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Colunistas/Cinema | 15/08/2020

Dica da semana: A Lista de Schindler

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Foto: Reprodução

Filme mostra como a compaixão é um dos sentimentos mais valiosos que um ser humano pode ter.

"Aquele que salva uma vida, salva todo mundo". A Segunda Guerra Mundial, assim como o Holocausto, serviu de tema para diversos filmes e já foi exaustivamente representado durante anos pelo cinema por se tratar de um dos maiores horrores já cometidos pelo homem. Lançado em 1993, A Lista de Schindler marcou a história do cinema e a carreira de Steven Spielberg vencendo 7 Oscar (incluindo Melhor Filme e Diretor), contando uma história de luta e esperança em uma época em que o caos e o ódio reinavam absolutos. Em entrevista recente, Spielberg mencionou a importância de sua obra, nos dias atuais: "O ódio individual é uma coisa terrível, mas, quando o ódio coletivo se organiza, vem o genocídio. Então, esse ódio não é algo que possa ser menosprezado. Temos que levá-lo mais a sério hoje do que o levamos na geração passada”. Completando 25 anos de seu lançamento, essa obra exemplar da sétima arte se mostra mais atual do que nunca, ao retratar o lado mais profundo de até onde o ser humano pode chegar e que não altera o passado, mas que pretende impedir que essas atrocidades se repitam em um futuro qualquer.


O filme conta a inusitada história de Oskar Schindler (Liam Neeson), um sujeito oportunista, sedutor, "armador", simpático, comerciante no mercado negro, mas, acima de tudo, um homem que se relacionava muito bem com o regime nazista, tanto que era membro do próprio Partido Nazista (o que não o impediu de ser preso algumas vezes, mas sempre o libertavam rapidamente, em razão dos seus contatos). No entanto, apesar dos seus defeitos, ele amava o ser humano e assim fez o impossível, a ponto de perder a sua fortuna mas conseguir salvar mais de mil judeus dos campos de concentração. Steven Spielberg nasceu para dirigir o projeto (ele é Judeu), trazendo uma abordagem mais intimista e pessoal para a obra. Aproximando sua narrativa aos documentários de guerra da época, Spielberg nos mergulha em um mundo sem vida, como se toda a esperança tivesse sido deixada de fora, criando uma atmosfera sufocante semelhante a um filme de terror, e por se tratar de uma história real, se torna muito pior que qualquer obra do gênero. O diretor não nos poupa da realidade em nenhum momento, jamais permitindo que o público esqueça que, em qualquer momento, alguém pode perder a vida por nenhuma razão aparente. Realizando o melhor trabalho de sua carreira (estamos falando de Spielberg hein), o diretor constrói cenas arrebatadoras e extremamente emocionantes, como a longa sequencia do massacre no gueto e a angustiante cena do banho na câmara de gás. 


O roteiro de Steven Zaillian é um fenomenal e brutal épico de guerra de mais de três horas de duração, onde acertadamente não apenas foca em seu protagonista e em suas motivações e imperfeições, mas também desenvolvendo e nos aproximando de todos seus personagens secundários de forma gradual e orgânica, criando junto ao público uma grande empatia por todos eles, que seguem uma evolução e mudanças naturais, nada forçado e extremamente convincente. 


O filme aposta na magnífica fotografia em preto e branco de Janusz Kaminski para dar o tom e criar a atmosfera de melancolia necessária que permeia toda a obra. Somos sugados para aquele período da história graças ao excepcional trabalho técnico do filme, a começar pela impecável direção de arte e na criação de seus cenários, desde os campos de concentração e nos detalhes nas residências dos personagens passando pela linda trilha sonora de John Williams, que captura perfeitamente a essência daquele triste período com suas notas melancólicas de piano. Para finalizar, a montagem é eficiente por empregar um excelente ritmo que faz com que sua longa duração nunca seja sentida.


Liam Neeson está brilhante, sendo apresentado inicialmente como um homem manipulador e que utiliza as pessoas a seu favor, passando por uma lenta e bela transformação, do egoísmo ao altruísmo, permitindo que o espectador enxergue seus dilemas internos. Ralph Fiennes vive de maneira assustadora o oficial nazista Amon Goth, a personificação do mal na terra. A dinâmica entre estes dois personagens é conduzida de forma brilhante por Spielberg.


A Lista de Schindler é a obra-prima de Steven Spielberg que deixará o público inerte, incapaz de dizer ou fazer qualquer coisa ao término de sua projeção. É um filme totalmente obrigatório, não só aos apaixonados pela sétima arte, mas também a todo ser humano. Uma verdadeira obra prima que mostra como a compaixão é um dos sentimentos mais valiosos que um ser humano pode ter.


Curiosidades: A direção de A Lista de Schindler chegou a ser oferecida, durante os anos 80, a Martin Scorsese, que recusou a proposta dizendo que seria melhor que um diretor judeu realizasse o filme.
 


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