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Colunistas/Fábrica de Textão | 16/10/2020

Cacos que contam histórias

Redator publicitário

De perto nenhum chão é igual.

Olhe pra baixo. Seus pés agora estão descalços. Sem aquele sapato apertado. Estão até ligeiramente sujos. Pés de quem correu, pulou, brincou. De quem chutou a bola, a cadeira e até o chão. Aquele chão.

 

O chão de cacos. Um dos nossos palcos da infância. Quantas partidas memoráveis de futebol este chão não testemunhou? Quantas disputas ferrenhas de pega-pega, esconde-esconde, banhos de mangueira, churrascos de família?

 

Por quantas vezes ele nos serviu de observatório natural? Deitados sobre ele, observávamos o céu, as estrelas, a natureza. Imaginávamos e criávamos universos a nossa maneira.

 

Se você teve a sorte de pisá-lo, sabe que a energia dali era diferente. E tinha que ser o pé mesmo. Nada de tênis ou chinelos. O certo era pisá-lo descalço.

 

A sensação de liberdade, de felicidade, de leveza. Era tocar o chão para sentir-se flutuar.

 

Chão da casa da avó, da casa do tio, da tia, dos pais. Chão das festas de final de ano, dos almoços de domingo, dos jogos de Copa de Mundo, dos aniversários com a família. Chão que virava escola, oficina, atelier, laboratório. Chão que conectava mundos, pessoas. Que te levava para viajar sem nem tirar os pés dele. Do chão.

 

Chão que te viu ajoelhar-se e chorar algumas vezes. Mas que também te viu rolar de tanto rir. Que viu vocês se sentarem por ali, se ajeitando ao pé da parede mesmo, e dividirem momentos, histórias, gargalhadas. Por horas e horas. Sem se darem conta do tempo passando.

 

Chão que acompanhou, daquela perspectiva térrea, outros tantos pés que estavam sempre chegando. Mas também, tantos pés que partiam. Que iam e não voltavam mais.

 

Chão que te viu ficando mais longe dele. Mais distante, mais alto, mais calçado. Com menos tempo para bater aquela bolinha no domingo. Com apenas uma passada rápida no almoço. Com no máximo um aceno, dado ali da calçada, sem nem precisar entrar.

 

Vocês que foram tão próximos, já não se tocavam mais. Esse chão que se movia um pouco a cada pulo de alegria que você dava, hoje permanece imóvel, lembrando da deliciosa massagem que as rodas da sua bicicleta faziam nele. Ele estava ali quando você arriscou as primeiras pedaladas, lembra? E até tentou evitar a queda, mas não dependia dele. Tudo bem. Apoiado nele, você levantou-se e decidiu tentar de novo. Deu certo.

 

Esse chão era uma janela. Uma forma de mostrar ali no quintal, como seria preciso viver lá na rua.

 

E agora, quando olhamos para trás, percebemos que não era o cimento que conectava os cacos. Eram as histórias que aconteciam em cima deles.

 

Realmente, mosaicos fazem muito mais sentido quando olhamos de longe.

 

 

 


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