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Colunistas/Cinema | 17/10/2020

Dica da semana: Os 7 de Chicago

Diego cursou Crítica Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo.

Reprodução

Enfurecedor e revoltante retrato de uma sociedade que se recusa a mudar. 

A NETFLIX tem me surpreendido cada vez mais, ao apresentar ao grande público o mundo dos filmes estrangeiros, e também ao apostar em projetos autorais e que não teriam grande apelo junto aos gigantes estúdios para uma distribuição mundial. Constantemente, a poderosa empresa de streaming tem nos brindado com produções originais que cada vez mais estão presentes na corrida ao OSCAR, porém com o grande preconceito da Academia com este tipo de produção voltada direto para a TV, não tem tido o merecido reconhecimento. Acredito que Os 7 de Chicago veio para quebrar definitivamente esse paradigma, devido a sua poderosa e minuciosa narrativa sobre os eventos que aconteceram na cidade de Chicago nos anos 60. 


Baseado em uma história real, o longa Os 7 de Chicago acompanha a manifestação contra a guerra do Vietnã que interrompeu o congresso do partido Democrata em 1968. Ocorreram diversos confrontos entre a polícia e os participantes. No total, dezesseis pessoas foram indiciadas pelo ato. Os organizadores da manifestação (entre eles Abbie Hoffman, Jerry Rubin, Tom Hayden e Bobby Seale) foram acusados de conspiração e incitação à desordem. O julgamento do caso se tornou um dos mais famosos da história dos Estados Unidos. Com direção e roteiro do brilhante Aaron Sorkin, Os 7 de Chicago casa perfeitamente com o atual cenário político que estamos vivendo agora. Sem nenhum minuto a perder, o diretor espera que seu público já conheça pelo menos um pouco da história do movimento, já iniciando o filme no julgamento e seus desdobramentos, construindo sua história com 95% de sua projeção através de diálogos, sendo estes extremamente ágeis, rápidos e bem articulados (marca registrada do diretor e roteirista). As habilidades de Sorkin com diálogos e desenvolvimento de narrativa são admiráveis e aqui, o diretor mostra um grande amadurecimento como diretor em uma condução com início, meio e fim e expondo seu domínio junto ao seu excepcional elenco.


Reconhecido tanto pela qualidade quanto pela inteligência de seus roteiros, Aaron Sorkin não decepciona mais uma vez, entregando ao público diálogos inspiradores e com diversos momentos emocionantes, como alguns monólogos no terceiro ato, porém com uma grande paciência e cadência em entregar certos elementos, este desenvolvimento acaba prejudicando o envolvimento do público com a história, uma vez que a grande quantidade de personagens acaba atrapalhando a nossa empatia por eles, sendo que muitos não tem o mesmo desenvolvimento que outros.


A edição do filme já começa frenética em seus minutos iniciais, com recortes de acontecimentos reais apresentando ao público todos os personagens de maior relevância a história aliado a uma montagem fluída e orgânica que acelera nos momentos de maior tensão. Outro ponto de destaque é a tensa e intoxicante trilha sonora que eleva a importância e relevância da história para os tempos atuais. 


Além de nos dar uma aula da História Americana, o filme também nos brinda com um elenco fabuloso e, mesmo com a dificuldade de destacar algum ator em meio a tantos talentos, no mínimo dois estão em outro patamar: Abdul-Mateen II, como o líder dos Panteras Negras tem uma das performances e monólogo mais impactantes do filme junto a uma grande atuação de Sasha Baron Cohen, que comprova seu talento não só para a comédia mas também em momentos dramáticos. 


Os 7 de Chicago seria relevante e atual não importa o ano em que fosse lançado e que deixará o público indignado e com o estômago embrulhado com seu enfurecedor e revoltante retrato de uma sociedade que se recusa a mudar mesmo 50 anos depois destes importantes acontecimentos.


Curiosidades: Aaron Sorkin ganhou o Oscar de melhor roteiro por A Rede Social, de 2010.


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