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Colunistas/Cinema | 19/09/2020

Dica da semana: O diabo de cada dia

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Se sustenta na atuação de seu elenco e em uma boa direção para se desenvolver.

Desde que foi anunciado o elenco de O Diabo de Cada Dia, novo longa produzido pela NETFLIX, já sabíamos que era um filme para ficar de olho. Adaptar para as telas uma obra literária é uma tarefa muito difícil, dada a complexidade e o nível de detalhes que são abordados em um livro. Uma adaptação para os cinemas precisa criar conexão entre o público e seus personagens aliado a uma história que seja bem desenvolvida e que desperte nossa curiosidade e atenção. O Diabo de Cada Dia tinha um enorme potencial, dada sua ambiciosa premissa sobre ódio, fanatismo religioso e a maldade humana em sua mais pura essência mas desperdiça essa oportunidade com um longa episódico que, se fosse transformado em uma minissérie de 4 episódios, talvez tivesse um impacto maior e o ritmo de sua trama não fosse tão quebrada, sendo obrigado a se sustentar na atuação de seu elenco e em uma boa direção para tentar se desenvolver.


Ambientado entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, O Diabo de Cada Dia acompanha diversos e bizarros personagens num canto esquecido de Ohio, nos Estados Unidos. Cada um deles foi afetado pelos efeitos da guerra de diferentes maneiras. Entre eles, um veterano de guerra perturbado, um casal de serial killers e um falso pregador. O filme é dirigido pelo diretor Antonio Campos, que retrata em sua obra o pior do ser humano e a nossa relação junto ao ambiente em que vivemos. O diretor sabe o exato momento em apresentar um plano mais aberto, dominando a beleza natural das paisagens do interior dos Estados Unidos, enquanto passeia com sua câmera através de uma igreja lotada ou quando invade o espaço dos atores com close-ups milimetricamente equilibrados. Com um primeiro ato excelente, e que mais me agradou, Campos acaba imprimindo pouco de sua personalidade ao filme, caindo no famoso caso onde a forma supera o conteúdo com poucos momentos inspirados mas que perde muito de sua força da metade para o final.


O roteiro, assinado pelo diretor e seu irmão Paulo Campos, é uma escancarada demonstração da podridão humana, repleto de personagens detestáveis que são definidos entre dois tipos: os sofredores e os lobos em pele de cordeiro. O roteiro toma os 40 minutos iniciais do filme para nos situar aos acontecimentos prévios ao real início da história, o que demonstra um grande potencial pelo seu hipnotizante desenvolvimento. Sua narrativa pula entre seus personagens de forma nada sutil, abordando temas como manipulação humana, autoritarismo masculino, assassinato e estupro, deixando a inegável sensação de que poderia ir muito além do resultado final. 


Sem dúvidas, a grande força do filme está em seu elenco, com grandes nomes da indústria que desfilam na tela, alguns com mais tempo do que outros. O destaque fica para Bill Skarsgard, que está ótimo como o jovem soldado que retorna da guerra com um grande trauma, Robert Pattinson (o novo Batman!) que adiciona a sua interessante carreira um personagem totalmente desprezível e odiável ao passo que Tom Holland se desvencilha de sua imagem de Homem Aranha, com uma atuação madura e corrompida pela raiva e pela dor. 


O Diabo de Cada Dia possui uma narrativa densa, mas falta alma, coragem e ousadia para que pudesse ser comparada a outras obras marcantes sobre tragédias do cotidiano. Mesmo assim, os esforços da direção e do roteiro aliado a grandes interpretações de seu admirável elenco, faz com que sua trama valha a pena em alguns momentos. 


Curiosidades: O roteiro foi adaptado da obra de 2011 de mesmo nome do autor Donald Ray Pollock, que também é o narrador do filme.
 


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