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Colunistas/Criar e Construir | 18/09/2020

Voltar ou não voltar?

Carlos Pimentel Mendes é jornalista, especialista em transportes e logística, criador e editor do primeiro caderno regional de Informática, criador do primeiro CD-ROM (quem ainda sabe o que é isso?) brasileiro totalmente em linguagem HTML da Internet, pioneiro na interação regional entre Web e jornal impresso (y otras cositas más)...

Foto: Freepik

O debate 'trabalho presencial versus teletrabalho' é bem conhecido pelos leitores desta coluna.

Algumas empresas na famosa Rua do Muro em New York (que o pessoal só reconhece pela forma inglesa, Wall Street) já estão pensando sobre o pós-pandemia. É um debate já bem conhecido dos leitores desta coluna, a questão de trabalho presencial versus teletrabalho. Nesse debate, elas acabam expondo contradições internas e resistência a mudanças, que pouco têm a ver com o dilema que propõem.


Assim é que o diretor executivo da BlackRock, Larry Fink, manifestou dias atrás o seu temor de que o trabalho remoto resulte em falta de produtividade e colaboração. Entre aspas: “A questão mais difícil para todos nós é a retenção de uma cultura. Culturas não foram feitas para serem praticadas de maneira remota”.
Sinceramente, se o dirigente da que é considerada a maior gestora de ativos do mundo faz uma afirmação dessas, penso que a empresa deveria repensar que tipo de cultura interna tem e até onde ela está preparada para os desafios de um mundo em constante mudança. Inclusive, até onde está preparada para auxiliar os clientes em seus investimentos.


A cultura de uma empresa influencia mas não se confunde diretamente com a forma como ela opera, que tanto pode ser num escritório central apenas como em milhares de filiais espalhadas pelo mundo. Estão aí o Mc Donald’s, a Nestlé, a Coca-Cola e tantas outras que não me deixam mentir sozinho… Aliás, todo o segmento de franquias não teria sentido de existir, se prevalecesse tal mentalidade.


Talvez ele esteja se referindo à cultura “de fachada”, em que a empresa enche a boca para falar de sua “missão” e chama os funcionários de “colaboradores”, para fotografar bonito no balanço social. De fato, essa “cultura” talvez não se sustente em teletrabalho, mas não é pelo trabalho à distância e sim pela falta de alicerces mesmo.


Antigamente era assim… - Larry parece achar que seus “colaboradores” deixarão de “colaborar” por estarem longe do olho do patrão. Mentalidade típica do início da era industrial, que alguns gigantes de pés de barro ainda não aboliram.


Ora, se o problema é substituir o relógio de ponto, a Internet está cheia de programas que controlam o ponto dos teletrabalhadores, o tempo que usam para executar cada tarefa, cada interrupção ou pausa para o cafezinho que fizerem. Nem o “Big Brother” de Orwell sonharia com tanto controle possível sobre a vida de cada um. E, mesmo que não houvesse controle algum, o colaborador que não colaborar sempre pode ser convidado a se retirar da empresa em qualquer momento…


Quanto à qualidade do trabalho, já ficou demonstrado pela pandemia que o teletrabalho rende muito mais que o presencial: não há o trânsito congestionado e todos aqueles imprevistos que o acompanham; o funcionário em casa ganha tempo (até quatro horas/dia, só no trânsito), saúde (menos estresse), precisa menos de soluções como fraldário, copa, estacionamento, mesa/computador/caneta/papel/etc., refeitório..., tem menor risco de faltar ao trabalho… a empresa não tem despesa com cafezinho, água, eletricidade... Larry, como especialista em contas, coloque isso na ponta do lápis… ou na planilha de custos… e tire suas conclusões!


Muito antes da pandemia e do teletrabalho vir à tona, multinacionais como as do Vale do Silício, empresas como Google, Apple e Microsoft e tantas outras já tinham se debruçado sobre a questão que tanto aflige nosso ilustre Larry. Para elas, teletrabalho nunca foi problema, bem como a manutenção da “cultura da empresa”. São consideradas entre as melhores empresas do mundo para se trabalhar e ganham muito, muito dinheiro – até porque no mundo atual o que conta é a mente do “colaborador”, não a velocidade das suas mãos ou a força de seus braços. E mente descansada todos sabem que produz mais, cria mais, encontra soluções inesperadas que podem até salvar a empresa da falência.


Mas é possível ainda que Mr. Larry deseje fazer seus colaboradores “experienciarem” o contato com a cultura da empresa (nem eu e nem a Academia Brasileira de Letras sabemos lá que palavra é essa: copiei do site nacional da Blackrock por curiosidade, nunca vi antes… será manifestação de sua “cultura”, Mr. Larry?)


Sem dilema – Tudo bem: da mesma forma que muitas empresas reúnem funcionários em hotel, num final de semana, para trocarem ideias; num auditório de teatro, para palestras motivacionais; num simples restaurante para um papo descontraído; e convidam funcionários, parentes e até o público em geral para um passeio por suas instalações, tudo isso pode continuar acontecendo: o teletrabalho não exclui o trabalho presencial (isso pode ser modulado de acordo com as necessidades), nem as reuniões periódicas presenciais.,


Exemplo nacional é uma jovem (e grande) empresa paulista de investimentos, que já mostrou saber dosar o presencial e o digital para ficar cada vez mais rica. Omito o nome, aliás bem conhecido hoje. Funciona, aliás, como no ensino à distância, o EAD: em certos dias, são marcados os tais encontros presenciais, complementando o relacionamento via Internet.


Por isso é que digo que este é um falso dilema, esse confronto só existe na cabeça de Mr. Fink e seus pares. Nem preciso ir longe ou apelar para as super-multinacionais para encontrar ótimos exemplos: na capital paulista já existem muitos escritórios fechados definitivamente, e não é por falência. É que a experiência do teletrabalho deu tão certo, aumentou tanto sua rentabilidade, que elas decidiram torná-lo definitivo. Confiam que sua “cultura empresarial” em nada será afetada, pois estão sintonizadas com o futuro e preparadas para ele.


E como é que este assunto entra numa coluna ligada à criação, arquitetura e construção imobiliárias? É que ele já está sendo tratado nas empresas destes setores e afetará os próximos lançamentos imobiliários – alguns hoje já destacando, como prevíamos, os novos espaços para teletrabalho e o trabalho compartilhado nos empreendimentos… residenciais!


Enquanto alguns lamentam pelo passado que se foi sem que aproveitassem, “mais e mais pessoas” estão aproveitando para “experienciarem o bem-estar financeiro” e demais oportunidades que o futuro lhes traz. Sorry, Larry, mas você foi infeliz em suas declarações...

 

“Cultura empresarial” é muito mais que apenas juntar pessoas numa sala como a dos pregões da Bolsa de Valores de São Paulo
Foto: Rafael Matsunaga-2007/Wikipédia 

 

Teletrabalho não impede que ocorram reuniões presenciais. É só marcar
Foto: Senivpetro/br.freepik.com


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