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Cotidiano/Saúde | 19/09/2020

Pressão de indústrias ameaça Guia Alimentar brasileiro

MARCO SANTANA - DA REDAÇÃO
Foto: Free Stock

Ministério da Agricultura defende mais complacência com ultraprocessados.

Quem possui doenças crônicas como hipertensão e diabetes sabe que de nada adianta tomar remédios se não houver cuidados com a alimentação. Aliás, a maior parte das enfermidades está, em maior ou menor grau, associada ao tipo de comida consumida. 


Incontáveis estudos científicos comprovam o que o bom senso e a sabedoria popular já indica há séculos: quanto mais natural e fresca a comida, mais saúde. Para ajudar a orientar os brasileiros, evitando alimentos prejudiciais, o Ministério da Saúde lançou em 2006 o Guia Alimentar para a População Brasileira —uma obra ampla, em linguagem clara, resultado de um trabalho conjunto realizado durante anos, com a participação de médicos das mais variadas especialidades, nutricionistas, pesquisadores e até mesmo a chef de cozinha Rita Lobo.


O Guia alerta para as consequências de se consumir alimentos exageradamente industrializados — muitos dos processados e todos os ultraprocessados. Exemplos: bolacha recheada, lasanha de micro-ondas, enlatados com conservantes...


Estes alimentos possuem quantidades exageradas de sódio (sal), açúcar e gorduras (principalmente saturadas), que aumentam o risco de contração de doenças crônicas, prejudicando a qualidade de vida e provocando mortes precoces. 

 

GRUPOS DE ALIMENTOS

In natura- Frutas, verduras, legumes, grãos, ovos

Ingredientes culinários e industriais- Sal, açúcar, farinhas e óleos

Processados- Pães, carnes salgadas, peixes conservados em óleo ou água e sal, queijos 
Ultraprocessados – Bolachas recheadas, pratos prontos de micro-ondas, margarina, salsichas, nuggets, refrigerantes, bebidas lácteas, energéticos. São produtos industrializados que levam edulcorantes, aromatizantes, corantes adoçantes, agentes de carbonatação, de firmeza ou de massa, antiaglomerantes, antiespumantes, carreadores, espumantes, estabilizante de cor, flavorizantes, glaceantes, realçadores de sabor, sequestrantes e umectantes, entre outros.

 

Guia feito por especialistas sob ameaça

Esta semana, o Ministério da Agricultura pediu ao Ministério da Saúde a revisão do “Guia Alimentar para a População Brasileira”, sugerindo a redução de alimentos classificados como ultraprocessados. A nota técnica diz que o guia “impede a autonomia das escolhas alimentares”. 


O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), cujos cientistas colaboraram na elaboração do guia, acreditam que a manifestação do Ministério da Agricultura é resultado de pressões das indústrias de alimentos ultraprocessados. 


Os pesquisadores da USP acrescentam que o guia brasileiro é considerado exemplar pela ONU, Unicef e FAO, inspirou os governos de Canadá, França e Uruguai a produzir os seus e é considerado da mesma qualidade dos guias de países como Alemanha e Suécia. 
 

 


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