da piscina), mas sim ao preferir investigar as vidas de pessoas aparentemente comuns e ao se concentrar em seus personagens. Achei inteligente da parte do diretor utilizar uma elegante narração em off, o que dá a sensação de estarmos lendo um livro ou também, ao distanciar do público os cônjuges dos protagonistas, o que reflete a pouca intimidade e frieza que existe entre eles. O diretor consegue acertar em quase todos os sentidos: da interpretação de seu elenco ao desenvolvimento lento e gradual de seus personagens, passando pelas suas ações que são perfeitamente coerentes dentro da narrativa, por mais reprovável e injustificáveis que sejam. E isso também é de grande mérito do roteiro.


Escrito pelo diretor em parceria com Tom Perrota, o roteiro jamais tenta justificar as ações de seus personagens. Aqui, temos a complexidade na construção do casal que vive uma relação extra conjugal e a do pedófilo condenado que é incapaz de controlar seus impulsos, e que o texto busca constantemente abordar outras facetas, como o amor de Ronnie (o pedófilo) por sua mãe. Além disso, o roteiro nos leva a ter uma certa aproximação e um olhar benevolente pelo personagem, seja em função da perseguição que este sofre por um ex policial, o comportamento repulsivo que é tratado pela comunidade ou sua necessidade de ouvir de suas mãe coisas boas a seu respeito. Desafio quem não se emocionar com as poucas palavras escritas pela mãe em um bilhete ao filho quase no final do filme. A narrativa conduzida entre roteiro e direção é envolvente, convidativa mas a tensão é constante, com a tragédia se anunciando a cada cena, o que causa um desconforto e sensação de sufocamento grande no público. 


Kate Winslet consegue ser uma das poucas atrizes a atingir tamanha maturidade profissional com tão pouca idade, com uma personagem impulsiva, insegura e carente (algo que a atriz retrata com incrível sensibilidade). Já Patrick Wilson impressiona por seu trabalho neste filme, com uma atuação irracional e inconsequente mas o grande destaque fica com Jack Earle Haley, como o trágico Ronnie, que envolveu desde uma caracterização com visual doentio a trejeitos peculiares, dando vida a um rico personagem que consegue despertar as mais extremas emoções no público, da repugnância a compaixão.


Pecados Íntimos é uma análise delicada e sensível sobre a condição humana e que ilustra perfeitamente nosso eterno despreparo ao lidar com as grandes questões da vida. Um grande filme que merece ser visto e valorizado. 


Curiosidades: Foi o primeiro filme que o ator Jackie Earle Haley contracenou em 13 anos.
 


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