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Colunistas/Cinema | 26/09/2020

Dica da semana: Enola Holmes

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Foto: Divulgação

O filme deixa a impressão que uma nova franquia está por vir.

Quando Enola Holmes, filme adquirido pela NETFLIX, foi apresentado para o público, muitas pessoas ficaram desconfiadas com a qualidade do projeto, pois sua história apresenta um jovem Sherlock Holmes como mero coadjuvante, sendo até justificável a sensação que este longa não entregaria um resultado satisfatório por focar em Enola, irmã mais nova do famoso detetive. Apesar de não se aprofundar muito dentro da narrativa de sua protagonista, o longa estrelado pela talentosa Millie Bobby Brown entrega exatamente aquilo que seus materiais de divulgação prometiam: uma aventura com toques de fantasia e com uma boa personagem que, mesmo não ofuscando o maior detetive que a literatura já conheceu, ao menos chega próximo.


No filme, Enola Holmes (Millie Bobby Brown) é uma menina adolescente cujo irmão, 20 anos mais velho, é o renomado detetive Sherlock Holmes (Henry Cavill). Quando sua mãe desaparece, fugindo do confinamento da sociedade vitoriana e deixando dinheiro para trás para que ela faça o mesmo, a menina inicia uma investigação para descobrir o paradeiro dela, ao mesmo tempo em que precisa ir contra os desejos de seu irmão, Mycroft (Sam Claflin), que quer mandá-la para um colégio interno só de meninas. O filme é dirigido por Harry Bradbeer,que traz uma abordagem leve e engraçada ao material, usando o feminismo como pano de fundo e abordando questões de igualdade de gênero de forma atual e cativante. Logo de início, o diretor já faz a protagonista quebrar a quarta parede, onde a personagem fala direto para o público, o que cria uma imediata conexão com a protagonista e o acerto de seu diretor ao manter o protagonismo em Enola, fazendo com as poucas aparições de Sherlock ganhem uma importância maior. Porém, uma das questões que tornam o longa um pouco vagaroso e atrapalha em alguns momentos-chave é sua duração, onde um corte mais afiado e enxuto talvez tornaria a história mais dinâmica, dando como exemplo a versão de Sherlock Holmes do diretor Guy Ritchie, que usou e abusou de uma montagem mais "alucinada", fazendo com que o público ficasse atento a cada pista e descoberta.


O roteiro, assinado por Jack Thorne, implementa muito bem a questão do feminismo dentro do contexto em que as mulheres eram tratadas naquele período e o amadurecimento e independência de Enola. O que me incomodou um pouco e deixou a impressão de que a história não avançava, foram as duas tramas (busca pela mãe e a ajuda ao nobre) ficarem em encontros e desencontros constantemente, onde quando tudo se tornava um pouco mais intrigante, o roteiro parava e voltava a sua atenção para a outra subtrama, quebrando demais o ritmo do filme.


No quesito técnico, a montagem atrapalha um pouco pois poderia deixar de ser cansativa durante a metade do filme, criando uma conexão maior com o público, ao passo que a direção de arte constrói uma excelente ambientação, com figurinos e cenários acima da média para um filme lançado direto em streaming.


O filme acerta na escolha de seu elenco, com todo o destaque para o jovem talento de Millie Bobby Brown, que traz charme, energia e sagacidade a uma promissora personagem e a Henry Cavill, que traz uma interessante e inovadora abordagem ao célebre detetive, tornando-o uma figura mais humana e empática (mas não menos inteligente) do que estamos acostumados a ver.


Enola Holmes poderia se aprofundar mais no lado detetive de sua protagonista ou em uma narrativa mais ágil para prender o público, mas é divertido, possui uma suntuosa direção de arte e atuações convincentes que deixam a impressão que uma nova franquia está por vir.


Curiosidades: Esta história, que tira o protagonismo de Sherlock Holmes, vem de um livro da autora norte-americana Nancy Springer.

 



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