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Colunistas/Fronteiras da Ciência | 26/09/2020

Aprendendo a ouvir

Jadir Albino é apresentador do programa "Fronteiras da Ciência", exibido aos domingos, às 19h, na Santa Cecília TV, com reapresentação aos sábados, às 21h.

Foto: Pixabay

Saber ouvir é uma virtude. 

Ela era uma senhora solitária, envolta no luto da dor, desde que o marido morrera. 


Vivia só, na grande casa do meio da quadra. Casa com varanda e cadeira de balanço.


Todas as manhãs, o entregador de jornais, garoto de uns 13 anos, passava pedalando sua bicicleta e, num gesto bem planejado, atirava o jornal nos degraus da varanda.


Nunca errava. Paff! 


Era o sinal característico do jornal caindo no segundo degrau.


Então, numa manhã de inverno, quando se preparava para lançar o jornal, ele a viu.


Parada nos degraus da varanda, de pé, acenando-lhe para que se aproximasse.


Ele desceu da bicicleta e foi andando em direção a ela. 


“O que será que ela quer?” - Pensou o garoto. “Será que vai reclamar de alguma coisa?”


-Venha tomar um café - falou a senhora. 


-Tenho biscoitos gostosos.


Enquanto ele saboreava o lanche que lhe aquecia as entranhas, ela começou a falar.


Falou a respeito do marido, de suas vidas, da sua saudade. Passado um quarto de hora, ele se levantou, agradeceu e saiu. No dia seguinte e no outro, a cena se repetiu.


O menino decidiu falar a seu pai a respeito. Afinal, ele achava muito estranha aquela atitude.


O pai, homem experiente, lhe disse: 
-Filho, ouça apenas. A senhora Almeida deve estar se sentindo solitária, após a morte do marido.


E o pai continuou: -Deixe-a falar. Recordar os dias de felicidade vividos deve lhe fazer bem ao coração. É importante que alguém a ouça.


Nos dias que se seguiram, nas semanas e nos meses, o garoto aprendeu a ouvir, demonstrando interesse em seus olhos verdes e espertos.


Quando a primavera chegou, ela substituiu o café quentinho pelo suco de frutas. O verão trouxe sorvete.


Ao final, o entregador de jornais já iniciava sua tarefa pensando na parada obrigatória em casa da viúva.

 

Habituou-se a escutar e escutar. Percebeu, com o tempo, que a velha senhora foi mudando o tom das conversas.


Como a primavera, ela voltou a florir, nos meses que vieram depois.


Quando o ano findou, a família do menino mudou-se para outra cidade.


O tempo se encarregaria de lecionar mais esperança no coração da viúva e amadurecer ideias no cérebro jovem.


Muitos fatores contribuíram para que o garoto e a viúva não tornassem a se encontrar.


Contudo, uma lição o acompanhou por toda a vida. Ele nunca se esqueceu da importância de ouvir as pessoas, suas dificuldades, seus problemas, suas queixas.


Lição que contribuiu também para o seu sucesso como esposo, pai de família e profissional.


[com base em texto da Revista Seleções e na Redação do Momento Espírita]


Saber ouvir é uma virtude. 


De um modo geral, nos cumprimentamos, perguntando uns aos outros, como está a saúde e a dos familiares.


Raramente esperamos por uma resposta que não seja a padrão: “Tudo bem”.


Normalmente, se o outro passa a desfiar o rosário das suas dores e a problemática da família, nos desculpamos apontando as nossas obrigações e os nossos afazeres.


Entretanto, quando nos sentimos tristes, desejamos ardentemente que alguém nos ouça, que escute a cantilena das nossas mágoas.


Certa vez, Chico Xavier disse: “Aprenda a ouvir aqueles que lhe buscam o auxílio: escutar para socorrer é uma arte valiosa”.
 


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete a linha editorial e ideológica do Jornal da Orla. O jornal não se responsabiliza pelas colunas publicadas neste espaço.


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