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Colunistas/Criar e Construir | 01/08/2020

De lá pra cá, daqui pra lá...

Carlos Pimentel Mendes é jornalista, especialista em transportes e logística, criador e editor do primeiro caderno regional de Informática, criador do primeiro CD-ROM (quem ainda sabe o que é isso?) brasileiro totalmente em linguagem HTML da Internet, pioneiro na interação regional entre Web e jornal impresso (y otras cositas más)...

Cidades inteligentes resolvem problemas de mobilidade, principalmente, neste momento de distanciamento social.

Quando se fala em isolamento social, distanciamento sanitário entre as pessoas, o maior gargalo é o superlotado transporte urbano/interurbano. Pessoas amontoadas em ônibus sacolejantes, trens que param por defeito no meio do caminho, metrôs insuficientes para tanta demanda. Não há isolamento social que suporte situações assim, especialmente quando em todo o país o conglomerado de empresas de transporte tem mostrado mais interesse no lucro que no conforto dos passageiros ou na segurança contra pandemias, o que resulta em veículos superlotados, ao arrepio das próprias normas legais criadas para evitar aglomerações.


Não é objetivo da coluna verberar contra empresários e autoridades que não atuam para resolver efetivamente o problema imediato, mas mostrar que existem soluções – pena que não em curto prazo. Soluções já aplicadas em vários países, décadas atrás, e que passam por políticas urbanísticas mais sérias – como as que se espera sejam adotadas pelas maiores cidades nos próximos anos (afinal, elas enfim reconhecem que o problema existe e precisa ser resolvido!). 


Em simples resumo, cabe perguntar por que tanta gente precisa se amontoar em transportes públicos principalmente no início da manhã e no final de tarde? Qual a razão pela qual elas não podem, por exemplo, trabalhar tão perto de suas casas que seria possível percorrer a pé ou em bicicleta o trajeto casa-empresa? E, mesmo para situações em que não seja aconselhável ter uma empresa de grande porte num bairro predominantemente residencial, por que não adotar massivamente os sistemas de teletrabalho, para que somente umas poucas pessoas tenham de estar na sede da empresa?


Já foi provado “na marra” pela pandemia que teletrabalho permite economias importantes e pode ser bem mais produtivo que o presencial. Começando pelo fato de que cada trabalhador economiza umas três a quatro horas por dia, entre espera no ponto de ônibus e transporte efetivo de ida e volta. Para certas reuniões em que seja necessária a presença da equipe num local e possa não ser recomendada a videoconferência, ok – ainda assim, a maior parte da pressão sobre os sistemas de transporte estará resolvida, até pelo fato de tais reuniões poderem ser programadas para horários fora do “rush”.


Greve sanitária - Até os sindicatos de trabalhadores já perceberam isso. Chamou a minha atenção a “greve sanitária” – contra o trabalho presencial – iniciada no Judiciário santista. Justamente um dos argumentos é que o teletrabalho se mostrou mais produtivo. Com tantas métricas modernas e outras formas mais inteligentes de avaliação, será tão importante assim o relógio de ponto registrar a entrada pontual na empresa às 8 horas da manhã, a saída às 17 horas e o vaivém no horário de almoço?


Mas a solução para acabar com o transporte lotado não se limita a isso. Se próximo de casa pudermos contar com variado comércio regular, e para tudo o mais pudermos fazer as compras pela Internet, com serviço eficiente de entregas, parte importante dos deslocamentos diários poderá ser evitada. E as soluções para isso existem, estão sendo exaustivamente experimentadas por todos durante a pandemia. Cabe aos comerciantes em geral fazerem os ajustes necessários, de modo a garantir qualidade, preço e eficiência nas entregas.


Estabelecimentos oficiais – cartórios, repartições diversas – têm muito a se beneficiar com o crescimento dos documentos eletrônicos, e conforme tivermos um pouco mais de competição no setor as pessoas poderão investir mais em sistemas de assinatura eletrônica e digitalização de contratos, dispensando impressão, retirada e entrega de papelada aqui e acolá.


Nem tudo - Claro que existem serviços que dependem de equipamentos custosos e não dá para levá-los à casa do cliente - e mesmo assim apenas inverteríamos a equação: em lugar do cliente se deslocar até a empresa, os profissionais se deslocariam até o cliente – em termos de mobilidade urbana ficaríamos quase na mesma.


Ainda assim, não precisamos de superacademias de ginástica concentradas no Centro, por exemplo: elas podem se dividir entre os bairros, formando clientela entre os moradores mais próximos, que incluiriam a caminhada até esses locais em seus programas de exercícios – ou realmente eles precisam ir de carro até a academia? 


Criar formas de estimular essas mudanças pode resolver parcela importante do problema, reduzindo também o chamado Custo Brasil ao tornar pessoas e empresas saudavelmente mais competitivas, já pensando num mercado globalizado para seus produtos e serviços.


Enfim, ir daqui para lá e de lá pra cá deve ser apenas uma atividade de lazer ou complementar aos sistemas digitais, não apenas uma formalidade cartorial. Quem for mais rápido em mudar, como sempre, terá melhores resultados no mercado mundial. Já os que dormirem no ponto vão perder o ônibus da história...

 

Rua Kitano, em Kobe, no Japão. Diversidade e proximidade podem fazer a economia local aliada da mobilidade urbana
Imagem: Wikipedia

 


Vauban é um bairro na cidade alemã de Freiburg, considerado o maior modelo de sustentabilidade da Europa
Foto: Claire7373Andrewglaser/Wikipedia 
 

    


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