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Colunistas/Cinema | 01/08/2020

Dica da semana: A origem

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Foto: Reprodução

O blockbuster mais original do século XXI.

São raros os eventos que aparecem de vez em quando no cinema blockbuster americano, com a improvável mistura de conceitos elaborados e visionários aliado ao espetáculo de ação que só Hollywood é capaz de oferecer. Em 1999, tivemos o primeiro Matrix, que é o exemplo mais expressivo deste tipo de cinema e que, ofereceu naquele ano, uma revolução técnica e visual como nenhum outro, trazendo também uma história original e cheia de referências filosóficas. Em meio a essa revolução, o diretor Christopher Nolan fazia uma interessante transição entre o cinema introspectivo e independente para produções de grande escala, realizando uma das melhores trilogias da história: O Cavaleiro das Trevas. Dessa forma, nascia em 2010 o grande sucessor digno de Matrix: A Origem, o blockbuster mais original do século XXI.


No longa, em um mundo onde é possível entrar na mente humana, Cobb (Leonardo DiCaprio) está entre os melhores na arte de roubar segredos valiosos do inconsciente, durante o estado de sono. Além disto ele é um fugitivo, pois está impedido de retornar aos Estados Unidos devido à morte de Mal (Marion Cotillard). Desesperado para rever seus filhos, Cobb aceita a ousada missão proposta por Saito (Ken Watanabe), um empresário japonês: entrar na mente de Richard Fischer (Cillian Murphy), o herdeiro de um império econômico, e plantar a ideia de desmembrá-lo. Para realizar este feito ele conta com a ajuda do parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt), a inexperiente arquiteta de sonhos Ariadne (Ellen Page) e Eames (Tom Hardy), que consegue se disfarçar de forma precisa no mundo dos sonhos. Christopher Nolan articula com perfeição uma grande riqueza de conceitos e regras complexas do universo que criou, dedicando boa parte da narrativa ao explicar cada uma delas com extrema atenção aos detalhes para que se tornem compreensíveis ao público, ao mesmo tempo que apresenta e desenvolve organicamente seus personagens principais, suas habilidades e dramas pessoais. Nolan também se destaca pela sua incrível imaginação, em especial, na criação e direção das diversas cenas de ação, já que o filme tem um ritmo crescente que não para nunca: a fantástica e clássica cena no hotel onde existe um embate em um corredor girando e que não respeita a lei da gravidade ou a longa batalha final na base militar na neve, são dois exemplos do que um diretor inspirado e talentoso pode realizar. Outro ponto fascinante do diretor é no aspecto visual do filme, onde mostra uma engenhosidade impressionante ao criar uma Paris com ruas sobrepostas, que só comprovam sua capacidade de criação.


O roteiro, também escrito pelo diretor, nos apresenta a conceitos extremamente intrigantes e complexos, dedicando-se a explorá-los até as consequências mais extremas, acreditando na inteligência e jamais buscando simplificar sua narrativa para o espectador, que acompanhará níveis diferentes de sonhos-dentro-de-sonhos, tudo isso sem que a narrativa se torne indecifrável ou entediante.


No aspecto técnico, o filme é brilhante: o mundo real subvertido com o mundo dos sonhos é impecavelmente ilustrado pelos brilhantes efeitos visuais, ao mesmo tempo que o design de produção dá vida aos diversos e suntuosos ambientes aliado ao figurino que ajuda a estabelecer a personalidade de seus personagens. Outro ponto importante é a excepcional trilha sonora composta por Hans Zimmer, que confere uma atmosfera sinistra desde o primeiro segundo do filme.


Contando com um elenco admirável e estelar, Nolan extrai de cada um os atributos necessários para que todos tenham um desenvolvimento preciso e importante na história: destaque para Leonardo DiCaprio, que mostra seu talento ao desenvolver seu personagem sempre tenso, angustiado e inseguro, ao passo que Joseph Gordon-Levitt exibe a firmeza necessária para que o público se convença de sua competência. Fecham o elenco a competente Marion Cottilard, como uma típica femme fatale e Tom Hardy, como o carismático Eames.


A Origem é um original, inovador, inteligente e fascinante filme com empolgantes cenas de ação, protagonizado por um elenco impecável e dirigido por um dos melhores e únicos diretores da atualidade. Um filme verdadeiramente revolucionário que fará com que você tente descobrir o significado do que acabou de testemunhar.

 

Curiosidades: Leonardo DiCaprio foi a única escolha do diretor e da produtora Emma Thomas para viver Cobb. 
 


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