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Cotidiano/Comportamento | 05/09/2020

Pandemia complicou o que estava ruim, diz psicóloga

MARCO SANTANA- DA REDAÇÃO

Especialista aponta perda de qualidade de vida e deterioração de vínculo.

Mesmo que não leve a uma atitude extrema, a pandemia contribui para piorar a saúde emocional, prejudicando a qualidade de vida da própria pessoa, deteriorando relações familiares e de amizade, a afetando a produtividade profissional. A coordenadora do curso de Psicologia da Unisanta, Gisela Monteiro, alerta para os sinais de alerta e orienta como enfrentar a situação. 

 


Quais os principais problemas que as pessoas estão sofrendo por conta do “conjunto da obra” da pandemia (medo de ficar doente, isolamento social, incertezas) e quais consequências eles podem trazer?

Gisela Monteiro- A vida contemporânea não estava fácil antes da pandemia. As dificuldades para dar conta dos boletos, responsabilidades e amores já se verificavam com o aumento dos transtornos mentais. As incertezas trazidas pela pandemia só acirraram significativamente os problemas. Se estávamos inseguros sobre o futuro, agora estamos à deriva. As consequências já podem ser vistas com agravamento dos quadros psicológicos. É só perguntar para algum profissional de saúde que trabalhe em hospital para ouvirmos sobre o aumento dos episódios agudos de sofrimento psíquico, convertidos ou não em doenças do corpo. Também vemos parte da população se comportando de forma agressiva e delirante, negando orientações e informações das autoridades sanitárias.

 

Quais os principais sinais de que a pessoa não está bem?
Gisela Monteiro
- Os principais sinais são as alterações de padrões de comportamento de uma pessoa. Ela pode se tornar muito mais agitada e agressiva ou, no polo oposto, mais passiva e quieta. Pode ficar insone ou dorminhoca, voraz ou inapetente. O mais importante é perceber o quanto essas mudanças comprometem as responsabilidades e atividades cotidianas. Neste momento penso que é hora de procurar ajuda de um profissional de saúde.

 

Como fazer para combater estes problemas ou ao menos atenuar seus efeitos?
Gisela Monteiro-
O que pode ajudar é manter os pés na realidade, estar atento as informações sobre a situação da pandemia e adequar seu cotidiano a essa conjuntura. Sempre que possível manter contato remoto com familiares e amigos, deixando tempo para atividades que trazem prazer. A movimentação física e a arte ajudam muito nestes momentos. Bom humor também é fundamental. Se conseguirmos achar brechas para rirmos de nós mesmos e das situações inusitadas e bizarras que acontecem, tanto melhor.

 

Ficaremos com sequelas?
Gisela Monteiro-
Penso que sim, de diversos tipos: econômicas, afetivas, profissionais e principalmente sociais. Levaremos alguns anos para nos recuperarmos delas. Estamos às vésperas de eleições municipais e percebo um enorme desinteresse coletivo. A vacina contra Covid-19 ainda não está pronta, mas contra o discurso político oportunista estamos imunizados. Percebo um clima de desesperança social. 

 

Setembro é o mês dedicado a discutir com mais profundidade a depressão e o suicídio. Como a pandemia influencia o comportamento das pessoas? Estamos diante de um risco do aumento de casos de pessoas que pensam em tirar a própria vida?
Gisela Monteiro-
 A pandemia complicou muito o que já estava ruim. A imprevisibilidade e as incertezas desencadeiam diferentes reações emocionais nas pessoas. As que estavam fragilizadas podem não resistir a sobrecarga o edifício da sanidade ruir. Aí surgem as depressões paralisantes, tentativas de suicídio, crises de angústia entre outras situações graves. Os riscos de decisões trágicas como a de tirar a própria vida sem dúvida estão aumentados.


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