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Cotidiano/Tecnologia | 25/07/2020

Vítimas do caso das criptomoedas vão tentar rastrear dinheiro no exterior

MARCO SANTANA - DA REDAÇÃO

Polícia Civil e Ministério Público investigam BWA, que prometia rendimentos fantásticos.

Assim que chegava ao escritório no 13º andar do Praiamar Corporate, o visitante se impressionava com a suntuosidade do ambiente: recepcionistas que pareciam modelos, decoração sofisticada, dezenas de computadores com telas exibindo gráficos... Era onde a BWA Brasil recebia seus clientes, que hoje denunciam um golpe milionário envolvendo o que seriam investimentos em criptomoedas. 


A BWA Brasil é acusada pela Polícia Civil, o Ministério Público e ao menos 1897 pessoas, que ajuizaram ações, de promover um golpe cujo prejuízo é estimado entre R$ 296 milhões (valor admitido pela empresa, que entrou em recuperação judicial) e R$ 800 milhões (segundo vítimas e advogados).

 

 

Com funcionava
Segundo a denúncia, a empresa procurava pessoas endinheiradas para oferecer investimentos em bitcoins, prometendo rendimentos muito maior do que qualquer outra aplicação financeira — poderiam chegar a 54% ao ano! 


O advogado Maurício Cury, que defende uma das vítimas, explica que, para dar credibilidade à operação, a empresa contratou profissionais do mercado financeiro, já com carteira de clientes, gerentes do Itaú Personalitée, Safra, Santander Van Gogh, XP Investimentos. 


Nos primeiros meses, o cliente realmente fazia retiradas conforme o prometido. “A pessoa pensava que sacava o rendimento e preservava o principal”, completa Cury. “Era o investimento dos sonhos”.


Para garantir a imagem de seletividade, não eram aceitos aportes menores que R$ 30 mil. Mas a grande maioria aplicou muito mais que isso — R$ 2,4 milhões, R$ 1,6 milhões. Entre as vítimas, desde ricaços donos de grandes empresas até aposentados que venderam imóvel na esperança de obter um rendimento maior do que o aluguel para viver o resto dos dias.

 

Pirâmide
Para o advogado Joaquim Fernandes, que também defende outras vítimas da BWA, o caso nada mais é do que uma pirâmide financeira. Ele salienta que a BWA Brasil não está inserida no Cadastro de Valores Mobiliários (CVM) e, portanto, não poderia estar realizando aquele tipo de operação e tem, segundo seu contrato social, um capital de R$ 800 mil. “Como uma empresa desse porte vai operar um valor tão alto de dinheiro?”, questiona.

 

Os responsáveis
A BWA Brasil Tecnologia Digital LTDA é uma empresa registrada em São Paulo, cujos sócios no contrato social são Roberto Willens Ribeiro, Marcos Aranha, Jéssica Da Silva Farias. No entanto, Paulo Roberto Ramos Bilibio é apontado como o grande comandante da operação — o domínio da BWA Brasil na internet está registrada no nome dele. 


Aliás, Biliblio tem um antecedente conturbado, relacionado à pirâmide financeira BBom, que segundo inquérito policial lesou milhares de pessoas em Guarujá. Há também um episódio nebuloso em que ele teria sido sequestrado e extorquido por policiais — que está sob investigação do GAECO, do Ministério Público de São Paulo e pela Corregedoria da Polícia Civil. 


A Justiça os proibiu de saírem do país, mas a decisão foi dada tarde demais: Biliblio já estaria em Miami (EUA).

 

O dinheiro 
Os bens em nome da empresa e seus proprietários foram bloqueados pela Justiça. No entanto, o advogado Maurício Cury acredita que os valores aplicados pelas vítimas podem estar em contas fora do país. Ele avalia que o GAECO tem condições de fazer uma cooperação internacional e tentar recuperar os valores. “O dinheiro é rastreável”, afirma. 

 

Defesa
O advogado José Luis Macedo, que representa a BWA Brasil, atribui os prejuízos à volatilidade do mercado de bitcoins, que teria se agravado com a pandemia. “O mercado de criptomoedas é como aplicar em ações, tem a alta e a baixa. Se a empresa não tivesse interesse em pagar os investidores, ela não apresentaria um plano de recuperação judicial”, diz. “Se fosse uma pirâmide, a Justiça não teria aceitado o plano de recuperação”, afirma.

 


AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Os advogados que defendem vítimas BWA estão reunindo uma série de documentos, para serem entregues ao Ministério Público e à Policia Civil, com o objetivo de instrumentalizar as autoridades no rastreio do dinheiro e buscar sua repatriação. A suspeita é que os recursos foram destinados para uma offshore chamada Open Global, com sede nas Bahamas.


Na semana passada, representantes da BWA fizeram um webinar com clientes para explicar a situação, mas não convenceram. 


O juiz Marcelo Barbosa Sacramone, da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, definiu a empresa Lastro Consultores para administrar a recuperação do negócio. O prazo para a entrega do primeiro relatório financeiro deste processo se encerrou nesta quinta-feira (23).


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