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Colunistas/Criar e Construir | 17/10/2020

Tudo converge para uma nova realidade

Carlos Pimentel Mendes é jornalista, especialista em transportes e logística, criador e editor do primeiro caderno regional de Informática, criador do primeiro CD-ROM (quem ainda sabe o que é isso?) brasileiro totalmente em linguagem HTML da Internet, pioneiro na interação regional entre Web e jornal impresso (y otras cositas más)...

Captura de tela/ONU-Brasil

É sempre uma questão de optar entre retroceder ou avançar para um mundo melhor, com distribuição de recursos e qualidade de vida. 

Da mesma forma como muitos neste século 21 insistem em que a Terra é plana – respeito sua opinião, mas tenho motivos de sobra para não concordar –, também existem muitos mais que acreditam que com o fim da pandemia tudo voltará ao normal, basta não fazer nada e esperar que tudo passe. Também neste caso, tenho muitos motivos para não concordar, que venho apresentando nestas colunas há muitos meses.


Insisto no alerta, pois as transformações que levarão ao “novo normal” estão acontecendo e quem minimizá-las corre o risco de perder o foguete da história (ou quem sabe o bonde, que vem ressurgindo como alternativa mais ecológica para as cidades, alinhado com a nova proposta por melhor qualidade de vida…).


Algumas das transformações começaram a ser elaboradas duas décadas antes de se pensar nesta pandemia. Os governos começaram a pensar nelas dentro do projeto Agenda 21, as Nações Unidas desenvolveram em setembro de 2015 a proposta dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para serem atendidos até 2030 (logo ali, pois 5 anos já se foram e os outros 10 anos passam mais rápido do que muitos imaginam).


Como a implementação das transformações em nível governamental esbarrava em muitas dificuldades, como a criação de acordos internacionais e normas nacionais, os prefeitos das cerca de 100 maiores cidades do mundo resolveram tomar a frente do processo, criando mecanismos práticos, inclusive de autofinanciamento e parcerias, para agilizar as mudanças.


Várias dessas cidades já estão implantando ações voltadas à melhoria das condições de vida e urbanização, como o incentivo a bicicletas e transportes movidos a eletricidade (e pensar que Santos teima ainda em jogar no lixo um século de experiência no setor, primeiro extinguindo o amplo sistema de bondes – que nestas duas décadas ressurgiu mas só para fins turísticos –, e nos dias atuais desincentivando qualquer iniciativa para manter os trólebus em funcionamento). Só para lembrar: só não conseguiram ainda acabar com o sistema de trólebus por haver uma medida protetiva do Patrimônio Histórico que impede seu desmantelamento de vez, e vários grupos quase anônimos que lutam para que não seja extinto).


Se estas observações estão mais ligadas aos leitores especialistas em Urbanismo, há outras que devem interessar aos construtores imobiliários, aos engenheiros, aos arquitetos e designers de interiores.


Por exemplo, já existem normas nacionais da ABNT quanto à supressão de ruídos nas novas construções imobiliárias, versando tanto sobre a passagem de sons através das lajes e paredes, como através das janelas. E as pessoas ainda lembram dos primeiros dias do isolamento social, quando voltaram a ouvir os passarinhos nas árvores, tal o silêncio reinante com a redução dos transportes. Isso tem sido medido por pesquisas internacionais. A propósito, este é o Ano Internacional do Som.


As cidades ficaram um pouco menos poluídas, como efeito do isolamento até dava para ver um pouco mais de estrelas no céu. A atmosfera mais limpa também reduziu problemas respiratórios e ajudou a melhorar a qualidade de vida. As pessoas gostariam que isso permanecesse, e essa tendência tem impulsionado a comercialização de imóveis que levem mais em consideração o paisagismo, o frescor da natureza.


Abordamos nestas colunas os novos hábitos adquiridos nestes meses de isolamento social, e já registramos como vários segmentos da população se manifestam abertamente pela manutenção do trabalho em casa (pelo menos em tempo parcial). O patronato também descobriu as vantagens (e quem descobriu primeiro já expandiu os negócios e está lucrando muito) e os gestores municipais perceberam o efeito positivo na redução das necessidades de deslocamento casa-trabalho: menos congestionamentos nas principais vias públicas.


A comodidade de usar a Internet para encomendar de tudo e receber em casa fez crescer exponencialmente o comércio eletrônico, e quem investiu e já colhe os resultados pode no máximo reabrir a loja física, nunca desistir do investimento feito nas novas ferramentas tecnológicas.


Não deve ser esquecida uma nova tendência do comércio se aproximar dos clientes, fidelizando-os, como faziam os antigos mercadinhos de bairro, as chamadas “vendinhas” ou quitandas. Agora, essas quitandas fazem parcerias com as construtoras imobiliárias para que os empreendimentos reservem um pequeno espaço onde serão colocados quiosques de atendimento direto e personalizado aos moradores.


As soluções tecnológicas para a Educação ainda são o maior entrave, não pela tecnologia, mas pela demora a se propagarem a cada estudante. Os governos já perceberam isso e São Paulo, por exemplo, está desenvolvendo iniciativas para que cada estudante tenha acesso efetivo à Internet para continuar os estudos, além do programa Professor Conectado, para incentivar os mestres a usarem a tecnologia como ferramenta pedagógica.


Não é nenhuma novidade, programas assim existem há mais de uma década em estados e municípios, mas a necessidade atual se encarrega de dar um incentivo a mais. Tem professor virando ‘youtuber’, produzindo blogues educacionais e outros materiais… Bom lembrar que os brasileiros têm uma grande facilidade inata de se adaptar a novas tecnologias, é só comparar nosso sistema bancário com o de muitos países “de primeiro mundo”.


Como último argumento demonstrando que o mundo está mudando rápido, já comentamos que o tempo conspira a favor da implementação das mudanças. Na Europa, infelizmente, está havendo um rebrote da pandemia, ou o início de um novo ciclo pandêmico. No Brasil os números estão caindo, mas o desrespeito ao isolamento social cobra seu preço, fazendo com que infelizmente mais gente morra e mais tempo seja necessário para que se possa retomar plenamente as atividades com presença física, aí incluídos certamente o turismo e o lazer em geral.


Claro, tem gente que é “do contra”, que não quer mudanças. Mas o mundo também convive com os vândalos que destroem patrimônio público, os corruptos de todas as espécies, os que só pensam em si e acham que podem ignorar a enorme parcela da Humanidade mais desprovida de recursos…


É sempre uma questão de optar entre retroceder a uma situação pior (e aguardar por uma próxima e nesse caso inevitável pandemia) ou avançar para um mundo melhor, com melhor distribuição de recursos e mais qualidade de vida. Seja a Terra plana ou redonda.

 

Nações Unidas relacionaram em 2015 os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
Imagem: captura de tela/ONU-Brasil
 


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